A campanha da segunda estrela deve ser encarada como uma aula

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19.02.2019, 05:00:00
Atualizado: 19.02.2019, 09:13:37

A campanha da segunda estrela deve ser encarada como uma aula


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Tem trio na Barra hoje, corre à boca pequena, a dois dias do Carnaval de 1989. E lá estou atrás da banda Beijo, sentido Ondina-Barra. Mas chega a hora de sair no Cristo e pegar, na Centenário, o primeiro via Dique. O ônibus vence o engarrafamento, aquela loucura para entrar na Fonte, vai começar Bahia x Sport.

Relembrar o bi nacional é reviver a Salvador que ganha o edifício da Casa do Comércio, vê a estreia de A Bofetada, o lançamento do Superoutro e que fica em alerta com a ameaça de dom Lucas Neves: não vai ter lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim.

A cidade vibra com os investimentos de US$ 30 milhões  anunciados por seu Mamede na rede Paes Mendonça, a ampliação da Universidade Católica para o campus de Pituaçu e a duplicação do ferry Agenor Gordilho. Respira feliz. O trânsito no Jardim Brasil, Ondina e Graça não fica caótico com a chegada do Shopping Barra, um ano antes.

Zélia e Jorge emplacam os livros mais vendidos com Jardim de Inverno e o Sumiço da Santa. Banda Reflexu’s supera Paralamas e Legião em venda de discos. A inflação em 12 meses ultrapassa os 900%. Tristeza. E luto no mundo jurídico com as perdas de Orlando Gomes, Manuel Ribeiro e Carlos Coqueijo. Chico Mendes é assassinado e deixa o legado, não vão conseguir apagar.

Contar histórias de 1988 em 88 Histórias é aprender um pouco mais sobre o nosso lugar, a vida e do que somos capazes. No futebol e fora dele. Das relações humanas. Em acreditar, não se curvar. E da humildade em aprender com os mais velhos.

Evaristo de Macedo, uma referência no futebol mundial. Faz o que faz na Espanha e, mais do que conquistar as torcidas de Barcelona e Real, implanta, de verdade, o futebol no Catar.

Ganhar um Campeonato Brasileiro por um clube sem condições financeiras, recuperando jogadores considerados dispensáveis, impondo a ordem, trabalhando muito e, principalmente, mostrando a cada um dos envolvidos – jogadores, cartolas, funcionários, torcida e imprensa – que é possível estar à altura das façanhas internacionais.

Onipresente. Treinador de goleiros, auxiliar da preparação física, gerente do Fazendão, nutricionista, bedel, líder, psicólogo. Adversários, tremei! “Vamos dar bicicleta nos cornos deles”, repete.

Diante do técnico, a base de um time farto de títulos estaduais, jogadores de times do interior da Bahia segurando a grande chance da vida, e outros do interior de São Paulo, recebidos com aquela hospitalidade que eles bem conhecem.

Some-se a isso um grupo de apaixonados, anônimos ou não, responsáveis por fazer o tricolor, a instituição sobreviver durante anos. O clube deve uma estátua a gente como Carminha Tanus, conselheira espiritual, financeira, mãe.

O resto, a velha capital da Bahia se encarrega de fazer. Nas mesas do Travessia, Sancho Pança, nos ensaios do Olodum ou nas lambadas do Sabor da Terra, o balanço das resenhas do dia a dia. A fé de seu Alemão, o candomblé por toda a parte, as sessões de filmes proibidos na madrugada, o ócio no ermo de Itinga.

A campanha da segunda estrela deve ser encarada como uma aula, um tutorial. Temos muito a aprender. Ainda há tempo.

 
Flávio Novaes é jornalista e autor de 88 Histórias da Segunda Estrela, com lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano.

Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores

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