Água benta

nelson cadena
05.05.2022, 05:00:00

Água benta

Lavar roupa foi, ainda é nas comunidades interioranas distantes, um dos elementos de libertação das mulheres por contraditório que pareça. Era e é a oportunidade de sair de casa, deixar para trás a estafante rotina de limpar o barraco, cozinhar, dar comida às crianças e aos bichos, aturar o marido; a brecha para socializar, colocar em dia as fofocas, rir e se divertir. Lavar roupa no riacho do distrito tinha um componente de emancipação não tão perceptível, se racionalizado no contexto atual de novos valores e modais. Lavar roupa no século XX e no atual é o correspondente às mulheres frequentarem a missa dominical, no século XIX, a chance de sair de casa, ver outras pessoas.

Raimunda mora na roça. No despontar do sol empreende a trilha. Carrega na cabeça enorme trouxa de roupa suja, um filho no bucho e outro no colo encaixado na cintura, bando de filhos em volta; anda um a dois quilômetros, esforço recompensado pela jornada libertadora de algumas horas de faina, alegre. Outras mulheres chegam no ponto de encontro, escolhem o seu pedaço, o trecho do rio em cuja beira abundam grandes pedras para bater a roupa e secar. 

A conversa encurta o tempo que teima em passar. A conversa é boa quando a fofoca rende. Impossível lavar roupa sem falar em voz alta, rir à vontade, debochar, uma pausa para dar um esporro nas crianças: fique quieto menino pelo amor de Deus, largue isso aí, quer apanhar? Maria, mais jovem, não padece ainda de dor nas juntas, lava a roupa em posição de cócoras; Raimunda, sentada, pernas escancaradas, bate as peças no meio, joga-as contra a pedra com força. 

Roupa lavada, estende as peças pequenas na pedra grande, toalhas e lençóis estende nos matos da beira do rio, todo cuidado para não caírem no chão, sempre o risco de sujar de novo. Espera secar, trégua para dar de mamar. Rola conversa fora, vale corpo mole para não ter que retornar à casa tão cedo. O sol firme, ainda bem, seca também a roupa do corpo, a saia grudada. A trouxa grande carrega na cabeça e lá vai ela, hora de retomar a rotina. Mariana, a filha mais velha, carrega lata d’água para encher a moringa.  

Água por séculos foi privilégio dos pobres e excluídos. Nas áreas urbanas escravos e apenas eles a manipulavam, a sociedade lhe impôs essa exclusividade; enchiam os barris de madeira, nas nascentes e fontes naturais e mais tarde, a partir de meados do século XIX, nos chafarizes. Carregavam os burricos para abastecer as casas de seus senhores e das madames que nunca molharam os pés numa fonte, não usufruíram o prazer da água salpicando no corpo. Tomavam banho sentadas numa bacia. Coitadas.

A água agregou os afrodescendentes baianos às festas populares, de iniciativa das Irmandades. Torno-os parte da infraestrutura que a maledicência da igreja rotulou de profana e a mídia fez coro ao embuste. Água que os escravos forneciam para abastecer as casas dos romeiros e dos veranistas e para lavar as igrejas, na quinta feira da novena. E, mais tarde, abastecer as barracas do Largo. Água libertadora. As escravas jogavam umas às outras, enquanto cantavam e esfregavam o chão e molhavam os vestidos finos que grudavam no corpo, no escracho da brincadeira que aliviava o peso da obrigação de deixar o templo nos trinques. 

Observadores estrangeiros e a mídia criticavam as mulheres seminuas e alegres, descalças, no ato da lavagem; não lhes ocorria perguntar o porquê os senhores as vestiam com panos finos, a razão da roupa molhada transparente que sugeria a sensualidade. Água, sempre benta, libertadora, fiel a sua natureza de elemento relacionado às emoções e sentimentos.  

*Nelson Cadena é publicitário e jornalista; escreve às quintas-feiras

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