Chuvas não impedem desmatamento na Amazônia; saiba como o INPE faz medições

brasil
30.07.2019, 22:57:15
Atualizado: 15.10.2019, 17:05:18

Chuvas não impedem desmatamento na Amazônia; saiba como o INPE faz medições

Projeto Comprova verifica vídeo que circula nas redes

Em vídeo compartilhado no Facebook e em grupos no WhatsApp, um médico do Pará contesta dados de desmatamento na Amazônia divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Ele afirma que não é possível desmatar a floresta de janeiro a julho, pois estes são meses mais chuvosos e não permitem queimadas. Essa alegação, no entanto, é falsa.

O período de chuvas na região da Amazônia é entre novembro e março, confirmam especialistas entrevistados pelo Comprova. Além disso, especialistas explicam que não é impossível desmatar a floresta com chuva. De acordo com eles, mesmo em estações chuvosas, há regiões mais secas, como o sul da Amazônia, próximo à transição com o Cerrado. Também é possível derrubar as árvores usando outros métodos, com tratores e motosserras, e esperar a estação seca para fazer queimadas que “limpem” o terreno.

Dados preliminares coletados por satélites e divulgados pelo INPE no site Terra Brasilis mostram um aumento de 212,4% no desmatamento na Amazônia em julho de 2019 em relação ao mesmo período do ano anterior. Os números do INPE foram questionados também pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele contestou a veracidade dos dados, reclamou da divulgação e disse que as informações prejudicam o nome do Brasil no exterior.

Como verificamos
Para checar o conteúdo do vídeo, o Comprova entrevistou a professora Luciana Rizzo, do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Carlos Souza, geólogo do instituto de pesquisa Imazon. Consultamos ainda dados disponíveis publicamente do INPE, do Imazon e do MapBiomas, assim como estudos e reportagens sobre o assunto.

A principal confusão de Marcos Andrade, o médico que aparece no vídeo, está em apontar o INPE como mentiroso por ter supostamente indicado alta do desmatamento na Amazônia no período da estação chuvosa — que geralmente dura de novembro a março. Informações do INPE (veja aqui como acessar) mostram que o desmate da floresta não aumentou nesses meses de 2019, mas em maio, junho e julho, que marcam o período de transição dos temporais para a estação seca.

A área florestal perdida em meados de julho atingiu o valor mais alto em um mês desde 2015, primeiro ano da série histórica, segundo dados preliminares do Deter-B –um dos sistemas do órgão federal que observam a Amazônia.

A plataforma TerraBrasilis, que exibe esses registros, mostra que de 1º a 25 de julho deste ano a perda pode ter atingido 1.864,1 km², área pouco maior que da cidade de São Paulo. Ainda em 2019, o sistema registrou 932 km² desmatados na Amazônia em junho (90% a mais que em junho de 2018) e 738 km² em maio (34% a mais). Já entre janeiro e abril, o desmate caiu em relação ao ano anterior.

Ainda que o médico fizesse referência aos dados corretos, a afirmação de que é “impossível” realizar queimadas — portanto, impossível desmatar — na Amazônia durante a estação chuvosa ainda seria falsa, disseram Luciana Rizzo e Carlos Souza ao Comprova. Apesar de o inverno (como é chamada a época de chuvas) ser de fato rigoroso na região, a distribuição das precipitações na floresta varia tanto entre os meses quanto no espaço — a Amazônia Legal ocupa 5,2 milhões km², divididos em zonas de diferentes microclimas.

Um artigo científico de 2001 de José Marengo, climatologista indicado pelos pesquisadores, aponta diferentes padrões de chuva em diferentes zonas da Amazônia (norte, nordeste, sudeste, sudoeste, região central e foz), cujos picos de temporais variam entre os meses da estação chuvosa — os resultados por região são descritos a partir da terceira página do documento. Isso significa que, no início do ano, enquanto em uma região ao norte da floresta pode haver poucas queimadas por causa de chuvas intensas, ao mesmo tempo, ao sul, operações de desmatamento podem funcionar porque ali o microclima é mais seco.

Além disso, Souza conta que, embora a queimada seja o método tradicional de limpeza de um terreno após a derrubada da floresta — portanto, prática geralmente inseparável do desmate —, uma estratégia às vezes usada nas operações de desmatamento baseia-se em derrubar as árvores durante a estação chuvosa, mas realizar a queimada meses depois, em tempos de seca. É uma maneira de acelerar essas operações ainda no início do ano, mesmo em lugares em que os temporais impedem que se finalize o procedimento.

Um documento do INPE explica como é o processo (clique aqui para baixar o PDF). A extração inicial da madeira é seletiva: primeiro vão as árvores nobres, depois as utilizadas na construção civil e, por fim, as madeiras mais leves. Depois, são derrubadas as espécies de menor porte e destruída a vegetação rasteira. O fogo é utilizado posteriormente, em uma segunda “limpeza” da área. Essa operação pode levar alguns anos.

Quem é o médico que aparece no vídeo
Antes de conversar com os pesquisadores, o Comprova entrou em contato por telefone com Marcos Andrade, que preferiu não responder às perguntas enviadas pela reportagem. Morador de Santarém (PA) e médico registrado no Pará, ele defende o presidente Jair Bolsonaro (PSL) no vídeo enganoso.

Marcos já gravou outros vídeos defendendo Jair Bolsonaro e criticando a mídia. Ele também já se posicionou de maneira contrária ao candidato à Presidência do PT nas últimas eleições, Fernando Haddad, e às políticas de redistribuição de renda do partido. O médico divulgou ainda uma gravação no ano passado em que acusa fraude nas urnas eletrônicas. No Facebook, ele publicou diversas postagens em apoio a Bolsonaro.

A gravação de Marcos foi divulgada por páginas como DireitaConservador, que teve 16,9 mil compartilhamentos e 204 mil visualizações entre os dias 23 e 30 de julho, e Clarice Borsa Agnes, com 7,3 mil compartilhamentos e 70 mil visualizações entre os dias 23 e 30 de julho. O vídeo também foi sinalizado no Monitor de WhatsApp da Universidade Federal de Minas Gerais, que mapeia conteúdo viral em grupos públicos do aplicativo de mensagens.

Após a publicação do primeiro vídeo, Marcos divulgou uma nova gravação em que diz que os índices do INPE podem ser fabricados. A fonte de suas informações, segundo ele, é sua “vivência da Amazônia”. Ele ainda canta uma música de Chitãozinho & Xororó, “Terra Tombada”, em que destaca os versos sobre queimadas na floresta no calor de agosto — e não nos meses de inverno (ou seja, nas chuvas de início de ano).

Como o INPE monitora o desmatamento
Instituído em 1971, para produzir ciência no Brasil na área espacial, o INPE monitora a Amazônia há mais de 30 anos. As imagens da floresta, obtidas via satélites, servem de base para quantificar o desmatamento local e embasar ações de fiscalização, controle e combate a ações ilegais, segundo o Ministério do Meio Ambiente. A precisão das imagens varia de 90% a 95%, segundo o instituto.

Ao todo, três sistemas de monitoramento do INPE vigiam a Amazônia — a área observada é da Amazônia Legal, que abrange os estados do Norte mais parte do Mato Grosso, de Tocantins e do Maranhão. São eles o Prodes (Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), que levanta as taxas anuais do desmate, o Deter-B (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que emite alertas diários, e o TerraClass, criado em parceria com a Embrapa, que mapeia o uso da terra após o desmatamento.

As informações recentes sobre o desmatamento em 2019 foram produzidas pelo Deter-B, criado em 2004 dentro do INPE para servir de suporte a ações do Ibama, autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente responsável por fiscalizar crimes ambientais. Usando dois sensores de dois satélites (o sino-brasileiro CBERS-4 e o indiano IRS), o sistema identifica o desmate ou degradação de áreas da floresta maiores que três hectares, partindo da detecção de padrões como cor, tonalidade, textura e forma da cobertura.

Após registro das imagens e contabilização dos resultados, feita de forma automatizada, os dados do Deter-B são repassados ao órgão ambiental e disponibilizados na plataforma TerraBrasilis, do INPE, que também divulga dados do Prodes. “Estão abertos para todo mundo, todo mundo pode verificar”, disse o diretor do instituto, Ricardo Galvão, em entrevista ao Estadão. A partir de 2004, o INPE adotou uma política de transparência que permite que qualquer pessoa acesse informações dos monitoramentos no site do instituto, incluindo dados sobre os satélites e a metodologia de captação das imagens, diz o órgão.

Por causa da cobertura de nuvens, que é variável de um mês para outro, e também da resolução espacial das imagens geradas pelos satélites do sistema, o INPE recomenda que a comparação entre dados de diferentes meses e anos obtidos pelo Deter seja feita com cautela. A cobertura de nuvens faz também diferença para a avaliação do desmatamento durante o período de chuvas, sobretudo entre janeiro em março — tradicionalmente, meses que registram a menor quantidade de alertas de desmate. A informação oficial do INPE para medir a taxa anual de desmatamento na floresta, diz o órgão, é fornecida pelo Prodes.

Acumulado, o desmatamento na Amazônia chegou a 20% da floresta, segundo o Relatório Planeta Vivo 2018, da WWF. Após atingir em 2004 um dos pontos mais altos da série histórica, com mais de 27 mil km² destruídos em um ano — a taxa anual de desmate é medida pelo INPE desde 1988 —, a devastação passou a cair, atingindo 4,5 mil km² em 2012. Em 2015, no entanto, os dados voltaram a aumentar.

Além do INPE, o Imazon, instituto de pesquisa não governamental, e a plataforma MapBiomas monitoram o desmatamento na Amazônia por sensoriamento remoto via satélites. As metodologias que ambos seguem difere em alguns pontos da que é usada pelo INPE, embora os três sistemas apresentem resultados semelhantes. Autoridades científicas internacionais, como a Nasa, dos EUA, consideram o INPE referência na área.

*Esta checagem foi postada originalmente pelo Projeto Comprova, uma coalizão formada por 24 veículos de mídia, incluindo o CORREIO, a fim de combater a desinformação a respeito de políticas públicas. Esta investigação foi conduzida por jornalistas do jornal Estadão e do Nexo, e verificada, através do processo de crosscheck, por oito veículos: Estadão, Poder 360, Gaúcha ZH, Jornal do Commercio, Piauí, AFP, CORREIO e Band.


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