A Rússia, a Bahia, e a corrida pela vacina

entrelinhas
15.08.2020, 06:00:00

A Rússia, a Bahia, e a corrida pela vacina


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Sputnik é o nome do satélite artificial russo lançado em 1957, dando início à corrida espacial. Sputnik V, a vacina contra o novo coronavírus anunciada pelo presidente russo, Vladimir Putin, na segunda-feira, 10, como a primeira registrada no mundo para combater a pandemia. Ao todo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), existem 165 vacinas contra o vírus sendo desenvolvidas em todo o mundo, mas apenas seis delas estão avançadas nas pesquisas, nenhuma é a anunciada por Vlamidir Putin. 

A Bahia testa, atualmente, três dessas vacinas mais promissoras, todas em Salvador: a da Universidade de Oxford com a AstraZeneca; e duas substâncias desenvolvidas pela farmacêutica americana Pfizer em parceria com a alemã BioNtech, que ao final do processo vão se combinar para formar uma única vacina.  

Ainda segundo a OMS, fora as que já estão em teste entre os voluntários soteropolitanos, as outras mais avançadas são três chinesas: a CoronaVac, da empresa chinesa Sinovac; o imunizante da CanSino, já sendo testado nos Emirados Árabes Unidos; e a da Sinopharm, que criou duas versões de vacinas. Outra pesquisa bem à frente da Rússia é a norte-americana da empresa Moderna, sendo testada em humanos desde março e com investimento de quase US$ 1 bilhão de Trump. 

A OMS alega que a vacina russa foi registrada ainda na fase 1 dos estudos, sem as validações das fases 2 e 3, sendo que é só na última etapa que a substância pode ser testada em humanos. As críticas à vacina russa pautaram o debate científico da semana, motivadas pela recusa do governo Putin de liberar os dados da pesquisa. 

Putin divulgou imagens da própria filha tomando a Sputnik V para convencer sobre a segurança da vacina, seus detratores chamaram a ação de 'golpe de marketing' (Foto: Alexey Druzhinin/AFP)

Uma enquete publicada na sexta-feira, 14, com três mil médicos russos revela que a maioria deles afirma não se sentir seguro em receber a vacina do próprio país para imunizar a população, justamente por conta da falta de informação e pelo fato da aprovação ter ocorrido em ritmo acelerado.

Também na sexta-feira, 14, o governo baiano anunciou que enviou documentos para a China e a Rússia demonstrando interesse em testar as vacinas desses países. Se tudo correr como esperam as autoridades estaduais, serão duas vacinas chinesas a ser testadas na Bahia - as da Sinopharm –,  mais a de Putin. 

Se os protocolos de cooperação com os dois países se concretizarem, a Bahia será o principal estado brasileiro a servir de polo de testes para as vacinas contra a covid-19. As doses, no entanto, além da Bahia, seriam também distribuídas entre os outros estados do Consórcio Nordeste, que é presidido pelo governador Rui Costa.

O protocolo com a Sinopharm, se for aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) prevê que os testes já comecem na primeira quinzena de setembro e durem três meses. Pelo acordo, o governo baiano receberá os resultados oficiais e detalhes das duas fases iniciais da pesquisa da Sinopharm. 

Pelo acordo, são 9 mil doses dos imunizantes experimentais chineses e o Instituto Couto Maia será o centro de pesquisas. No caso das vacinas de Oxford/AstraZeneca e da Pfizer/BioNtech, os centros de pesquisa são, respectivamente, o Hospital São Rafael e as Obras Sociais  Irmã Dulce (Osid). 

Antes mesmo do anúncio de Putin de que a Sputnik V já foi registrada, no começo deste mês o governo baiano demonstrou interesse em fazer parte dos testes russos. O que travou o avanço do convênio é a resistência russa em liberar a pesquisa. Essa semana, em entrevista ao CORREIO, o secretário estadual de Saúde, Fábio Villas-Boas, afirmou que sem os dados a vacina não seria testada na Bahia. O governador Rui Costa, na sexta, enfatizou que nenhuma vacina será testada em larga escala na população e sim em grupos de voluntários. O convênio com a Rússia, no entanto, segue indefinido.

O Paraná também manifestou interesse em fazer convênio com a Rússia e esbarrou no mesmo empecilho baiano, a falta de informações transparentes. O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, disse na quinta-feira, 13, que os dados da vacina russa "ainda são incipientes" e que na opinião dele, a melhor opção de imunizante é o de Oxford. Basicamente, seguiu a tendência dos cientistas ocidentais e da OMS. Em Salvador, 700 voluntários já tomaram a substância.

A expectativa mundial é que a vacina contra o coronavírus seja colocada no mercado ainda este ano, em dezembro, ou, no mais tardar, no primeiro bimestre de 2021. Mas se Putin quiser honrar o pioneirismo do nome Sputnik, vai ter de abrir sua caixa de pandora.

Outros destaques da semana

A galáxia em formato de anel incandescente lembrou os nerds do Um Anel de Tolkien (Foto: ALMA/ESO)

Galáxia em forma de anel brilhante é descoberta

Uma equipe de astronômos europeus publicou na quarta-feira, 12, na revista Nature, a descoberta de uma galáxia que fica a 12 bilhões de anos-luz da Terra e tem o formato de um anel incandescente. A imagem captada pelos astrônomos e divulgada pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) dá uma ideia de como era o universo quando tinha 1,4 bilhão de anos, pouco depois do Big Bang, praticamente na aurora dos tempos. Nas redes sociais, os internautas brincaram com a semelhança da galáxia com o ‘Um Anel’ da saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien.

Conheça 5 descobertas da ciência feitas por acaso

Ciência é coisa séria e as pesquisas levam anos, até décadas. Mas, de vez em quando, o acaso dá uma ajudinha e os pesquisadores fazem descobertas revolucionárias:

1. Microondas - As microondas de calor que fazem o seu forno funcionar foram descobertas nos anos 1940 quando o engenheiro Percy Spencer testava uma válvula termiônica e uma barra de chocolates dentro do seu bolso derreteu. Spencer então começou a testar a válvula em outros objetos e concluiu que eles derretiam por causa da energia das pequenas ondas de valor. O primeiro microondas da história foi patenteado em 1945 e chegou ao mercado dois anos depois.

2. Raios-X - Em 1895, o físico alemão Wilhelm Roentgen trabalhava com tubos de raios catódicos no seu laboratório quando percebeu que os feixes iluminavam uma divisória na sala. Ele tentou bloquear a luz com diversos objetos, sem sucesso, até que teve a ideia de colocar sua mão em frente aos tubos e viu os ossos refletidos na divisória.

3. Velcro - O lacre das tornozeleiras com pesos que você usa na academia foi inventado pelo engenheiro suiço George de Mestal. Ele se inspirou em uma planta do gênero Arctium que tinha ficada grudada em sua roupa durante um passeio nos Alpes. As sementes da planta eram cobertas por pequenos ganchos que permitiam que ficassem pressas ao tecido.

4. Marca-Passo - O aparelho vital para muitos pacientes cardíacos deriva de uma tentativa do engenheiro americano Wilson Greatbatch de construir um aparelho capaz de gravar os batimentos do coração. Ele instalou um resistor em sua máquina e percebeu que ela emitia pulsos elétricos que estimulavam a atividade cardíaca. Foi assim que, em 1958, o primeiro marca-passo da história foi implantado no coração de um cachorro, salvando a vida do bichinho.

5. Penicilina - O antibiótico foi descoberto pelo bacteriologista Alexander Fleming, que percebeu o crescimento de um fungo em suas amostras da bactéria staphylococcus. O fungo raro, do gênero Penicillium chrysogenum impedia o crescimento das bactérias. A partir da descobeta de Fleming surgiu a penicilina, que chegou ao mercado em 1940.

Frase:

 Agnaldo Silva é o autor de Fina Estampa, novela de 2011 (Fábio Seixo/AG. O Globo/Arquivo)

"Um ator diz que Fina Estampa 'devia ser proibida de ser reprisada'. Acho que ele quis dizer que os 50 milhões de espectadores que a veem deviam ser proibidos de gostar tanto da reprise da novela. E eu, que vivi os tempos da censura, achando que finalmente era proibido proibir", Aguinaldo Silva

O autor de novelas rebateu as críticas do ator Marco Pigossi, que durante live com João Vicente de Carvalho, no Instagram do canal GNT, afirmou sentir ‘vergonha’ tanto da sua atuação no começo da carreira quanto do texto da novela exibida originalmente em 2011. Para Pigossi, Fina Estampa contém ‘barbaridades’. Na segunda-feira, a reprise marcou 37,1 pontos de audiência

Inês Marchalek Zarpelon é juíza em Curitiba, no Paraná (Foto: Reprodução)

Racismo em sentença

A juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal de Curitiba, no Paraná, condenou um homem negro a 14 anos de prisão por furto e organização criminosa e, ao justificar a sentença, disse que o acusado era "seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça". O caso ganhou notoriedade depois que a advogada do réu publicou a sentença no Instagram, denunciando o ato de racismo da juíza. Em nota divulgada pela Associação dos Magistrados do Paraná, a juíza disse que a raça não foi critério para a sentença e sim as provas do processo. A juíza ensaiou um pouco convincente pedido de desculpas ‘se ofendeu alguém’ e afirmou que a frase fazia parte de um ‘contexto maior’. O caso foi discutido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) naa quarta-feira, 12, e é apurado pela Corregedoria Geral de Justiça do Tribunal de Justiça do Paraná.

Estátua do escravista Conde Pereira Marinho, no Hospital Santa Isabel (Foto: Nara Gentil/Arquivo CORREIO)

Salvador escravista

Um grupo de pesquisadores baianos da história da África criou o projeto colaborativo Salvador Escravista para listar e discutir estátuas, prédios e ruas existentes na capital e que são dedicadas a personagens responsáveis pela escravidão no Brasil. A ideia do projeto, segundo seus criadores, é questionar como Salvador lida com as memórias da escravidão e do tráfico transatlântico. Entre os séculos XVI e XIX, a cidade chegou a ser o segundo maior porto de desembarque de africanos nas Américas. Salvador foi capital do Brasil colônia por 237 anos e seu porto era um dos mais importantes do Atlântico.

Caminho da Fé liga santuário de irmã Dulce ao Bonfim (Foto: Valter Pontes/Secom PMS)

Ligação de fé

O Caminho da Fé, na Avenida Dendezeiros, que liga o santuário da Santa Dulce dos Pobres, em Roma, à Igreja do Bonfim, foi inaugurado na quinta-feira, 13, pela prefeitura de Salvador. O trajeto tem 1,1 km e o tempo de caminhada é o mesmo gasto para rezar um terço. Enquanto caminha, o fiel também verá 14 totens que representam a via Crúcis e contam a história da Santa Dulce. O Caminho da Fé começou a ser construído em junho de 2019, no mesmo ano da canonização de Irmã Dulce. Salvador é o principal destino de turismo religioso da Bahia, que recebe anualmente cerca de 5 milhões de peregrinos todos os anos.

Poluição atmosférica é um dos principais fatores do aquecimento global (Foto: Arquivo CORREIO)

Década mais quente

A 30ª edição do relatório anual "State of the Climate" (Estado do Clima), publicado por cientistas de diversos países, na quarta-feira, 12, mostra que a década de 2010 a 2019 foi a mais quente da história. O ano de 2019 também é um dos três mais quentes já registrados no planeta desde o século XIX. Segundo os pesquisadores, desde a década de 1980, cada ciclo de 10 anos tem sido mais quente que o intervalo correspondente anterior. A média entre 2010 e 2019 foi 0,2ºC mais quente que a registrada entre 2000 e 2009. A publicação, que mostra os efeitos das mudanças climáticas ano a ano, é assinada por 528 autores e editores de 61 países.

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