Crianças não são alvo da pandemia, mas elas estão sendo afetadas

bahia
28.03.2021, 16:00:00
Atualizado: 28.03.2021, 16:04:17

Crianças não são alvo da pandemia, mas elas estão sendo afetadas

'Não sei que tipo de efeito o distanciamento pode trazer para cada faixa etária na infância'

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Gugu foi o primeiro nome da família que Julia aprendeu a falar. Disse o apelido do primo de seis anos, que só conhece por vídeochamadas, antes mesmo de falar papai e mamãe. A gente não ensinou essa palavra, mas Gustavo é o contato de Julia mais frequente com uma criança. Falou a primeira vez e repete um monte de vezes, de dia e de noite. Acorda e fala Gugu. Vai dormir falando Gugu. E aprendeu também a falar Bi, apelido do priminho Gabriel. Eles fazem alguma palhaçada na frente da câmera no Brasil e ela dá risada aqui nos Estados Unidos.

Outro dia, Julia recebeu um presente lindo do filho de uma amiga: desenhos, um livro infantil, um cartão e uma foto do amiguinho. Brincou com tudo, mas com a foto foi diferente. Ela se sentou e ficou longos instantes segurando a fotografia e observando a imagem diretamente. Depois estendeu a mãozinha com a foto na direção do nosso mural, pedindo para colocar o retrato ali. Acho que, no fundo, ela queria mais crianças não só no mural, mas na vida.

Para mim, uma das coisas mais difíceis da pandemia é ver Julia crescendo sem o convívio com outras crianças. Ela nasceu no começo de 2020 e a gente ainda estava pensando em como levar uma bebê para passear, quando o surto de covid-19 nos fez entender que o mais seguro era ficar em casa. Já passamos pelas quatro estações do ano com brincadeiras em que a única voz de criança é a dela mesma. Outro dia, precisamos sair e, depois de um tempo, percebi que Julia estava virada para o outro lado, dando risada.

Olhei ao redor e vi que ela estava conversando, à distância, com uma garota que devia ser uns quatro anos mais velha. Uma conversa sem palavras: com gestos, sorrisos e sentimento. Fiquei calada, vendo a alegria daquele encontro e com vontade de me aproximar, de deixar que se conhecessem de perto. Mas são tempos em que não se pode fazer isso. Então é como se podássemos um pouco a nossa espontaneidade e também a da criança.

Julia ainda não sabe formular questões, mas talvez as perguntas que não são feitas sejam as mais preocupantes. Como encontrar respostas para problemas ainda sem nome, só que a gente intui e sente que existem? As crianças não são o alvo central nessa pandemia. Mas isso não significa que elas não estejam sendo afetadas e que suas consequências não sejam sérias. Afinal, estão passando uma parte significativa das suas vidas na pandemia, tanto no Brasil, como em todo o mundo. E a dimensão de tempo é muito diferente na infância. São fases importantes para o desenvolvimento e para o convívio social que não retornarão. Algumas notícias já mostram o aumento de problemas de ansiedade, estresse e depressão entre crianças de idades variadas.

Folheio pela quinta vez seguida o livrinho cheio de rostos de bebês, enquanto imito os sons de suas vozes. Julia bate palmas de alegria, e me devolve o livro. É assim que ela mostra que quer que eu conte de novo a história. É a sua favorita. Um livro cheio de rostos de crianças. Fico me perguntando de que forma ela vai se relacionar com outras pessoas quando tudo isso passar. 

Não sei que tipo de efeito o distanciamento pode trazer para cada faixa etária na infância. Crianças que raramente brincam com outros meninos e meninas. Como será que elas percebem essa ausência de encontros? Como preencher o silêncio que insiste em habitar um lugar que deveria estar cheio de vozes e gargalhadas infantis? Sigo buscando entender esses tempos anormais e quero poder dizer a Julia que não vai ser sempre assim. Que logo ela vai brincar com outras crianças e vão poder se abraçar e até rolar pelo chão se quiserem.

Na busca de respostas para mim mesma, tento explicar a minha filha que precisamos manter o distanciamento em nome da saúde e da segurança não apenas nossa, mas coletiva. Talvez, no futuro, ela pergunte o que seus pais fizeram nesse momento. E teremos ao menos a tranquilidade de dizer que nos protegemos, por nós e pela humanidade. Mas isso não é o suficiente. É preciso olhar bem de perto para essas e muitas outras questões na formação dessas crianças que assumirão a responsabilidade pelo mundo nos próximos anos.

Não é nada fácil perceber que a distância que salva vidas pode deixar marcas nesses seres que amamos tanto. Algumas delas sentirão um peso ainda maior, seja por fatores econômicos – que, com certeza, modificam o impacto da pandemia para cada pessoa – mas também pela perda de entes queridos e pela forma que cada família tem de lidar com o luto. Mas uma coisa é certa: elas não irão esquecer. E precisamos aprender a lidar com isso.

Adriana Jacob Carneiro é jornalista e mãe de Julia, de 1 ano e 2 meses.



***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas