Céu de brigadeiro em meio ao bombardeio

kátia borges
05.01.2020, 05:00:00

Céu de brigadeiro em meio ao bombardeio

O tempo caminha descalço nas areias quentes do Swell. Mar-lagoinha, piscininha-amor. Sol de verão anunciando Cores Vivas, DJ Dolores no contrafluxo, remixando Proletariado. A paisagem desmonta o móbile, cubo mágico anos 80 no Piruí. O passado passando lento, já foi, já fui. Feito Predileto, a tartaruga que ressurgiu do assoalho. Pede afeto, põe a cabeça perto. Faz cafuné. Predileto, essa metáfora. 

Alberto, vamos falar sobre escrever um dia desses? Você me conta de sua prosa nova, eu te mostro um poeminha velho. Só não vale citar Rilke ou algum trecho da carta de Caio para Zézim. Dia desses, uma jovem amiga contou que está lendo Morangos Mofados. Sabe em que dará, esse texto? Mil lágrimas, talvez. Deixa quieto. Aqueles contos me trouxeram o azul. Céu de brigadeiro em meio ao bombardeio. 

E nem era para ser assim. Beijos na plaqueta da sala do primeiro estágio. Jornalismo em exagero diário nos diários. “Mostra que tu é intenso”, ouve Lou Reed. Lembro do dia exato em que encontrei com Caio, lá pelos anos 90, parece ter sido há séculos. E foi mesmo em outro século. Daí ele contou o que havia sonhado na noite anterior, enquanto esperávamos a coletiva de imprensa. Somente eu e Clodoaldo. 

Ah, já sei dessa história. Vá lá, deixe que eu conte. Faz que esqueceu, finge estar surpreso.  Eu me senti importante, ouvindo aquele papo. E nunca mais deixei esse hábito saudável. Sincero, sincero até o osso. Nunca pergunte se estou bem, como se fôssemos estranhos. Estou sempre em alvoroço, feito o dito oriental. Viver ser como um filme. Sem repeat. Viver ser como uma performance, uma peça de teatro. 

Pensa com cuidado, quem armaria agora um novo set? Vasculhe a memória à cata de algo que não seja tristeza ou desencanto, porque o essencial é não amargar, nem a vida e nem o café. Administraremos todo o resto, embora não seja fácil. Tratores revolvem o terreno onde estamos plantados, escavações pressagiam prédios. Nem faz sombra, diz silêncios. Desaprendemos a desesperança, redesenhando o carma. 

Quando não sabia para onde ir, eu gostava de perambular a esmo pelas ruas do Centro. Penso melhor em movimento. Os casarões segredavam outra cidade. E o mar, azul em toda parte, fechava o círculo mágico. Alberto, a música! Nem sei dizer o quanto amo a palavra miríade. Gostava de deitar, de madrugada, nas areias de Barra Grande. Uma carta uma brasa através. Que este ano seja doce para nós, amém.    


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