Cancelamento do Festival Virada reduz 40% da receita turística de Salvador

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30.11.2021, 05:30:00
Trade turístico prevê queda na ocupação de hotéis (Valter Pontes/Secom)

Cancelamento do Festival Virada reduz 40% da receita turística de Salvador

Prejuízo pode chegar a R$ 71 milhões, estima secretário

O Festival Virada Salvador 2022 não irá acontecer pelo segundo ano consecutivo, anunciou nesta segunda-feira (29), o prefeito Bruno Reis (DEM). A festa tradicional que marca a chegada do Ano Novo na capital – realizada pela última vez na virada de 2019 para 2020 - é promovida pela prefeitura e, antes da pandemia de covid-19, tinha uma ampla programação de cinco dias de shows e performances artísticas, no Centro de Convenções da Boca do Rio. O prefeito alegou que a nova variante do coronavírus, batizada de Ômicron e considerada preocupante pela Organização Mundial de Saúde (OMS) levou a administração municipal a reavaliar a realização da festa desse ano, optando pelo cancelamento.

Bruno Reis afirmou que mesmo com o avanço da vacinação, o cenário de incertezas provocado neste momento pela covid-19 levou à conclusão de que não há como realizar o Festival Virada, evento que reúne mais de 250 mil pessoas por dia, com segurança sanitária para os cidadãos.

"No cenário de incertezas, de dúvidas, não há como realizar o festival virada esse ano, estamos a um mês da festa e chegamos ao limite dessa decisão. Como ela dependeria exclusivamente da prefeitura, a decisão está tomada. Nós não realizaremos a festa. Diante de tudo que estamos vendo, ainda não é o momento de colocarmos em risco tudo o que construímos até aqui", enfatizou o prefeito.

Questionado sobre se haveria alguma programação para a virada de ano não passar em branco na capital, Reis informou que ainda avalia as possibilidades. Durante a virada de 2020 para 2021, mesmo não tendo o Festival Virada, houve uma queima de fogos em alguns pontos da cidade. Ainda não há confirmação se esse ano haverá de novo.

“Ainda vou ver o que é possível fazer. Em relação ao evento, não dava para decidir com essa antecedência se não fosse com um mês, e hoje falta exatamente um mês. Outras ações podem ser ativadas mais próximas. Não é uma decisão fácil porque a gente sabe da importância para a economia da cidade, mas a gente sempre colocou a vida em primeiro lugar. O momento exige cautela e prudência. Vamos ver se é possível fazer alguma coisa e o que é possível fazer", acrescentou o prefeito, enfatizando que tudo será feito para evitar aglomerações na cidade.

Secretário de cultura e turismo, Fábio Mota, prevê perdas de até 40% sem festival

(Foto: Jeferson Peixoto/Secom)

Economia afetada

Apesar da preocupação com a saúde da população ser prioridade, o secretário municipal de cultura e turismo de Salvador, Fábio Mota, prevê que a receita turística da cidade reduzirá em 40% este ano por conta da não realização do réveillon público.

No mínimo, a cidade deixará de arrecadar R$ 71,4 milhões, em comparação ao evento de 2020. O trade turístico também prevê queda na ocupação dos hotéis, que receberam, na última festa, mais de 155 mil pessoas, só entre 30 de dezembro e 3 de janeiro. 

De acordo com Fábio Mota, cerca de um terço da receita arrecadada na cidade durante o período do réveillon, advém do Festival Virada. “Setenta por cento da receita de nossa cidade vem do setor de serviços e 30% do turismo. O cancelamento [do réveillon] é muito ruim, porque deixa de circular milhões em nossa economia. Sem a festa, a gente perde muito”, disse. Para minimizar essa perda, o secretário acrescenta que os hotéis devem apostar em festas particulares. “Dentro do limite de três mil pessoas, os próprios hotéis da cidade podem montar suas festas, de forma organizada e seguindo os protocolos”, aconselhou.  

Palco do Festival Virada ainda não tinha começado a ser construído

(Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Viagem cancelada

O biomédico Pedro Henrique Santiello, 25, é um dos que não vai mais passar a virada em Salvador. O esquema estava programado com os amigos, inclusive do sul e sudeste do país, para virem curtir os últimos dias do ano em terras soteropolitanas. “Nosso Festival Virada é um dos melhores réveillons do Brasil e já estava certo passar aqui, mas, com o cancelamento, acredito que novas medidas restritivas sejam aplicadas, então não vai ser mais tão interessante passar o réveillon em Salvador”, disse. Desde a época em que a festa era no Comércio, Pedro fazia questão de marcar presença todos os dias com amigos. 

O gerente comercial Natan Bittencourt, 31, viria de Santa Catarina para o Festival Virada 2022, pela primeira vez. Ele estava com passagem comprada desde o final de setembro. “Essa notícia me pegou de surpresa”, disse Bittencourt, que acompanha a taxa de vacinação e a retomada dos eventos na capital baiana.

“Provavelmente, terei de pagar uma taxa alta para remarcar o voo, ou ter a sorte do mesmo ser cancelado e eu conseguir remarcar sem custos”, diz o gerente comercial, que ainda não entrou em contato com a companhia aérea. 

Ele estima que perderá R$ 6.500 mil com a passagem e hospedagem. “Estando a pouco mais de 30 dias do Réveillon e, com os altos custos para programar algo em tão pouco tempo, creio que ficarei em Florianópolis onde os eventos irão se manter [na verdade, a prefeitura da capital catarinense anunciou que manterá a queima de fogos, mas não haverá shows, leia abaixo], já que estamos com o esquema vacinal muito avançado. Mas não programei nenhum evento, porque estava contando com essa viagem. Terei de replanejar todo o roteiro de final de ano”, lamentou Natan, que já tomou as duas doses contra o coronavírus e a de reforço. 

Secretário estadual de turismo, Bacelar crê que cancelamento do festival não afetará turismo no verão

(Foto:  Ascom/Setur-BA)

Perda de hóspedes

A taxa de ocupação hoteleira, que está em 70%, deve cair com o cancelamento do Festival Virada, segundo Silvio Pessoa, presidente da Federação Baiana de Turismo e Hospitalidade do Estado da Bahia (Fetur). “O turismo é uma das áreas mais sensíveis e qualquer modificação faz com que o visitante vá para outro local.

As festas do Rio e São Paulo não foram canceladas [as prefeituras das duas cidades condicionaram o evento ao comportamento da pandemia, veja abaixo] e isso faz com que eles não programem a agenda para cá. Então vai afetar, com certeza, as reservas de final de ano”, avalia Pessoa. Nem ele nem outros integrantes do trade turístico de Salvador souberam estimar o tamanho da queda, pois isso deve ser avaliado nos próximos dias. 

Para Pessoa, o cancelamento foi um banho de água fria. “Em um momento que estávamos voltando para a normalidade, isso é uma péssima notícia para Salvador, onde o turismo representa 25% do PIB [Produto Interno Bruto] e movimenta mais de 50 setores”, opina. 

Segundo ele, é preciso investir em campanhas de marketing para voltar a atrair esses visitantes. “A vacinação é muito importante e precisamos mostrar para os turistas que Salvador é uma cidade extremamente cuidadosa com a população”, orienta.

O presidente da Salvador Destination, Roberto Duran, por sua vez, não vê a suspensão do festival como desestimulante para o turista. “A Festa de Réveillon não foi cancelada em nada. O que foi cancelado foi o Festival Virada Salvador. Todos os clubes e locais que possam receber até três mil pessoas [um novo decreto ampliou a capacidade em eventos para 5 mil pessoas] vão continuar fazendo o seu réveillon”, analisa. 

Verão ainda promissor

Roberto Duran acredita que o foco de quem vem a Salvador para o 31 de dezembro são outros atrativos da cidade, como a cultura, gastronomia e história. “Não acredito que quem venha para Salvador no final de ano venha exclusivamente para o Festival Virada e sim pelo contexto. Hoje, Salvador tem uma gama enorme de atrativos e uma demanda reprimida por esses dois anos. Teremos um verão promissor”, completa Roberto Duran. 

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado da Bahia (ABIH-BA), Luciano Lopes, segue o mesmo pensamento: “Acreditamos que a cidade de Salvador continua sendo muito procurada. Sem o réveillon, reduz um pouco a taxa de ocupação, mas vamos esperar os 25 dias pela frente para intensificar a comercialização dos pacotes”, afirma. 

O secretário estadual do Turismo, Maurício Bacelar, acredita que não haverá grande abalo no turismo. "O cancelamento do evento não vai impedir que o fluxo de turistas continue crescendo na cidade, já que ela oferece uma grande variedade de opções, como o turismo de sol e praia, cultural, histórico, gastronômico, esportivo, religioso e náutico. Prova disso é que a ocupação hoteleira na capital já tem registrado, em feriados prolongados, índices semelhantes ao período anterior à pandemia”, comenta Bacelar. 

O secretário ainda cita algumas ações do governo do estado para promover o destino Bahia. “Temos captado grandes eventos para impulsionar o turismo de negócios, que gera públicos expressivos. Salvador integra a zona turística Baía de Todos os Santos, onde estamos investindo R$ 70 milhões de dólares em obras estruturantes e de impacto cultural, que estão praticamente prontas, além de ações socioambientais. Os turistas têm inúmeros motivos para visitar a nossa terra".

Voos

A reportagem procurou a Gol Linhas Aéreas, a Latam Brasil e a Azul para saber se algum voo chegou a ser cancelado para Salvador no fim de ano. A Latam disse não poder informar se algum cliente cancelou a passagem e garantiu que não houve cancelamentos de voos por parte da companhia. 

Já a Azul afirmou não ter previsões de corte na malha aérea. “Destinos baianos, como Salvador, são muito procurados por turistas, sobretudo nessa época de alta temporada de verão. Mesmo com o cancelamento da festa, a Azul acredita que os viajantes manterão seus planos para aproveitar a virada do ano em solo baiano”, informou, por meio de nota. A Gol não respondeu à matéria até o fechamento. 

Prefeito e ministro da Saúde comentam o Carnaval 2022

O impasse sobre a realização do Carnaval 2022 de Salvador só será definido após conversa de Bruno Reis com o governador Rui Costa (PT). Nesta segunda-feira (29), o prefeito afirmou que a decisão depende dessa audiência, que ainda não tem data para acontecer.

"O governador disse que me procuraria, e eu disse que procuraria por ele, e eu já fiz isso. Eu espero ter oportunidade para a gente conversar e tomar a decisão em conjunto, que será tomada com toda a cautela e segurança, diante de tudo que está acontecendo", disse Bruno. 

O prefeito também falou que a chegada da nova variante Ômicron vai pesar nas decisões daqui para a frente. "Vamos ver o que os estudos vão falar sobre essa variante para a gente ter uma margem de segurança". 

Durante um evento no Hospital Martagão Gesteira, no Tororó, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi questionado se concordava com a realização do carnaval. Ele desconversou e disse que o evento é uma responsabilidade dos governos locais. O gestor também descartou a possibilidade de reduzir o intervalo entre a segunda dose e a dose de reforço das vacinas, que atualmente é de cinco meses. 

"Antes do carnaval, vamos ter o Natal e o Réveillon, mas essa não é uma pauta do Ministério da Saúde, até porque quem define essas questões são os prefeitos, eles é que estão em contato com a população e conhecem a questão epidemiológica própria de seus municípios. Esse é um momento de vigilância, de observar o que vai acontecer em função dessa nova variante", disse Queiroga.

O prefeito de Salvador ressaltou que a capital e a Bahia foram referências para o país durante a pandemia. "Colocamos sempre a vida em primeiro lugar, fizemos um esforço grande para chegarmos até aqui, tanto Salvador, quanto a Bahia. A cidade serviu de referência com uma série de medidas que foram copiadas Brasil afora, seja de isolamento, seja de flexibilização e as estratégias que montamos para avançar na vacinação", pontuou.

A secretária estadual de Saúde, Tereza Paim, afirmou que foi acertada a decisão de cancelar o Festival Virada, diante do cenário atual da pandemia. "Acho importante que os gestores, os responsáveis pela saúde, cuidem das pessoas".

Pelo menos mais cinco capitais cancelaram festejos

Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) e Palmas (TO) são as outras cinco capitais que anunciaram o cancelamento das festas, eventos e shows do Réveillon 2022 por conta da pandemia e da possibilidade da nova onda da doença afetar o Brasil com a variante ômicron. As informações são do site G1.

Ainda segundo o site, a prefeitura de Belo Horizonte não tem planos para comemorações públicas da virada para 2022. O Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da cidade divulgou, em 23 de novembro, nota técnica desaconselhando a realização de eventos de fim de ano.

O documento assinado pelos infectologistas Carlos Starling, Estevão Urbano e Unaí Tupinambás, lista os motivos para que a prefeitura da capital mineira não patrocine festas e que a população não participe de grandes aglomerações.

Em Fortaleza, o prefeito José Nogueira (PDT) descartou a possibilidade de festa pública na capital cearense. Tradicionalmente, a virada acontece no Aterro da Praia de Iracema, mas pelo segundo ano consecutivo, por conta da pandemia, o festejo não ocorrerá. O governador do Ceará, Camilo Santana, também já anunciou que os grandes eventos de réveillon estão proibidos em todo o estado.

João Pessoa planejava festas na orla, mas o prefeito Cícero Lucena anunciou nesta segunda-feira (29) que não haverá evento de Réveillon na capital paraibana. Ainda segundo ele, as praias serão liberadas para livre circulação de pessoas e reuniões particulares. E as festas em bares e casas de shows podem acontecer, desde que respeitem os protocolos de prevenção à covid-19.

A prefeitura de Palmas, no Tocantins, também anunciou na noite desta segunda que não haverá programação para o Réveillon 2022. A queima de fogos que marca a virada na cidade não será realizada pelo segundo ano consecutivo. 

Florianópolis, por sua vez, terá queima de fogos, mas sem os shows da virada para evitar aglomerações e a disseminação do coronavírus. A mudança de planos para o Réveillon da capital catarinense  foi anunciada nesta segunda (29).

A cidade de Marabá, no Pará, foi outra que cancelou as festas públicas. Enquanto isso, São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) planejam a realização dos réveillons. As duas capitais do sudeste, porém, afirmam  que os eventos estão condicionados ao quadro epidemiológico.

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