Bióloga finge ser autista para ficar sem máscara em shopping: 'todo mundo doido'

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25.03.2022, 00:15:00
(Foto: Reprodução)

Bióloga finge ser autista para ficar sem máscara em shopping: 'todo mundo doido'

Vídeo causou polêmica nas redes sociais; polícia vai intimar

A bióloga Nathasha Borges fingiu ser uma pessoa com transtorno do espetro autista (TEA) para circular sem máscara de proteção contra a Covid-19 no Shopping RioMar, em Recife. Ela publicou um vídeo em seu Instagram contado como driblou a segurança e incentivou seus seguidores a fazerem o mesmo, se referindo à lei que isenta pessoas com autismo de usar a máscara. 

O caso aconteceu na quarta-feira (23) e causou revolta na internet. Segundo o G1, o Ministério Público de Pernambuco recebeu uma denúncia através da ouvidoria, mas a investigação deve ser iniciada pela Polícia Civil. Em nota, a polícia afirmou que "ela será intimada a prestar depoimento na Delegacia de Boa Viagem".

No vídeo, enquanto seguia para seu carro, Natasha explicou que foi ao centro de compras para participar de uma reunião e que não queria usar máscara. "Está todo mundo doido, a gente se faz de doido. Pronto. Está tudo certo. Olhe, a solução de um doido é outro doido na porta. Não usei minha máscara hoje para nada, nem para entrar no tal órgão que eu vim fazer o negócio", declarou.

Ela conta, ainda, que foi abordada duas vezes por seguranças no shopping. "Teve uma hora em que o homem veio me perguntar, aquele segurancinha do carrinho fez: 'Moça, dá para botar a máscara?', aí eu disse: 'Venha cá, venha cá. Não, porque eu sou autista'", disse.

Em outro momento ela conta que foi questionada sobre a máscara dentro de uma loja. "'Moça, a máscara'. Aí, eu disse: 'Eu sou autista, posso não'. O primeiro fez assim: 'Você está sozinha?'. E eu disse: 'Estou procurando a minha mãe, ela foi ali'", justificou. 

O uso de máscaras ainda é obrigatório em locais públicos de Pernambuco, incluindo em shoppings. Durante a pandemia, foram aprovadas leis que isentam pessoas com autismo de usar a máscara, por conta das questões sensoriais. 

Em nota, o Shopping RioMar disse que as atitudes da bióloga são "lamentáveis sob diversos aspectos" e que "repudia quem usa de uma causa justa e coletiva para obter vantagens individuais". O texto também diz que o segurança "partiu do pressuposto da boa-fé solicitando a presença de um acompanhante, com uma abordagem educativa, uma vez que não tem poder de polícia".

Vídeo
A bióloga postou os vídeos em seus stories, mas foram removidos pelo Instagram por conta das regras "sobre símbolos ou discursos de ódio" e "assédio ou bullying". No entanto, Natasha republicou as imagens como um reels no Instagram e, até a tarde desta quinta-feira (24), a postagem tinha mais de 100 mil visualizações, segundo o G1.

Em outro post, ela volta a falar sobre o assunto e cita a lei que permite que pessoas com autismo não use máscaras. "Dá uma estudadinha nessa lei, diga que você é autista e pare de usar sua focinheira, porque é melhor você ser autista do que ser cachorro". 

Após a repercussão e os comentários criticando a atitude da bióloga, ela gravou novos vídeos.  "Gente do céu, a todos os autistas e suas famílias, eu não sou preconceituosa com nenhum distúrbio, tenho em minha família. Parem de aumentar!!! Quem nunca errou atire a primeira pedra, uma lástima tudo isso. Não dá!!! Todos os stories derrubados. Faltou caridade e interpretação. Não tenho problemas em pedir desculpas, e pediria, se fosse preconceituosa. Não sou!", alegou a bióloga.



Crimes
Nathasha Borges pode ter cometido, ao menos, três crimes, segundo o advogado Robson Cabral de Menezes, que é integrante da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Pernambuco e, no Conselho Federal da ordem, é vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Autismo.

"Quando ela finge ser pessoa com autismo sem ser para obter benefício indevido, comete crime de estelionato. Várias vezes faz comentários pejorativos, 'para doido, só outro doido, tem que se fingir de doido' e isso também é atitude discriminatória, ferindo diretamente os direitos das pessoas com deficiência . Na legenda, ela incita os seguidores dela a fazerem o mesmo e postarem para ela isso aí, ou seja, ela entra em outro crime, que é o artigo de incitar publicamente a prática de crime", afirmou o advogado ao G1.

"Todos os crimes têm possibilidade de reclusão, com pena menor que cinco anos. Pela tipificação, ela possivelmente pagaria penas alternativas. Mas mais importante que isso é ela ser punida, para saber que esse tipo de situação não vai ficar impune", afirmou o advogado, que também é um dos fundadores da LIGATEA, grupo formado por advogados que defendem direitos de pessoas com autismo. Em nota, a LIGATEA repudiou as postagens de Nathasha e afirmou que iria denunciar os crimes. "Não podemos e não vamos no calar, vamos denunciar e lutar junto com a comunidade autista para combater esse tipo de prática", disse o grupo.

A OAB Pernambuco também se pronunciou sobre a atitude de Nathasha Borges e informou que "repudia veementemente esse episódio de preconceito e reafirma a necessidade de combater todo e qualquer ato discriminatório, seja ele velado ou expresso, para a construção de uma sociedade mais justa", diz o texto que foi compartilhado nas redes sociais.


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