Brasileiro é arrastado nas ruas de Kiev sob acusação de terrorismo

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14.05.2018, 07:24:34
Atualizado: 14.05.2018, 07:39:23

Brasileiro é arrastado nas ruas de Kiev sob acusação de terrorismo

O paulista Rafael Lusvarghi estava escondido em um mosteiro quando foi descoberto por jornalistas

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O brasileiro Rafael Lusvarghi, 33 anos, natural da cidade de São Paulo, foi preso novamente na última terça-feira (8) em Kiev, Ucrânia, acusado de terrorismo. Ele já tinha sido detido em 2016 pelo mesmo motivo.

Ele estava escondido em um mosteiro quando foi descoberto por nacionalistas ucranianos que o arrastaram à força pelas ruas de Kiev. Os homens envolvidos na ação gravaram vídeos agredindo e humilhando o paulista.

“Todos sabiam que o Rafael corria risco estando em liberdade, principalmente nas ruas da capital“, afirmou ao programa Fantástico, da Rede Globo, Daniel Cândido, advogado de Rafael no Brasil.

Entenda o caso

A trajetória internacional do brasileiro teria começado aos 18 anos, idade em que Lusvarghi ingressou para a Legião Estrangeira Francesa (organização militar formada por combatentes de diversas nacionalidades). Após a experiência, o paulista passou pela Polícia Militar de São Paulo e pelo curso de formação de oficiais da Polícia Militar do Pará.

Em 2010 ele teria se mudado para a Rússia para estudar Medicina. Em 2014, foi preso duas vezes no Brasil durante as manifestações contra a Copa do Mundo, tendo sido liberado em ambas as ocasiões. Na sequência ele teria se mudado para o leste da Ucrânia, a fim de lutar em tropas separatistas, contra o governo do país.

Após divulgar seus vídeos de treinamento na internet, Lusvarghi se tornou um rosto conhecido e odiado pelos nacionalistas ucranianos. Com o fim da guerra, após a assinatura de um cessar-fogo, o paulista voltou ao Brasil. Porém, já em terras brasileiras, ele teria recebido uma proposta para trabalhar em um navio no Chipre, razão pelo qual alega ter voltado a deixar o país.

O voo até Chipre, pago pelo contratante, fez uma escala na Ucrânia, onde ele foi detido pelo serviço de segurança ao desembarcar do avião, sob a acusação de terrorismo. A reportagem do Fantástico questionou se o convite se tratou de uma coincidência ou armadilha para o brasileiro.

Julgamento

Em tribunal, Rafael Lusvarghi declarou que resolveu lutar na Ucrânia a pedido de conhecidos, para ajudar o povo daquela região. Ele reconheceu que cometeu um grande erro e disse estar pronto “para cumprir a sentença que o tribunal determinar”.

Condenado a uma pena de 13 anos, ele ficou pouco mais de um ano de prisão e alegou ter sido torturado no presídio onde estava. O paulista deixou a prisão após ser decidido que o tribunal que o julgou em Kiev não poderia julgar casos ocorridos no leste da Ucrânia.

Liberdade

Após ser solto, o paulista se converteu ao catolicismo ortodoxo russo e buscou abrigo em um mosteiro da capital, onde morou por meses. Lá ele foi descoberto por jornalistas locais e por isso resolveu procurar a ajuda do Itamaraty, que afirma ter providenciado, já no dia seguinte, uma pousada para hospedá-lo.

Porém, no caminho entre o mosteiro e a pousada ele foi surpreendido por nacionalistas ucranianos e submetido ao linchamento nas ruas de Kiev. Lusvarghi foi levado à força para o serviço secreto ucraniano, sobre acusações de “assassino” pelos seus linchadores. Sua prisão foi decretada na última terça-feira (8) por 60 dias, enquanto  o brasileiro aguarda um novo julgamento.

Impedido de voltar ao Brasil

“Ele não tinha nenhuma obrigação de permanecer na Ucrânia, mas não pôde voltar para casa porque tanto a Embaixada do Brasil quanto o Governo da Ucrânia Valentin Rybin, advogado de Rafael na Ucrânia, em declaração reproduzida pelo Fantástico. O advogado afirma que o brasileiro foi libertado por um acordo entre governo e representantes dos grupos separatistas em troca de outros prisioneiros.

“Se nos dissessem ‘ele pode deixar o país', teríamos com muita alegria emitido esse documento de viagem. Mas o que aconteceu foi que recebemos a resposta que ele não poderia deixar o país”, explicou Luiza Lopes da Silva, diretora do Itamaraty, também ouvida na reportagem. Ela acrescentou que o julgamento inicial foi anulado por uma questão meramente processual, mas que o paulista não havia sido inocentado.

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