Álcool: existe nível de consumo seguro?

bem-estar
06.01.2020, 06:00:00
(Foto: Shutterstock/Divulgação)

Álcool: existe nível de consumo seguro?

Especialistas alertam para as consequências do abuso da bebida durante as festas

Verão, praia, confraternização, férias... Não falta pretexto nessa época do ano para brindar com os amigos, mas é preciso ligar o alerta quando o assunto é o álcool. Principal motivo dos atendimentos de saúde realizados durante o Festival Virada 2020, e responsável por 3.3 milhões de mortes no ano, no mundo, o consumo alcóolico precisa vir acompanhado de uma série de cuidados.

Afinal, a bebida pode andar de mãos dadas com a desidratação que, por sua vez, pode levar à perda de consciência. Mas será que existe um nível seguro de consumo? “Existem riscos também para aquele bebedor casual”, alerta o hepatologista Paulo Lisboa Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia. “Se no final de semana ele toma uma quantidade alta de álcool, corre o risco de desenvolver uma doença hepática”, explica.

Um copo de whisky, por exemplo, pode ter a quantidade suficiente para o indivíduo extrapolar o nível limite de uma semana. Afinal, já é considerado consumo abusivo beber duas doses-padrão por dia: cada uma tem cerca de 12 g e equivale a uma dose de bebida destilada, ou um cálice de vinho. “Muitas autoridades defendem que não existe nível seguro”, diz o hepatologista.

"Existem riscos também para o bebedor casual. Se no final de semana ele toma uma quantidade alta de álcool, corre o risco de desenvolver uma doença hepática" - Paulo Lisboa Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia

Moderação
“Beba com moderação” já virou lugar comum, mas não foi exatamente isso o que o estudante de engenharia mecânica da Ufba, Vinícius Serra, 27 anos, viu no Festival Virada, que durou cinco dias na orla da Boca do Rio. “Várias vezes passavam bombeiros com pessoas carregadas na maca”, lembra o estudante que foi ver o show de Jorge e Mateus.

Ao ler as notícias publicadas essa semana, Vinícius conta que ficou assustado quando descobriu que 87% das 600 ocorrências atendidas no posto de saúde do festival foram relativas a intoxicação alcoólica, náuseas e dor de cabeça. “Acho um número bastante elevado. As pessoas deveriam prestar mais atenção, porque acabam perdendo a festa e os amigos também perdem, já que ficam cuidando de quem passa mal”, opina.

Fã de uma cervejinha, Vinícius não deixa de beber com a galera, mas está sempre acompanhado de hidratação e boa alimentação, para não ter problemas. “Se a pessoa não tentar desenvolver o autocontrole, fica complicado”, defende. É assim durante o brinde semanal da Quarta-feira Camarada: tradição criada pelos amigos de infância para sempre manter contato, mesmo com as rotinas cada vez mais distantes.

“A maioria gosta de tomar uma cervejinha. Como existe uma cultura de barzinho, fica mais fácil a gente socializar assim. Mas tem gente no grupo que não bebe e vai só para acompanhar mesmo. Eu vou mais no consumo social”, explica Vinícius. Apesar dos riscos a longo prazo, o estudante garante que faz acompanhamento regular com o médico e que todas as taxas estão normais.

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Abusivo
Assim como a comida remete à socialização, às celebrações e à busca pelo prazer, o álcool passa a fazer parte da cultura pelo mesmo motivo, explica a psicóloga Elisa Teixeira. “Assim como todos os objetos fonte de prazer - que quando utilizados de forma consciente e cautelosa trazem benefícios para os sujeitos -, o álcool e a comida são atribuídos a uma esfera de socialização importante”, destaca.

Apesar da vida social estar ligada ao bem-estar psico- emocional do sujeito, Elisa ressalta que o principal problema é não saber diferenciar o uso socialmente aceito e o compulsivo. A psicóloga afirma que dificilmente a pessoa considera que faz uso abusivo de álcool, por isso tende a buscar ajuda quando o transtorno já está instalado “com consequências físicas importantes”, explica.

12 g/dia (cerca de uma dose de bebida destilada) aumenta o risco de mortalidade por cirrose hepática e câncer de fígado. (Fonte: revista Drug and Alcohol Review)

Aumento da agressividade, pouca concentração, perda de memória, alteração de humor, tendência à irritabilidade, ansiedade e isolamento social estão entre as consequências do consumo crônico de álcool. Além disso, este pode trazer uma série de lesões orgânicas, como as doenças hepáticas, neurológicas, vasculares e o aumento do risco de câncer.

“A gente associa mais às doenças hepáticas, mas esse consumo excessivo também faz com que as pessoas acabem usando mais nicotina e outras drogas recreativas. Além disso, o consumo do álcool faz com que as relações sexuais sejam desprotegidas, o que aumenta o risco de DST”, acrescenta a hepatologista do Hospital Português, Liana Codes, 48.

Como nutricionista, Maria Aparecida de Paula, 42, revela que sua principal preocupação é a desidratação, principalmente no Verão, que vem acompanhado de muitas festas. “Nessa época, as pessoas bebem como se não houvesse amanhã, acabam exagerando”, alerta. “O álcool traz benefícios? Só prazer: você fica alegre no bate-papo com os amigos. De resto, é só problema. Então tem que ser uma coisa consciente”, defende.

3.3 milhões de óbitos/ano no mundo são provocados pelo consumo de álcool. (Fonte: Associação Europeia para o Estudo do Fígado e revista Drug and Alcohol Review)

(Foto: Shutterstock/Divulgação)

O que você precisa saber
- Usuários de risco são aqueles que consomem mais de duas do- ses-padrão todos os dias ou cerca de cinco doses-padrão em uma única ocasião, apesar de não apresentarem nenhum problema decorrente disso.
- Uma dose-padrão tem cerca de 12 g e equivale a uma dose de bebida destilada. (Fonte: Journal of Hepatology).
- O risco maior de doença alcoólica do fígado (DAF) com esteatohepatite – e potencial de evolução de cirrose hepática e câncer de fígado – é observado em mulheres e homens que fazem uso de álcool em quantidade superior, respectivamente, a 20g/dia e 30g/dia.
- A mulher é mais suscetível aos efeitos do álcool que o homem, por causa da metabolização enzimática que é diferente.

5 cuidados para ter durante o consumo alcoólico
- Se hidratar com água mineral antes, durante e depois
- Nunca beber com estômago vazio
- Se alimentar bem. Priorizar alimentos ricos em vitaminas, sucos, frutas e água de coco. Evitar alimentos gordurosos, porque dão mais náusea
- Evitar atividade física pós-consumo alcóolico, porque pode provocar mal-estar
- Quem bebe “socialmente” deve procurar o médico para medir as taxas enzimáticas e avaliar se esse consumo regular está provocando algum tipo de agressão ao fígado

5 efeitos negativos do álcool
- Embriaguez provoca perda de reflexos, redução do nível de consciência e desidratação (cujos sintomas são náusea, diarreia, boca seca, dor de cabeça e tontura)
- A longo prazo, o consumo alcóolico pode provocar doenças no fígado, doenças neurológicas, cardíacas, hipertensão, pancreatite, câncer (como o de laringe e de esôfago) e doenças psiquiátricas (transtorno de ansiedade, compulsão, depressão)
- Pode provocar acidentes automobilísticos
- Está associado a casos de violência doméstica e crimes violentos
- A embriaguez prejudica o compor- tamento de auto- proteção como o uso da camisinha

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