Balada da cozinheira offline

katia najara
01.08.2021, 06:00:00

Balada da cozinheira offline

Uma vez ouvi uma moça de marketing digital falar para uma cozinheira: “ Mas hoje em dia se você não está no Instagram você não existe para o mundo.“

A cozinheira em questão havia sido criada entre galinhas, de pés descalços e cabelos assanhados como os trazia até hoje; bebendo leite da teta da vaca, colhendo tomates na barra da saia e dançando tanto na chuva que, de cansada, cochilava no galinheiro e acordava com os pintinhos ciscando a remela dos seus olhos.

Aprendeu o que eram “plantas alimentícias não convencionais” - muito antes das tais “pancs” virarem moda - arriscando a vida mesmo, porque não podia ver uma frutinha ou florzinha diferente em suas excursões solitárias mato adentro que já se punha a examinar, tocar, rasgar por dentro, abrir as ventas e cheirá-las atentamente até arriscar-lhes a boca. Até o dia em que quase morreu por intoxicação de semente de mamona, não por falta de alertas de sua mãe. Mas àquela altura já conhecia todo e qualquer mato que cabia no prato.

Ser cozinheira para esta mulher era apenas uma consequência natural da relação plena, amorosa e respeitosa com a natureza à qual estava integrada de forma indissociável, até mesmo ao abater as galinhas que criava com tanto carinho com golpes rápidos e precisos do seu cutelo. Tão natural que ela só teve consciência do quanto sabia cozinhar quando deixou as terras de sua infância para estudar ciências políticas em outro país.

(Foto: Katia Najara)

Percorreu meio mundo comendo e cozinhando entre culturas das mais distintas. Fluente em três idiomas e aventureira em mais alguns, aquela mulher leu mais livros do que o número de palavras do vocabulário da moça a quem deveria provar que “existia”.

Eu senti vergonha, e pela primeira vez enxerguei de forma clara - como um relâmpago que alumia a mata no meio da tempestade - a inversão de valores, o circo de horrores e a ilusão idiótica criada pelas redes sociais.

Aquela mulher elegantíssima cedeu muito mais do que alguns minutos de sua vida para ouvir a palavra de Zuckerberg, assim proferida com tamanha veemência por uma de suas soldadas.

“O ideal seria que ela tivesse um fotógrafo profissional, mas para começar, pelo menos um celular com câmera de última geração e, claro, o olhar. O perfil deveria ser harmônico, as fotos deveriam obedecer a um padrão estético de enquadramento, textura e temperatura de cor, deveriam ser muito apetitosas, com louça linda, que era para o povo endoidar. Ela iria passar os links de uns perfis ma-ra-vi-lho-sos e super bem-sucedidos, com milhares de seguidores como referências.

Quanto mais recursos do instagram utilizasse, maiores as chances de “entrega”. Um a três posts por dia, stories, reels, e lives, naturalmente, para salvar no IG. Parcerias com influenciadores digitais são fundamentais, e também promoções oferecendo vantagens e presentes em troca de seguidores, curtidas e marcações. E impulsionar, né gente, claro. O Insta (<3) te oferece vários recursos para atingir o seu público potencial e acompanhar as métricas, basta clicar ali em “ver insights”, olha que legal! Você pode ver o número de curtidas, encaminhamentos, salvamentos e engajamento de modo geral de cada post!” – cuspia sem respiro a guria, que não havia sequer tocado no copo d’água diante de si.

A minha amiga ouvia atenta e curiosamente aquela verborragia digital como quem está sendo apresentado a uma nova civilização. E eu me punha a pensar quantas cozinheiras e cozinheiros admiráveis teriam entristecido, adoecido e desistido por se sentirem inúteis, incapazes, incompetentes diante daquelas condições “únicas” de existência. Excluídas “do mundo” por preferirem viver a experiência a fotografá-la, por preferirem usar o seu tempo para cozinhar, afinal de contas.

E a água parada no copo.

Para o seu governo, a minha amiga existe. É uma das maiores cozinheiras que eu conheço, e voltou para o mato onde recebe seletos grupos de pessoas que compartilham de sua visão de mundo. Nunca teve rede social e vai bem, obrigada.

E você, nobre? Qual o plano para “existir” como cozinheira? Compartilha?

COXAS E SOBRECOXAS MARINADAS QUE NÃO ESTÃO NO GIBI

(Foto: Katia Najara)

Mate uma de suas galinhas de quintal com um golpe certeiro de cutelo no pescoço, ela não deve sofrer para além da morte súbita;

Após a sangria completa,  escalde, depene, chamusque para eliminar qualquer resquício de pena;

Corte cada uma das partes conforme indicação anatômica e aproveite tudo, já que matou o animal: carcaça, cabeça, pescoço e pés para caldos; miúdos para farofa; peito para cubos, sassami para iscas, por exemplo, coxas e sobrecoxas para assar agora.

Comece pela salmoura:  numa bacia cheia d´água, dois enormes punhados de sal comum, 1 ou dois limões espremidos e deixados ali dentro, e ervas entristecidas da geladeira. Mergulhe as partes e deixe de molho por 15 minutos, escorra, lave em água corrente, enxugue e transfira as coxas e sobrecoxas para uma tigela.

Tempere com sal,  pimenta do reino moída na hora, alho amassado, ervas frescas (alecrim, louro, tomilho, sálvia, ou pelo menos os dois primeiros), sumo de uma laranja, raspas de limão, poró e salsão, só se tiver. Caso goste de um toque de especiarias, pode somar uma estrela de anis, umas favas de cardamomo, uns 4 dentes de cravo, um pauzinho de canela, mas neste caso elimine o poró e o salsão.

Transfira tudo para um saco  e some 1 copo de sauvignon blanc para integrar todo mundo. Feche o saco sem ar e deixe marinar por pelo menos 4 horas, embora o ideal seja de véspera. Pré-aqueça o forno enquanto deita as suas peças numa assadeira untada com óleo e cubra tudo com o caldo da marinada. Esse líquido não deverá secar até que o frango esteja dourado e suculento como na foto, portanto vá acompanhando o prato no forno e se o líquido secar, vá colocando um pouco de água no fundo.

No meio do processo  convém besuntar o frango com manteiga e/ou mel (este último, caso tenha adotado a dica das especiarias). Entre essa etapa e o final da cocção, cubra o frango com colheradas do caldo pelo menos uma vez para garantir que não resseque e que fique com essa cor absurda.

Antes de comer faça uma prece para a galinha!

*Kátia Najara é cozinheira e  empreendedora criativa do @piteu_cozinhafetiva

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