As escolas particulares não me responderam, mas Miami-Dade sim

flavia azevedo
12.07.2020, 14:04:00
Atualizado: 12.07.2020, 14:04:31

As escolas particulares não me responderam, mas Miami-Dade sim


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Na semana passada, formulei 20 perguntas direcionadas, especificamente, àqueles donos de escolas particulares que reivindicam, para si, o direito de retomar as aulas presenciais, mesmo antes da rede pública (e protocolos oficiais), durante a pandemia. Garantimos o mesmo espaço para as respostas: duas páginas na versão impressa do CORREIO com publicação também na versão digital do jornal. Sem edição, sem cortes, apenas com a condição de que respondessem às perguntas que foram formuladas com a colaboração de pais, mães e educadores, também vinculados a escolas particulares. Pois bem: sete dias, alguns contatos e negociações depois, estou aqui escrevendo meu artigo, contando com zero respostas oficiais de qualquer pessoa que responda por essa linha de pensamento, no setor. 

Era exatamente isso que eu esperava. Foi exatamente isso que professores me disseram que aconteceria. Os empresários da educação que desejam reabrir as escolas mesmo antes da rede pública (e protocolos oficiais) não responderam porque, neste momento, estão tão perdidos quanto qualquer um de nós. Natural. A diferença é que eles fingem não estar. Eles não têm todas as respostas, apenas fingem ter. Eles não estão preparados, apenas fingem estar e isso é feio. Como também é muito feio fugir à discussão. Se afirmam, publicamente, que estão prontos para a retomada das aulas presenciais, esses empresários devem, a todos nós, pelo menos o esclarecimento do que significa a palavra "prontos", para eles. Por ocuparem um espaço social dedicado à formação de pessoas, nos devem, também, o exercício do diálogo maduro. Ao fugir disso, que exemplo dão?

Apenas um estado muito primitivo de civilidade rejeita o diálogo e o contraditório. Ainda que esse modus operandi esteja "na moda" por aqui, há também algo de profundamente escapista no raciocínio de que seria possível lidar com crianças e adolescentes, durante uma pandemia, sem dialogar também, intensamente, com as famílias que contratam seus serviços e todos os que estão envolvidos em suas operações: professores, coordenadores e transporte, por exemplo. Não é informar decisões. É trocar ideias, escutar, estar ao lado e acessível. Desta vez, não se trata de uma festinha junina, mas de saúde ou doença, morte ou vida. 

A necessidade de todas essas trocas foi, inclusive, compreendida até em um dos maiores expoentes do individualismo. Sim, terei que citar os Estados Unidos como exemplo positivo porque pensar, realmente, requer humildade infinita. Fiquei besta, fui pesquisar e não é "fake news". Eu nem sei se Trump tá gostando disso (não cheguei até aí com a minha pesquisa), mas do condado de Miami-Dade, um dos 67 condados da Flórida, aquele sediado por Miami, vem a primeira proposta de reabertura de escolas que me parece respeitosa pelo menos em relação ao poder familiar, à infância e à adolescência.

Acordei com a mensagem de minha amiga Tai me contando essa história. Com o surgimento de novos casos de covid-19, a reabertura dos EUA precisou ser repensada. Miami-Dade, então, anunciou sua estratégia para o ano letivo que, por lá, se inicia entre agosto e setembro. Resumo: as famílias estão escolhendo em que regime seus filhos cursarão o próximo período. Pode ser presencialmente, à distância ou híbrido. Genial? Tendo a pensar que sim, mas estamos todos tateando e também não posso prever o futuro e eventuais problemas que possam derivar disso. Eu, pessoalmente, escolheria a opção "à distância", feliz da vida. É a minha realidade, em nossa família funciona. Mas isso é pessoal. Em relação ao coletivo, foi essa "manufatura", esse "tratar caso a caso", o diálogo aberto, a solução para cada caso específico, foi tudo isso junto que me fez virar os olhinhos. Contemplar o coletivo requer, também, honrar as especificidades de cada indivíduo. Confesso que fui contaminada pelo "sonho americano", pela primeira vez na vida. 

(Pronto, passou. Só queria mesmo essa parte do diálogo com as escolas dos nossos filhos)

Escrevo às 14h de sexta-feira (10) e acabei se ser interrompida pelo telefonema de outra amiga dizendo "Hong Kong vai fechar as escolas, outra vez, por causa da disparada de casos de coronavírus". Claro. Lembro que o protocolo de reabertura da Bahia sequer menciona instituições de ensino, em qualquer das três fases. Sim, evidentemente. Ainda não é possível. Lembro que os professores do Rio de Janeiro decidiram que não voltariam às salas de aula, contrariando decisões pautadas pela economia. Obrigada! Volto a pensar nos empresários da educação que reivindicam o direito de reabrir mesmo antes da rede pública (e protocolos oficiais) e solto um "me poupem", baixinho. Lembro das minhas 20 perguntas sem respostas (https://bit.ly/VintePerguntas) e penso que, talvez, o sentido delas (e de tantas outras vozes que se levantam) tenha sido provocar reflexões. Mesmo que em silêncio.

Nos últimos dias escutei, "mas nem todo dono de escola quer voltar antes da rede pública". Também ouvi "já é praticamente consenso que não haverá reprovação em 2020" e "provavelmente, quando reabrirmos, haverá a possibilidade de as famílias escolherem ficar em ensino à distância". Em muitos telefonemas e trocas de mensagens, o que mais senti foi o desejo urgente de donos de escolas se afastarem da imagem de "empresários do setor de educação que precisam salvar os negócios a qualquer custo". Estes, praticamente sumiram. Pelo menos das minhas vistas. 

Sim, foi uma postura (coletiva e pública, há registros) que pegou muito mal. Que bom se estiverem, honestamente, revendo. Que bom se puderem entender que ter uma instituição de ensino é diferente de ser dono de uma loja de roupas, por exemplo. Por outro lado, que maravilha termos a oportunidade de separar o joio do trigo. Seguimos desejando confiar a educação formal dos nossos filhos a educadores e não a meros vendedores de métodos replicáveis. Às pessoas que pensam na coletividade, no impacto social de seus atos e não a esses comerciantes de uniformes, vagas em escolas, diplomas e módulos caríssimos. Esses que não têm compromisso com a comunidade que mobilizam. Esses que agora conseguiremos identificar facilmente, se insistirem em condutas que nos excluem e nos colocam em risco.

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