ABI emite nota de repúdio contra agressões à fotojornalista do CORREIO

bahia
15.03.2021, 19:39:00
Atualizado: 15.03.2021, 21:05:31

ABI emite nota de repúdio contra agressões à fotojornalista do CORREIO

Integrantes de ato a favor do presidente Jair Bolsonaro cercaram e xingaram a jornalista durante cobertura do evento

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) manifestou repúdio à forma hostil e violenta como a fotojornalista Paula Fróes, do Jornal Correio, foi tratada em um ato em favor do presidente Jair Bolsonaro, no bairro da Mouraria, em Salvador. O caso aconteceu no último domingo (14), quando a repórter trabalhava na cobertura do ato.

A nota é assinada pelo presidente da ABI, Ernesto Marques, e lamenta que a profissional tenha sido xingada de “vagabunda” e “palhaça” pelos agressores, além de ter sido acuada e ameaçada. A ABI afirma que essa atitude "em nada condiz com o Estado Democrático de Direito em que vivemos". 

"É mais uma cena abjeta destes tempos sombrios, em que o ativismo político é rebaixado a isso, com o estímulo da principal autoridade do país. Não podemos banalizar esse tipo de coisa. A ABI se solidariza com a colega e com a redação do Correio, e apoia as medidas jurídicas que profissional e empresa julgarem necessárias", diz a nota.

Além da ABI, O Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia (Sinjorba) também manifestou repúdio às agressões sofridas por Paula Fróes.

Um dos homens que agrediu verbalmente a jornalista já foi identificado. É o educador físico Genisson Moreira, diretor-presidente da Asdeck Karatê e fundador do Instituto Amigo dos Bairros. Genisson se candidatou a vereador de Salvador pelo PTC em 2020, recebendo pouco mais de 300 votos. Além disso, ele também já trabalhou como assessor parlamentar na Câmara de Vereadores de Salvador (CMS).

No cartaz de divulgação da passeata, o ato é denominado como “Passeata pela Liberdade, com Deus e pela Família”, fazendo clara referência à “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida em 1964 e que foi um dos estopins da ditadura militar brasileira. Vale ressaltar que os agressores estavam sem utilizar máscaras de proteção contra a covid-19, assim como diversos manifestantes. A atitude aumenta relevantemente a possibilidade de proliferação do coronavírus entre os presentes no local.

O último domingo foi marcado por dois atos em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. O primeiro foi uma carreta que saiu da região do antigo Aeroclube e percorreu a orla da capital baiana, enquanto o segundo foi a manifestação nas proximidades do quartel da 6ª região militar, na Mouraria.

Diversos relatos nas redes sociais de pessoas que acompanharam ambas manifestações alegam que os manifestantes de ambos os atos pediram em vários momentos por intervenção militar no país. Este ato é inconstitucional e pode até mesmo ser considerado crime com base na Lei de Segurança Nacional, com pena de um a quatro anos de reclusão.

Na manifestação da Mouraria, foi necessário até que o organizador do evento pedisse para que as pessoas baixassem as faixas pedindo intervenção militar no país, já que “apesar de entender”, não seria uma das pautas do ato. O organizador também solicitou no início da passeata que os manifestantes não se referissem ao AI-5 nem ao artigo 142 da constituição federal, citado por Bolsonaro anteriormente para justificar uma intervenção das Forças Armadas.

Esta não é a primeira vez que profissionais da imprensa são agredidos em manifestações pró-governo. Em maio de 2020, a equipe do jornal "O Estado de S.Paulo" foi atingida por chutes, socos, empurrões e rasteiras, além de incontáveis agressões verbais durante um ato feito em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília. Neste dia, equipes da "Folha de S.Paulo", do jornal “O Globo” e do site "Poder360" também foram xingados e agredidos.

Ao longo dos últimos meses, também foram registradas outras situações de agressão a jornalistas. Este fato fez com que um projeto de lei que propõe “transformar em crime as hostilidades a profissionais de imprensa no exercício de suas funções” fosse apresentado no Senado, estabelecendo uma pena de detenção de um a seis meses, acrescida de multa, a quem praticar hostilidades com o objetivo de impedir ou dificultar a atuação dos profissionais de imprensa.

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