Com 'cara de shopping', loja de construção vira opção de passeio na pandemia

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26.12.2020, 15:00:00
Atualizado: 08.01.2021, 19:48:10
Variedade oferecida na loja atrai consumidores (Nara Gentil/CORREIO)

Com 'cara de shopping', loja de construção vira opção de passeio na pandemia

Clientes aprovam a variedade de produtos para o lar

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Neste Natal, a cartinha para o Papai Noel esteve repleta de pedidos como cimento, tinta e utensílios para o lar. É o novo normal dando mais moral ao cafofo nosso de cada dia. Que me perdoe a alma de Vinícius de Moraes, mas o baiano deixou de passar uma tarde em Itapuã nessa pandemia e está preferindo outro tipo de passeio. Todos os caminhos levam ao “novo shopping” da era coronavírus: a Ferreira Costa, na Paralela. Ver a loja vazia é mais raro que o Rio Vermelho sem aglomeração nos finais de semana.

Casadas há dois anos, Ana Paixão e Danielle Zuma não vivem mais sem a mega store. Bastou iniciar a flexibilização para elas fazerem uma faxina geral no visual da casa. “É a terceira vez que estamos aqui, arrumamos nossa casa para o Natal. Resolvemos mudar novamente nosso quarto. Colocamos um papel de parede lindo em julho, mas enjoamos. Até nosso cachorro está latindo para o bendito papel da cor creme com dourado. Viemos comprar um novo, mas já resolvemos mudar o banheiro também. Compramos novas toalhas, utensílios e já estamos pensando em comprar um lustre. Pelo menos até antes do Natal, não devemos mudar mais nada. Eu acho, né?”, disse Danielle, que no meio da entrevista  pensou em trocar as cortinas.

Diariamente, cerca de 5 mil pessoas visitam o estabelecimento - houve um aumento de 30% no fluxo em função das compras de Natal. Contudo, a loja de construção teve uma carta na manga para ganhar fama de shopping na pandemia: manteve seu funcionamento, mesmo de forma reduzida, só com a área de material de construção. O cliente comprava pela internet e ia no local buscar o produto. Com a flexibilização do comércio, reabriu antes dos shoppings. 

“Casa e construção, inclusive jardinagem, foram um dos ramos que mais cresceram durante esta pandemia, justamente pelo fato das pessoas ficarem mais tempo dentro de casa. Surgiu, inclusive, um novo pavimento da casa, que é o Home Office. Quando você vai numa loja como a Ferreira Costa, você tem pessoas de classes sociais mais elevada e tem as menos favorecidas. Se ambos vão comprar uma torneira lá, você acha uma de plástico e outra de metal, que vai custar o dobro do valor. Contudo, as duas pessoas vão comprar”, analisa o consultor empresarial, Alex Cruz.

Segundo um levantamento da Conversion, consultoria de SEO e marketing de performance, os segmentos que mais cresceram em vendas foram eletrônicos (139%) e produtos para casa (83%). Curiosamente, ambos são vendidos na Ferreira Costa, entre os mais de 80 mil produtos disponíveis na loja. “Passamos a amar nosso lar. Creio que será um caminho sem volta, mesmo após a pandemia”, completa Alex.

O fato de ter produtos de variados segmentos à venda, de brinquedos a azulejos, além do espaço gourmet na área externa, é um atrativo extra, já que nem sempre a intenção inicial do cliente é apenas comprar, apesar de acabar levando alguma coisinha para casa. Um exemplo é Dona Rosimeire Soares, que não aguentava mais ficar em casa enfrentando a quarentena. 

“Já tinha uns três meses de pandemia e eu estava ficando louca dentro de casa. Como eu tinha a opção de um presente de aniversário, pensei que era a hora. Pedi de presente um passeio na loja. É um grande shopping, né? Tem várias coisas de decoração e ferramentas, que eu amo. Tem o café lá embaixo também. Nem que fosse só para olhar pessoas e coisas na loja, pedi para meu filho me levar como presente. Voltei a me sentir viva”, conta.

O pedido foi inusitado, mas juntou o útil ao agradável. Filho e mãe já fizeram do passeio uma programação rotineira a dois. “É uma terapia para nós. Tomamos um cafezinho, passeamos e olhamos as coisas para a casa nova que vamos nos mudar. E compramos algumas coisas, lógico”, diz Raoni Soares, filho de Rosimeire.

Raoni e Rosimeire: filho e mãe fizeram do passeio uma programação rotineira
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Tem ‘quase’ tudo
Moradora de Simões Filho, Valdeci Santos convida as amigas para o que os jovens chamam hoje de um “rolezinho” na loja. “Me perfumo toda para passear na Ferreira. Para mim, é um shopping. Aqui lancho, passeio e faço compras. Qual a diferença? Cheguei para comprar uma tampa do vaso sanitário lá de casa. Juro que era para ser só isso. Mas já comprei tinta nova para deixar as paredes mais bonitas no Natal, comprei verniz pro portão lá de casa, porta-sabonete para o banheiro, enfeites natalinos e nem cheguei na parte de decoração ainda”, conta Valdeci, sempre acompanhada por Dioneide e Filomena.

Com a pandemia, muita gente precisou adaptar a casa para se tornar o novo local de trabalho. Foi o caso do professor do Ifba de Santo Antônio de Jesus, Lúcio Mauro. Ele faz questão de enfrentar cerca de 200 quilômetros para comprar utensílios de escritório. “Frequento porque encontro de tudo para a casa. Em tempos de pandemia, passamos a equipar mais a casa para termos mais conforto e dar um suporte ao home office.  Muitas vezes vim comprar uma cantoneira e saí também com parafuso, broca, furadeira...”.

Outro fator decisivo foi o auxilio emergencial. Porém, é preciso cautela para afirmar que a ajuda do governo federal contribuiu diretamente com o crescimento do setor. “Existem dois cenários para o auxílio emergencial. No primeiro, são as pessoas que perderam um emprego e que não tinham nenhum tipo de renda. Ela vai usar o auxílio para comer mesmo, não passar fome. Porém, tem um segundo cenário, de pessoas que já estavam desempregadas, mas tinham outra renda. Neste caso, sim, podemos dizer que ajudou”, explica Alex Cruz.

Vendedora da Ferreira Costa há quatro anos, Jaira França sente o perfil diferenciado dos frequentadores ao longo deste ano atípico. “Com a pandemia, muitas pessoas que nunca vieram aqui passaram a frequentar com mais frequência. Talvez pelo fato do tédio dentro de casa e de como passamos a dar mais valor ao nosso lar. Aqui você pode comprar de cimento a um copo de vidro. Pode trazer até o cachorro, pois temos um carrinho para pets”, afirma Jaira, que acabou interrompida por um senhor à procura de algo inusitado. “A senhora trabalha aqui? Onde encontro pomada para hemorroida?”, perguntou o cliente, que preferiu não se identificar após perceber que nem tudo pode ser encontrado ali.

Na visão da psicóloga Cláudia Aguiar, este novo comportamento pode trazer um legado benéfico para a sociedade. “Nossa vida foi moldada para a correria do mundo externo, mas a pandemia nos trouxe para dentro de casa. Se tornou uma necessidade buscar mais conforto, é natural. Ainda não vejo como compulsão de compras, apesar de sabermos que pode existir, mais pela saúde mental da pessoa do que pelo momento. Podemos tirar proveito disso, remodelando nosso modo de vida, dando mais importância ao lar, família, sem perder o contato com o mundo externo”, revela.

Ana e Danielle encheram o carrinho
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Loja oferece simulação de ambientes em 3D de graça

O cliente olha de canto de olho, faz bico e acha que precisa pagar pelo serviço. Só depois que Bruna Ferreira quebra o gelo e chama a pessoa para uma conversa, o paraíso se abre para o freguês da Ferreira Costa: um projeto pra chamar de seu. A loja da Paralela disponibiliza um serviço de desenhar na hora para o cliente, que pode testar cores, pisos e decoração. Tudo isso em 3D, feito pela própria Bruna, estudante do oitavo semestre de arquitetura.

“A pessoa sempre chega com desconfiança. Olha, acha que o serviço é um artigo de luxo. Só depois que desenhamos o projeto e mostramos para o cliente, provamos a importância de se fazer um planejamento antes de comprar o material. Aí o astral muda. Acho que 99% das pessoas voltam aqui apenas para me mostrar fotos da casa reformada, trazendo familiares e indicando a amigos. É um tipo de serviço que é desconhecido, mas que se torna importante depois de descoberto”, conta Bruna.

O serviço não é um bicho de sete cabeças. O cidadão pode chegar com a planta do local que será reformado. Pode ser também foto, medida, o que for possível para o colaborador desenhar no programa. A partir de então, a arquiteta coloca o piso, a cor da parede e o cliente já visualiza como ficará a reforma, evitando se arrepender depois que o pedreiro terminar a obra. Também disponibiliza a quantidade de produto, evitando desperdícios. No entanto, para levar a cópia do projeto, é preciso comprar os produtos na loja.

“Muitos clientes não podem contratar um arquiteto ou não se preocupam com isso, e acaba se arrependendo no momento que vê a obra já finalizada. Mostramos que fazer o projeto é importante até para evitar desperdícios, escolhendo o produto certo e com a quantidade que vai precisar. É uma espécie de inclusão também, visto que arquitetura é estereotipada como artigo de luxo e restrito à camada rica da sociedade. Aqui todos podem ter um projeto de sua casa”, completa Bruna.

O produto está disponível, mas ainda encontra resistência. Durante a visita da reportagem, nenhum cliente solicitou o serviço naquela tarde inteira, mesmo com grandes avisos pela loja anunciando que oferece o projeto sem custos. A Ferreira Costa também disponibiliza projetos para móveis decorados, com os mesmos moldes.

Cliente pode ter seu projeto desenhado na hora
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Nova unidade será construída nos Barris

Uma nova loja da Ferreira Costa será construída do zero em Salvador, maior que a localizada na Paralela e no centro da cidade, mais especificamente nos Barris, ao lado da 1ª Delegacia. Serão mais de 36 mil metros quadrados entre estacionamento, espaço gourmet e loja, que terá dois andares. A pandemia atrapalhou o cronograma das obras, mas a conclusão está prevista para 2022.

“As obras se iniciam no próximo ano, mas ainda não temos uma data específica para abrir. O que podemos dizer é que será maior que esta da Paralela e será nos Barris”, afirma Daniel Braga, gerente de vendas. Atualmente com cerca de 800 funcionários, a expectativa é que a nova unidade gere mais de mil empregos com a loja aberta. O terreno já foi comprado e o projeto está pronto.

A Ferreira Costa, como todo comércio, passou por momentos difíceis, mas se orgulha de ter resistido ao primeiro momento da pandemia sem baixas. “Não fechamos. Trabalhamos muito no e-commerce, se adaptando às regras e não demitimos nenhum funcionário. Conseguimos manter nosso quadro e seguramos todo nosso time. E reabrimos com as mesmas pessoas de antes do início do coronavírus”, conta Daniel.

A Ferreira Costa é muito mais antiga do que se pensa. A primeira loja foi inaugurada em 1884, em Garanhuns, Pernambuco. A família, que até hoje conduz o negócio, já está na quinta geração e conta atualmente com seis lojas: Salvador, Garanhuns, duas no Recife, Aracaju e João Pessoa. Além da nova unidade que será construída na capital baiana, lojas em Natal e Caruaru (PE) serão inauguradas em breve.

“O segredo é disponibilizar tudo para nosso cliente. Quando ele resolve sair de casa, ele vem aqui para resolver algo, desde uma obra grande a utensílios menores. Também setorizamos nossas lojas, sugerindo outros produtos relacionados àquilo que ele procura. Por exemplo, no lugar onde se tem tinta, colocamos a lixa, o pincel, tudo para que ele tenha a comodidade de encontrar tudo que precisa”, completa Daniel.

A nova mega store de Salvador será ainda mais setorizada. O primeiro andar será destinado para clientes que pretendem fazer grandes reformas, com produtos destinados a casa e construção. No segundo, decoração, eletrodomésticos, brinquedos e até um espaço para os pets.

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