Djamila Ribeiro fala sobre racismo e assédio em Cartas Para Minha Avó

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26.07.2021, 06:00:00
Atualizado: 26.07.2021, 10:07:45
Djamila e a capa de seu novo livro (Flavio Teperman/divulgação)

Djamila Ribeiro fala sobre racismo e assédio em Cartas Para Minha Avó

Autora revisitou seus diários de adolescência para escrever novo livro

O quarto livro de Djamila Ribeiro, Cartas Para Minha Avó (Companhia das Letras/ R$ 35/ 200 páginas), só será lançado nesta sexta-feira. Mas, se você ainda não escolheu como presentear sua avó ou seu avô hoje - sim, esta segunda (26) é dia dos avós -, vale esperar esses quatro dias para dar algo bem especial.

Baseado nos diários de infância e juventude da autora, o livro é escrito de maneira informal, como se Djamila estivesse mesmo escrevendo para Dona Antônia, que era conhecedora de ervas curativas e benzedeira muito requisitada. A autora, como ela mesma diz, faz um "mergulho na sua ancestralidade" para tratar de assuntos muito duros, como racismo e assédio. Um dos episódios que mais impressiona é o de um garoto de onze anos, que, quando ela tinha seis anos, tentou transar com ela à força.

Ela lembra também que seu pai não a deixava assistir ao programa de Xuxa na TV, porque ele entendia que a atração promovia o racismo. Mal sabia ele que a filha sonhava ser uma das Paquitas. Embora reconheça que a presença dos negros aumentou na mídia, afirma que ainda está longe do que deveria: "A televisão brasileira ainda não reflete a diversidade de seu povo. Como mulheres negras, somos o maior grupo demográfico no Brasil,  27% da população brasileira. Mas quando se liga a TV parece que somos minoria".

Qual a importância de sua avó na formação de seu caráter?
Minha avó foi uma pessoa fundamental para a minha formação. Era meu espaço de afeto e acolhimento. Como era benzedeira e atendia a comunidade, me ensinou muito sobre o compartilhamento de saberes e a importância de olhar para o outro.

Num trecho do livro, você afirma que "Preparar para a vida, quando se trata de uma criança negra, é ser brutalizada o bastante para aprender a lidar com a brutalidade do mundo". Hoje você ainda acredita ser necessário educar sua filha desta forma? Por que?
Penso que mães negras,  geral, sofrem com essa questão. A sociedade é muito brutal. No livro, há o diálogo entre quatro mulheres negras: minha avó, minha mãe, eu e minha filha. Eu compreendo o que levou minha avó e mãe a serem duras,  muitas vezes a surra é vista como uma forma de proteger. "Antes eu te bater do que a polícia" era uma frase dita de forma recorrente por minha mãe. É dura, porém real. Ela sabia o modo pelo qual somos tratados pela polícia. Ela iria bater, mas depois acolher. Então Penso que não é uma questão de se eu ainda acredito ser necessário educar dessa forma, mas de questionar o racismo da nossa sociedade que faz com que mães negras tenham medo o tempo todo; acreditem que precisam ser duras. Se hoje eu posso educar a minha filha com menos dureza foi porque tive condição de elaborar muitas coisas, oportunidades para isso. Minha avó e mãe não tiveram. Eu as humanizo porque reflito sobre suas condições reais, haviam poucas escolhas para elas. Eu converso muita com minha filha sobre essas questões, sem culpar minhas antepassadas.

No livro, você diz "Você, que nunca soube o que era feminismo, minha mãe, que nunca soube o que era feminismo, me ensinaram a importância de me defender". Sua mãe e sua avó, mesmo sem saber, eram feministas? Por que?
Não penso que elas eram feministas necessariamente e penso que tudo bem. Eu as vejo como mulheres fortes que precisaram ser fortes pra dar conta de tudo. Elas me ensinaram a andar de cabeça erguida,  a não aceitar desaforo, muito da minha coragem vem delas. Mas algo que me toca profissionalmente foi o fato de me protegerem de homens assediadores. De enfrentar, de terem me olhado com olhos cúmplices.

Você observa que, na sua infância, os negros não se enxergavam na mídia, especialmente na TV. Percebe alguma mudança nisso? Qual a importância de o negro se sentir representado nos veículos de comunicação?
É fundamental poder se enxergar, as imagens são muito poderosas. Porém, para além de sermos representados, precisamos questionar a forma pela qual estamos sendo representados. É preciso criar diferentes possibilidades de existências. Apesar de termos avançado nesse sentido, ainda estamos muito aquém do ideal. A televisão brasileira ainda não reflete a diversidade de seu povo. Como mulheres negras, somos o maior grupo demográfico no Brasil,  27% da população brasileira. Mas quando se liga a TV parece que somos minoria. A supremacia branca e masculina precisa ser combatida sempre.

Você relata alguns episódios de assédio que sofreu quando era ainda criança ou adolescente. Escrever sobre isso e relatar isso tão abertamente é um desafio? Por que decidiu contar esses casos?
Relato esses episódios assim como relato episódios de racismo. Como menina negra, sofria a dupla discriminação, isso fez parte da minha vida. Então foi tão somente contar a minha realidade, às opressões as quais fui e sou submetida a partir do meu lugar social como mulher negra. É falar de interseccionalidade a partir das minhas experiências. Infelizmente essa é a realidade, nossas expectativas concretas presentes nas estatísticas.

Você diz que seu pai passava a imagem do "bonzinho incompreendido" colocava sua mãe no lugar da "amargurada". Você acreditou nisso durante um tempo? O que a fez mudar de ideia? Guarda algum tipo de rancor por seu pai por isso?
Sim, acreditei, sobretudo por ser a "caçula do pai". Meu pai era a figura engraçada e divertida, que me levava pra passear, me presenteava com livros, livrava das surras. Quando criança, não conseguia dimensionar que era a minha mãe que ficava com a parte dura de criar quatro filhos e depois mais dois sobrinhos do meu pai. Que precisava dormir pensando no que cozinharia no dia seguintes. Conforme fui crescendo, fui entendendo isso e acolhendo mais minha mãe. Porém, não guardo mágoa alguma do meu pai. Como eu disse no livro: minha mãe me libertou dessa carga.

Você relata um episódio de discriminação, quando vizinhas disseram que você não podia brincar com elas de boneca porque você era negra. Na época, você se deu conta da violência deste ato? O que isso significou para você?
À época eu era muito pequena, tinha apenas seis anos. Como relato no livro, não gostei de ser excluída, porém, de alguma maneira aquilo fez sentido, pois meus pais eram negros, minha família negra. Porém, esse episódio significou sentir desde muito cedo algo que sentiria muitas vezes na vida: o sentimento de não pertencimento. Minha infância foi repleta de sentimentos como esse, talvez ali eu o tenha vivenciado pela primeira vez. 

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