Casas abandonadas da Pituba são vistoriadas em ação de combate à dengue

salvador
24.07.2019, 15:00:00
Atualizado: 24.07.2019, 15:24:01
Antiga escola de balé virou foco de mosquitos e assusta moradores (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Casas abandonadas da Pituba são vistoriadas em ação de combate à dengue

Em abril, bairro foi classificado como área de risco, com mais de 3,9% de indicador de infestação

Durante a manhã desta quarta-feira (24), agentes de endemias do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da prefeitura de Salvador abriram dois imóveis fechados e abandonados no bairro da Pituba para realizar uma inspeção e detectar possíveis criadouros e focos do mosquito Aedes aegypti.

A principal preocupação dos agentes é com as doenças causadas pelos chamados arbovírus, que incluem dengue, zika, Chikungunya e febre amarela, que são vírus transmitidos pelo Aedes aegypti e por aracnídeos, como aranhas e carrapatos. Em Salvador, foram registrados 2.374 casos de dengue, com duas mortes; 200 de Chikungunya, sem óbitos; e 75 de zica, também sem vítimas fatais. Os dados correspondem ao período de janeiro até o dia 11 de julho. 

Em comparação ao mesmo período no ano passado, houve aumento em alguns tipos de vírus. Em 2018, foram 1.824 víitimas da dengue, o que representa crescimento aproximado de 30% nos casos. Já a Chikungunya, no ano passado, atingiu 145 pessoas, o que representa que 2019 teve aumento de quase 38% nos casos. O único número que reduziu este ano foi o de registros de zica, já que em 2018 foram 118 - 43 casos a mais que em 2019. 

Durante a visita a um dos imóveis inspecionados pela equipe de combate encontrou lixo e bastante locais propícios para o desenvolvimento do mosquito.

Pituba é um dos bairros com risco de infestação (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

“Na parte interior dessas casas nós encontramos lonas com acúmulos de água, recipientes e muito lixo, o que mostra estar realmente abandonado. Como está chovendo e tem essa área aberta, o local está propício a isso. Encontramos também um tanque aberto, sem tampa, mas sem foco do mosquito, pelo fato de estar seco”, narrou a agente de endemias Ana Rita Santana, que indicou as próximas medidas que o CCZ tomará.

“Fizemos a inspeção, detectamos e coletamos o foco do mosquito para análise, depois eliminamos os demais. O fato desses imóveis estarem fechados e sem receber a visita dos agentes por muito tempo acaba acumulando focos de doenças. O próximo passo após a inspeção é entrar em contato com os responsáveis do imóvel mais uma vez para liberar os acessos nas próximas visitas, para não ser preciso usarmos esse último recurso”, completou.

A ação de abertura dessas residências para o combate do mosquito responsável pela transmissão das doenças foi auxiliada por agentes da Guarda Municipal e chaveiros, para possibilitar a entrada nas propriedades.

Imóveis da Pituba foram vistoriados nesta manhã (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

De acordo com a coordenadora do Programa de Controle de Arboviroses, Isolina Miguez, a entidade realizou um cronograma de visitas baseado em denúncias recebidas pelo CCZ e nos relatórios das equipes de campo, que identificaram locais que recorrentemente não conseguiam acessar.

“Nosso intuito é identificar e eliminar possíveis criadouros do mosquito que estejam alojados nesses imóveis. Essa é uma ação realizada durante o ano todo e, agora, estamos intensificando por conta dos problemas de arboviroses que estão tendo em toda a Bahia. Temos um amparo legal feito pelo Ministério da Saúde para entrar nessas residências, porque sabemos que dentro delas continua sendo o maior número de focos do mosquito”, explicou.

Isolina garantiu ainda que, para ter acesso às residências, o Controle de Arboviroses segue alguns pré-requisitos básicos. “Não entramos nas casas simplesmente porque o agente falou que está fechada. No mínimo, os agentes tentam entrar nas residências por três vezes ou mais, em turnos alternados. Após não encontrar os responsáveis pelos imóveis, a gente faz essa inspeção com o apoio dos agentes e da guarda”, garantiu.  

A coordenadora pontuou ainda que Salvador está no estágio amarelo do índice de alerta para uma possível epidemia e revelou que ainda haverá inspeção em cerca de 40 imóveis nos bairros da Pituba, Barra e Boca do Rio. 

“Existem três estágios de risco de epidemia: o verde, o amarelo e o vermelho. Salvador está há muitos anos no estágio amarelo, ou seja, significa que devemos estar em alerta sempre. Estamos intensificando tudo o que podemos fazer em relação a isso para que não haja infestação na cidade”, completou.  

Na bronca
Moradora vizinha de um imóvel inspecionado nesta manhã, a aposentada Maria José da Silva, de 61 anos, contou que no local funcionava uma escola de balé, que fechou as portas há cerca de 10 anos e virou ponto de fuga para bandidos e espaço para usuários de drogas, além do acumular lixo e se tornar foco de doenças.

Maria José reclama de abandono de imóvel vizinho (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

“O dono da casa sumiu, nunca aparece por aqui. Só deixou a sujeira e, agora, ladrões e usuários de drogas usam o espaço para cometer seus atos e se esconder. Às vezes, nós, moradores vizinhos, pagamos a alguém para fazer uma limpeza e evitar os mosquitos que nos perturbam desde sempre”, reclamou a vizinha.  

Também moradora da região, a assistente social Maiana Vilar, 30, disse que os vizinhos ligam para o dono do imóvel com regularidade, mas nunca são atendidos. “Uma vez ele esteve aqui e nos deu o número dele, mas ligamos e nunca conseguimos falar. Para dormir, só com o uso de repelentes, porque os mosquitos são insuportáveis. Inclusive, minha mãe já pegou Chikungunya”, relatou.

Maiana conta que mãe já foi vítima de Chikungunya (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Além da abertura de imóveis fechados na cidade, o CCZ também tem intensificado as ações de varredura em bairros prioritários, com o objetivo de eliminar um grande número de focos e criadouros do Aedes aegypti num curto espaço de tempo. São prioridade os bairros com maior incidência de casos de dengue, zika viris e chikungunya em Salvador.

Somente na semana passada, seis localidades foram beneficiadas com a estratégia: Boca do Rio, Liberdade, Federação, Pau da Lima e Ilha de Bom Jesus dos Passos. Durante as ações, aproximadamente de 15 mil imóveis foram visitados e cerca de 476 focos foram identificados e eliminados. Na mesma inspeção, 4,4 toneladas de lixo foram recolhidas com o apoio da Limpurb.

Salvador em risco
O último Levantamento de Índice Rápido para Aedes aegypti (LIRAa), realizado em abril deste ano, revelou que a Pituba considerada área de risco - ou seja, quando há mais de 3,9% de indicador de infestação.

O estudo também apontou que, de janeiro deste ano até abril, o número de áreas de risco aumentou de 16 para 41 bairros - apesar do aumento, o número caiu em relação ao mesmo período do ano passado, quando eram 52 localidades com perigo de infestação. No último levantamento, o bairro com maior crescimento de exposição ao índice de infestação foi o de Fazenda Coutos, que subiu de 4% para 7,4%. O com menor indicador foi o da Engomadeira, com apenas 0,4% - esse número indica um baixo risco de uma epidemia na localidade.

Atualmente, são consideradas áreas de risco os seguintes bairros: Lagoa da Paixão, Valéria II, Alto do Cabrito, Bela Vista do Lobato, Boa Vista do Lobato, Campinas de Pirajá, Marechal Rondon II, Pirajá II, Bairro Guarani, Liberdade II, Liberdade I, Calabar, Chame-Chame, Engenho Velho da Federação I, Jardim Apipema, Ondina, Federação I, Amaralina, Caminho das Árvores, Itaigara, Pituba, Rio Vermelho, Nordeste de Amaralina, Cassange, Nova Esperança, Tancredo Neves II, Lobato, Plataforma II, São João do Cabrito, Escada, Praia Grande II, Rio Sena, Mirante de Periperi, Nova Constituinte, Fazenda Coutos, Coutos I, Vista Alegre, Coutos II, Paripe I. Alguns bairros são divididos para facilitar o trabalho de campo, segundo a SMS.

Ainda segundo o LIRAa, Salvador está em estado de alerta para a ocorrência de uma epidemia das arboviroses e o poder público convoca a população para contribuir na redução desse índice. Os depósitos preferenciais do mosquito identificados na capital baiana estão dentro dos próprios domicílios, como vasos e pratos de plantas, bebedouros de animais e caixas d'água.

* Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier.

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