Agnaldo de Mesquita, o Val, faz sucesso com drive-thru de acarajé

salvador
09.08.2020, 06:00:00
Val comanda dez funcionários e cinco tachos de dendê para satisfazer toda a clientela (Acervo Pessoal)

Agnaldo de Mesquita, o Val, faz sucesso com drive-thru de acarajé

À frente do Acarajé da Chica, ele mantém tradição familiar e lucra ainda mais na pandemia

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Se realmente estamos vivendo o fim dos tempos, confirmado pela possibilidade de faltar dendê na terra dos orixás, então o baiano de acarajé Agnaldo de Mesquita, mais conhecido como Val, pode ser considerado o profeta do apocalipse. Sim, porque Val parecia prever três anos atrás os momentos difíceis que estamos passando. 

Em 2017, o Acarajé da Chica, que leva o nome de sua mãe, se tornava o primeiro acarajé drive-thru do mundo. Hoje, todos os sábados, domingos e feriados, Val atrai filas e mais filas de carros a espera do seu quitute, fenômeno esse que só cresceu durante a pandemia. 

Em uma via marginal da movimentada Avenida Luiz Viana Filho, a Paralela, em frente ao antigo Bahia Café Hall, Val tem matado a vontade de centenas de soteropolitanos ávidos pela iguaria. No seu caso, vende as porções em miniatura. O quilo do acarajezinho ou a dúzia do abarazinho são acompanhados por copinhos de vatapá, pimenta e camarão. 

Tudo embalado para a viagem e ideal para fazer companhia a uma cerveja em casa ouvindo o som de sua preferência ou simplesmente assistindo Netflix (se assistir Faustão pode dar ziquizira).  “Com a pandemia, até melhorou pra gente. Porque a maioria das baianas fechou os pontos”, diz Val, sobre o momento - 80% das baianas pararam, segundo associação  que representa a categoria.

Tem até identificador para colocar ordem na fila tamanha a quantidade de veículos (Foto: Acervo Pessoal)

Patrimônio imaterial, o ofício de baiana de acarajé é, historicamente, uma experiência de rua. O tabuleiro costuma ser um ponto de encontro, lugar de resenha entre pessoas das mais variadas espécies, centro de saborosas aglomerações. Mas, há um tempo atrás, Val já havia se ligado que esse povo todo não tinha mais tempo pra isso, não! O mundo acelerou, a galera pegava o acarajé e se picava para casa. Por quê, então, não criar um sistema que facilitasse a saída do bolinho em larga escala?

Em meio à crise do coronavírus, muitas baianas sacaram que deveriam ir no mesmo caminho. Não só no esquema drive-thru, mas também delivery, afinal de contas existe um mercado consumidor em quarentena que mantém o distanciamento social. 

Por isso, o CORREIO preparou um guia para que você possa pedir seu acarajé em casa ou ir ali dar um passeio de carro e garantir sua dose de dendê. Pode ser a última chance antes que o óleo sagrado falte.  

“Tenho incentivado várias baianas a colocar drive-thru. As pessoas não vão deixar de comer acarajé, é uma cultura. Quero que todas as baianas aconteçam”, afirma Val, mostrando generosidade. 

Até porque, vai ser difícil alguém ter o seu know-how para drive-thru. “Precisa ter um ponto legal e ser rápido no atendimento porque as pessoas querem pegar e levar”.  

O estoque de dendê do Acarajé da Chica está baixo. Val tem apenas 40 baldes de 16 litros do produto. Só que eles usam cinco baldes por dia. “Tenho 40 baldes em estoque e isso é pouco. Meu estoque só aguenta esse mês. Segunda-feira quero comprar o estoque do mês de setembro. O preço tá altíssimo. Vou comprar pra setembro todo”. 

Na última semana, pagou R$ 90 no balde que até outro dia saía por R$ 65. Atualmente, o mesmo balde custa R$ 120. Val diz que vai continuar comprando dendê até quando tiver o produto. Só para de fazer acarajé se acabar. “Pode até subir de preço, mas não pode faltar. Não dá pra fazer acarajé com outros produtos. Sem dendê, não tem acarajé”, resume.  

Tradição 
 Ainda que embalados em sacos plásticos e sem o calor humano do tabuleiro, os acarajés delivery e drive-thru são, sim, carregados de simbologia e tradição. O próprio Val tem uma história afetiva e familiar com o ofício. O Acarajé da Chica é de 1966, quando ele sequer havia nascido. Chica, sua mãe, ainda vendia bananas na Pituba. Uma cliente sugeriu que ela vendesse acarajé. O tabuleiro foi montado no Posto Esso, na Avenida Manoel Dias da Silva. Depois, passou para a esquina da Rua Paraíba. 

Chica teve nove filhos. A maioria seguiu os passou da mãe e montou pontos de acarajé. O Acarajé da Chica atualmente é administrado por Val, pelo irmão Gervásio e pela irmã Maria das Neves. Eles tocaram o nome da mãe, mas os demais montaram estabelecimentos com seus próprios nomes. Inclusive Gregório, que ganhou fama ao lado do Shopping Barra. Com a reforma do shopping, o Barra quis tirar Gregório do seu ponto. Apesar da briga judicial que envolveu os próprios clientes em sua defesa, Gregório teve que deixar o local e passou a explorar outros pontos.

Em 1986, Chica participou de uma propaganda do Banco Econômico e da Casa Forte, instalados ao lado do seu ponto. Se seu acarajé já era bombado na cidade, ficou ainda mais famoso. Val, o caçula dos filhos, com 15 anos, assumiu o posto aos domingos. “Fui pegando gosto de trabalhar com acarajé. Estudei, terminei o segundo grau, mas percebi que meu negócio era o acarajé”. Em 1999, Val montou seu primeiro ponto. 

O projeto do drive-thru vem desde essa época, mas não passava de uma ideia. Em 2007, pensou em montar o serviço em Lauro de Freitas, mas não conseguiu achar um ponto ideal. “Há muito tempo penso em montar o primeiro acarajé drive-thru do mundo”. Em 2017, finalmente Val conseguiu se instalar na frente do Bahia Café Hall. Apesar de ser ideal para se formar uma fila de carros, ele fica instalado em uma via de alta velocidade. Ou seja, seria difícil enxergar que ali se vendia o bolinho frito.

Por isso, no início foi complicado. Com o tempo, na base do boca a boca, muita gente já sabia que ali era possível encontrar um acarajé de extrema qualidade. ”No começa foi um pouco difícil. Mas como o Acarajé da Chica tinha know-how no mercado, a coisa pegou”, lembra. Pegou mesmo. Para dar conta da demanda na Paralela, Val tem dez funcionários. Os cinco grandes tachos de dendê costumam ter alta rotatividade. 

Val diz que não consegue calcular quantos bolinhos produz por dia. ”Não tem como contar. Só sei que vende direitinho. Dá pra comprar o leite e pagar a faculdade dos meninos”, brinca, o baiano, que tem dois filhos. Também esconde o jogo quanto ao faturamento. 

“Um dia vou parar pra calcular”. Até o dia que faltar dendê, Val deve continuar faturando. Ou seja, até o fim do mundo.  

Acarajé da Chica
Endereço:
Av. Luiz Vianna Vilho, 3056, em frente ao Bahia Café Hall
Funcionamento: Todo sábado, domingo e feriado, das 8h às 14h
Valores:  Acarajezinho, a R$ 40 (kg); Abarazinho, a R$ 16 (12 unidades); Acompanhamentos: copinhos de vatapá e pimenta;
copinho de camarão, a R$ 3

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas