A engrenagem não para

victor uchôa
17.03.2018, 05:16:00

A engrenagem não para


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Na semana passada, escrevi aqui sobre a articulação de Marco Polo Del Nero para que um assecla seu, Rogério Caboclo, seja candidato único nas próximas eleições da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O plano segue a todo gás. 

Essa semana, a Fifa, que em dezembro afastou Del Nero de qualquer atividade ligada ao futebol por três meses, estendeu a suspensão por mais 45 dias, período em que o processo deve ser finalizado e, como o próprio cartola já prevê, ele deve levar uma pesada punição. 

É muito triste parecer repetitivo, só que mais triste ainda é ver esses fatos se sucederem sob o silêncio dos grandes clubes brasileiros, que, ao que tudo indica, continuarão dentro dessa engrenagem corrupta e enganadora, uma engrenagem que, no fim das contas, só faz prejudicar os próprios clubes – e, claro, enriquecer alguns cartolas, incluindo aí dirigentes de clubes e federações estaduais Brasil adentro.  

E ainda tem gente que gasta energia se esgoelando para defender esse ou aquele cartola, provando que, sim, há muito bobo no futebol.

Um lutador
Numa coluna usual, o tópico acima viria abaixo deste aqui, simplesmente porque, independentemente do volume de texto, tem mais importância homenagear um grande desportista do que criticar (mais uma vez) a infâmia do futebol brasileiro.

Acontece que, circunstancialmente, o lamento exposto acima é a deixa ideal para citar Bebeto de Freitas, que morreu essa semana aos 68 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Bebeto era o tipo de lutador que não sucumbiria (e não sucumbiu) facilmente ante figuras como Marco Polo Del Nero.  

Os desportistas brasileiros e todos que sonham com menos roubalheira em todo canto perderam um grande exemplo de atleta, técnico e gestor. Bebeto nunca se curvou à estrutura que deteriora o esporte nacional e foi o primeiro a expor os esquemas de Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que chegou a ser preso no ano passado.

Quando da prisão de Nuzman, Bebeto foi logo procurado para comentar o caso. Então, afirmou: “Estou triste. Trabalhei pra caramba. Não trabalhei pra ele ser preso, não. Trabalhei pra c... pra esse vôlei do Brasil. Essas coisas perduram por culpa nossa. A culpa é daqueles que não tiveram coragem de botar o dedo na ferida e falar. Era mais fácil dizer que eu estava maluco, doido. Culpa de todos nós, do vôlei. Esses anos todos sempre soubemos, sempre tivemos certeza de que coisas erradas aconteciam. Culpa das confederações, federações, de todos. Essas coisas só acontecem quando as pessoas não se revoltam. Enquanto no Brasil esse sentimento não aflorar, a gente vai viver no país de merda em que a gente vive”.

O lamento de Bebeto de Freitas estava direcionado ao vôlei, mas poderia ser aplicado ao futebol, ao basquete, à natação, ao judô, a tantas outras modalidades e, especialmente, à classe política do país, tão suja quanto boa parte dos dirigentes esportivos.

Todos estão intimamente ligados e, como já escrevi diversas vezes, dirigente esportivo faz o que quer no Brasil porque encontra suporte no meio político – isso quando não vira o próprio político.

Com a morte de Bebeto de Freitas, resta apenas a torcida para que suas palavras sigam ecoando, para que as pessoas se revoltem e botem o dedo na ferida, para algum dia, quem sabe, mudarmos esse país de merda em que a gente vive.

Victor Uchôa é jornalista

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