Diversidade em pauta: Encontro irá discutir o tema voltado para o empreendedorismo

economia
10.05.2017, 04:24:00

Diversidade em pauta: Encontro irá discutir o tema voltado para o empreendedorismo

Promovido pelo CORREIO, o evento gratuito traz como um dos convidados, o vice-administrador da SBA, Eugene Cornelius Jr.

Vice-Administrador da SBA, Eugene Cornelius Jr., abre o encontro dia 16, na Casa do Comércio  às 9h
(Foto: Divulgação)


Ter uma equipe plural, que preze pela diversidade étnica e de gênero, é essencial para estimular a inovação e a criatividade dentro das empresas. No mundo competitivo dos negócios, os executivos já estão atentos que a diversidade e inclusão nas equipes garante o olhar diferenciado para todos os públicos. Diante da necessidade de discutir melhor o tema, o CORREIO inicia na próxima terça-feira, 16, a partir das 9h, a série de debates ‘Correio Encontros’. Entre os convidados dessa primeira edição está Eugene Cornelius Jr., vice-administrador associado do Escritório de Comércio Internacional da U.S. Small Business Administration (SBA), agência do governo norte-americano que tem a missão de fornecer apoio a empreendedores e pequenas empresas. Com o tema “Diversidade nos Negócios: Impactos, Desafios e Oportunidades”, Cornelius vai abordar como a diversidade étnica e cultural pode ser um ativo nos negócios e as principais dificuldades enfrentadas pelos empreendedores. Na parte da tarde, o executivo irá ministrar a oficina ‘Estratégias para Transformar Start Ups em Pequenas e Médias Empresas’. A programação completa está disponível em www.correio24horas.com.br/correioencontros, onde os interessados também se inscrever gratuitamente.

O empreendedorismo étnico tem grande potencial na Bahia e no Brasil, particularmente na indústria da moda, já que os produtos de moda estão associados à identidade. Contudo, vemos uma tendência conservadora no mundo atualmente, com o aumento do racismo e xenofobia, e há relatos de confronto e intimidação com as pessoas que usam roupas étnicas. O que você acha sobre esse cenário? Isso pode ser alterado?

Sim, esse cenário pode ser alterado com a criação de um ambiente seguro de respeito à diversidade. Em 2008, os Estados Unidos e o Brasil assinaram o Plano de Ação Conjunto entre o Brasil e os Estados Unidos para a Eliminação da Discriminação Étnico-Racial e a Promoção da Igualdade (JAPER - Joint Action Plan to Eliminate Racial and Ethnic Discrimination and Promote Equality). O JAPER é o primeiro acordo bilateral voltado para o racismo. Esta iniciativa alavanca a experiência em políticas interinstitucionais em ambos os países, numa parceria única com a sociedade civil e comitês do setor privado para combater as disparidades raciais na saúde, justiça ambiental, acesso à educação, igualdade de acesso às oportunidades econômicas e ao sistema judiciário. Acredito que os produtos e serviços étnicos têm um papel significativo no sucesso do mercado. Nos Estados Unidos, as incubadoras explodiram em um mercado antes inexplorado, atendendo a um setor importante das empresas de pequeno porte e incluindo a indústria da moda. A SBA fez uma parceria público-privada para apoiar a DC Fashion Incubator em Washington, DC, que tem como foco a criação de programas educacionais, iniciativas de formação da força de trabalho e oportunidades de networking/orientação para profissionais e empresários aspirantes da moda. Por meio da inovação e colaboração, a moda da Bahia também pode ter influências semelhantes.

Quais semelhanças e diferenças você percebe entre as populações afro-americanas e afro-brasileiras? 

As populações afrodescendentes dos Estados Unidos representam 13% da população do país. O status socioeconômico tem afetado a vida de muitas comunidades afro-americanas e afro-brasileiras, enquanto a discriminação e a marginalização são muitas vezes barreiras às oportunidades. Contudo, apesar destas circunstâncias, as parcerias com grupos da sociedade civil, comunidades do setor privado e funcionários do governo devem promover a legislação e as políticas que trabalham para eliminar essas disparidades socioeconômicas. A capacitação econômica começa com a alfabetização financeira e apropriação. Na SBA, trabalhamos para garantir que a alfabetização e a apropriação sejam programadas em toda a nossa rede de parceiros de recursos.

Na sua opinião, quais são as principais dificuldades e oportunidades para os empresários afrodescendentes no Brasil? 

Os principais desafios para os empresários são a igualdade de acesso aos serviços e o suporte técnico e financeiro de baixo custo. No geral, os empresários enfrentam muitos desafios em seu caminho para a capacitação econômica e sucesso. Na SBA, estamos focados em oferecer três soluções fundamentais para a criação de oportunidades econômicas: aumentar o acesso ao capital, adequar o suporte técnico e fortalecer as parcerias público-privadas.

O que pode ser feito para superar estes gargalos?

Para começar, a diversidade, nos níveis mais altos do governo, é essencial para trazer conscientização a muitos dos desafios das empresas, dos empreendedores e das comunidades. No geral, há uma falta de mulheres e representantes de minorias em posições de liderança. Para explorar esse potencial, os setores público e privado devem trabalhar juntos para aumentar e conectar diversos talentos com cargos governamentais, oportunidades na direção e funções de liderança.

O desenvolvimento empresarial afrodescendente demanda alguma forma de medida protecionista?

[Um ‘não’ inequívoco]. O protecionismo cria uma falsa sensação de segurança e um mercado falso, que é um obstáculo para o sucesso empresarial. Nos Estados Unidos, reconhecemos que as empresas de pequeno e médio porte, em todas as comunidades, são fundamentais para a nossa recuperação e força econômicas, para a construção do futuro da América e para ajudar o país a competir no atual mercado global. Todo empreendedor precisa de acesso a informações, capital e oportunidades de mercado. A SBA foi criada para abordar esses três desafios, auxiliando, aconselhando, oferecendo suporte e protegendo os interesses das pequenas empresas em todas as comunidades. Além disso, adaptamos programas para atender às necessidades das comunidades não atendidas, como as minorias, as mulheres e os veteranos, para proporcionar sensibilidade cultural.

Qual a sua opinião sobre o desenvolvimento de nichos do mercado baseados nas características étnicas e culturais?

Se as empresas e as comunidades forem agrupadas em nichos de mercado, de acordo com suas características étnicas e culturais, isso limitará a capacidade e os conhecimentos de uma sociedade mais competitiva. A melhor prática é que os governos garantam políticas transparentes e inclusivas para todas as comunidades, para que elas permaneçam competitivas, vibrantes e inovadoras.

Quais setores e/ou modelos de negócios têm maiores chances de sucesso aqui na Bahia e em Salvador?

Creio que existem modelos que podem ser adaptados para a cidade de Salvador e para o estado da Bahia. Especificamente, a Small Business Administration (SBA) dos Estados Unidos, em parceria com uma organização sem fins lucrativos, lançou a iniciativa Partnership for Lending in Underserved Markets (PLUM), ou Parceria para Financiamentos em Mercados Subaproveitados, que é um piloto de dois anos que tem como objetivo desenvolver abordagens simples e de bom senso para reduzir barreiras ao capital, criando oportunidades econômicas e melhorando os empréstimos a empresas de pequeno e médio porte minoritárias. A iniciativa PLUM pretende atingir este objetivo de três formas: aumentar o acesso ao capital, adaptar o suporte técnico e reforçar as parcerias público-privadas. Em geral, Salvador e todo o estado da Bahia deveriam tentar ampliar suas parcerias com o setor público e o setor privado para melhorar as perspectivas econômicas de suas comunidades.

Com impostos altos e a burocracia complexa do Brasil, o que os governos locais e estaduais podem fazer para melhorar os negócios para empreendedores de pequeno e médio porte?

O Brasil não é diferente de muitos países que enfrentam desafios de desenvolvimento empresarial e econômico. O meu conselho é manter o foco nas áreas que você pode mudar e causar um impacto no seu ecossistema empreendedor local. Os componentes de um ecossistema empreendedor geralmente incluem: mercados acessíveis, força de trabalho de capital humano, financiamento e finanças, mentores, marco regulatório e infraestrutura, educação e formação, principais universidades como catalisadores e apoio cultural. Encontre as oportunidades mais acessíveis e concentre-se naqueles componentes que fornecem “vitórias” rápidas. Talvez isso signifique concentrar-se no componente “apoio cultural”, garantindo mentores, serviços profissionais, incubadoras/aceleradoras e uma rede de parceiros empresariais estabelecida e disponibilizada aos empreendedores. Além disso, os governos estaduais e locais devem sempre trabalhar juntos para apoiar o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, tentar modernizar as práticas e as funções reguladoras que promovem o crescimento sustentável dos negócios. Aqui estão duas outras modalidades que podem ser levadas em conta:

Parcerias público-privadas: Parcerias entre os governos locais, estaduais e federais são muito importantes para o desenvolvimento econômico sustentável porque, quando trabalham sozinhos, os governos geralmente carecem de capacidades e recursos especializados. Estas parcerias geram um valor compartilhado que resulta em crescimento econômico e social eficiente e eficaz.

Transparência do governo: Para promover o crescimento sustentável dos negócios, é importante que as regulamentações e políticas sejam transparentes e flexíveis. As empresas de pequeno e médio porte precisam de procedimentos regulatórios previsíveis e justos, o que reduz os obstáculos para o comércio, os encargos e a complexidade que afetam as empresas de pequeno e médio porte de maneira desproporcional.

Outra tendência mundial se refere ao recente crescimento das barreiras ao comércio internacional. Quais são os atalhos e/ou maneiras mais rápidas que as empresas de pequeno e médio porte interessadas no comércio internacional podem usar?

Na Small Business Administration (SBA) dos Estados Unidos, trabalhamos com a colaboração de empresas de pequeno porte, em um esforço para ajudá-las a expandir sua base de clientes fora dos Estados Unidos. Trabalhamos com empresas de pequeno e médio porte para que tenham acesso aos mercados estrangeiros e financiamentos das exportações. Os acordos comerciais visam reduzir as barreiras comerciais, mas devem ser bem elaborados ou adaptados às empresas de pequeno e médio porte. A SBA trabalha para fortalecer as vozes das pequenas empresas nos acordos comerciais, porque elas dependem do texto do acordo comercial para obter uma “certeza razoável” em todos os assuntos de procedimentos aduaneiros estrangeiros, requisitos e padrões e proteção da propriedade intelectual. Por exemplo, a SBA participa das negociações desenvolvendo compromissos de comércio benéficos para as pequenas empresas e o texto para que as regulamentações do comércio exterior não sobrecarreguem desnecessariamente os pequenos exportadores dos Estados Unidos. As empresas de pequeno e médio porte do Brasil e dos Estados Unidos começarão a ter uma redução na complexidade dos procedimentos e regulamentos não transparentes que possam desencorajar as exportações, aumentando a incerteza, os custos e os atrasos. Melhorias são previstas, porque, em fevereiro de 2017, entrou em vigor o Acordo de Facilitação do Comércio da OMC. Quando o acordo for totalmente implementado, os comerciantes se beneficiarão dos compromissos assumidos pelos membros da OMC com relação à publicação de todas as regulamentações e formulários aduaneiros na internet, procedimentos de notificação e comentários, consultas públicas, decisões antecipadas, aceitação de cópias e pagamentos online, reduções de formalidades, procedimentos uniformes e documentação exigida na fronteira e várias outras melhorias para ajudar as empresas de pequeno e médio porte a se tornarem globais de maneira segura.

A produtividade é outra questão que está se tornando cada vez mais importante no país. O que os Estados Unidos fazem para aumentar a produtividade das empresas? 

A Small Business Administration (SBA) dos Estados Unidos trabalha com as empresas de pequeno e médio porte para aumentar nossa produtividade nacional. Embora muitos fatores afetem a economia dos Estados Unidos e a sua produtividade geral, é importante ensinar às empresas como modernizar as operações e ao mesmo tempo eliminar desperdícios. Os empreendedores devem entender onde estão as operações ineficientes, determinar o que pode ser eliminado e tomar medidas para eliminar desperdícios desnecessários. Os desperdícios podem ser menores, como a impressão nos dois lados de uma folha de papel, ou podem ser maiores, como decidir não comprar tijolos novos e argamassa, optando por uma alternativa de e-business. Na SBA, ajudamos as empresas de pequeno e médio porte a refletir sobre muitos destes obstáculos oferendo serviços de orientação e treinamento nos Centros de Desenvolvimento de Empresas de Pequeno Porte. Para os empreendedores brasileiros, ter acesso a redes de orientação, capacitação e desenvolvimento da força de trabalho, incluindo o setor privado e público, é fundamental para otimizar o potencial econômico.

E com relação a força de trabalho, o que a SBA tem oferecido nesta área em termos de qualificação?

Na Small Business Administration (SBA) dos Estados Unidos, acreditamos que o desenvolvimento da força de trabalho é fundamental para o sucesso de todas as organizações. Na SBA, fornecemos aos funcionários a formação necessária para que eles façam seu trabalho e tenham sucesso. Existem também outros órgãos federais dos Estados Unidos e recursos estaduais que oferecem muitos programas e serviços para garantir uma força de trabalho treinada para atender às demandas do mercado. Embora a SBA ofereça oportunidades de desenvolvimento de força de trabalho, ela se concentra principalmente em garantir que as empresas de pequeno e médio porte tenham acesso a financiamento, orientação e oportunidades de contratação por parte do governo. Uma das principais iniciativas oferecidas aos empreendedores é o programa ‘Líderes Emergentes’, que fornece aos executivos estruturas organizacionais, redes de recursos e a motivação necessária para construir negócios sustentáveis e promover o desenvolvimento econômico em comunidades carentes. Também quero enfatizar a importância das parcerias público-privadas, que são mecanismos que têm condições de preencher lacunas entre as capacidades e os recursos. Em minha viagem a Salvador, quero visitar a CIMATEC para saber mais sobre seus programas e serviços oferecidos às comunidades que promovem o desenvolvimento da força de trabalho.

A sustentabilidade é outra questão importante no século XXI. O problema aqui é que a produção sustentável tem custos adicionais. Consequentemente, os produtos se tornam mais caros e os consumidores buscam preços mais baixos. Como podemos mudar a mentalidade do consumidor, neste momento em que os consumidores brasileiros enfrentam problemas que incluem renda baixa e salários baixos? 

A oportunidade para as empresas de pequeno e médio porte é explorar as redes de sustentabilidade existentes por meio das cadeias de fornecimento. Em geral, é importante que as empresas de pequeno e médio porte estejam representadas nas cadeias de fornecimento, pois elas fornecem inovações, redução de custos e diversidade de produtos e serviços. Com foco na criação de programas de formação expansíveis, as empresas de pequeno e médio porte poderão desenvolver as competências necessárias para explorar as cadeias de fornecimento focadas na sustentabilidade. Programas de treinamento direcionados ajudam a otimizar o potencial das empresas de pequeno e médio porte e ao mesmo mudam a mentalidade dos consumidores, aumentando os salários e as rendas.

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