Durante pandemia, abertura de empresas é 30% maior que o fechamento na BA

bahia
31.08.2020, 06:00:00
Atualizado: 31.08.2020, 15:29:40
Empresários abriram pizzaria em meio à crise (Acervo Pessoal)

Durante pandemia, abertura de empresas é 30% maior que o fechamento na BA

No ano passado, a quantidade de empresas entre abril e julho também foi maior

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Quando o cenário parecia exigir espera, devido às restrições da pandemia, os sócios João, Nino e dois xarás Rafael, decidiram abrir uma pizzaria, no Rio Vermelho. Pode não parecer, mas o investimento dos empresários num momento de crise não é exceção no estado. Na verdade, dados da Junta Comercial do Estado da Bahia (Juceb) mostram que o número de empresas abertas de abril a julho foi 31 % maior que a quantidade de negócio fechados – foram 6.783 aberturas e 5.169 fechamentos.

Entre abril, mês seguinte ao início das medidas de distanciamento e isolamento social no estado, e julho, foram 6.783 novas empresas. A atividade de destaque é a comercial, como a da pizzaria no Rio Vermelho, com 2.818 registros. O número ainda está 29% abaixo da média no mesmo período do ano passado, quando 9.472 empresas foram abertas. Mas as estatísticas já indicam como, mesmo num período de crise, parte dos empresários assumiu os riscos e investiu num novo negócio.

A Juceb não faz interpretação dos números e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico afirma que, “no momento oportuno apresentará análises técnicas e econômicas sobre o cenário da Bahia durante este momento”. As cidades com mais empresas abertas, de acordo com os números brutos, são Salvador, que sedia 33% das novas empresas, seguido de Feira de Santana com cerca de 11% e Barreiras, com aproximadamente 6%.

No caso da Jumbo Slice, a pizzaria aberta no Rio Vermelho, o projeto existia desde o segundo semestre de 2019. Um dos sócios da nova pizzaria, Rafael Chaves, reconhece que o início da empresa aconteceu num período “em que muitos empresários suspenderam as suas atividades e a população perdeu muito poder de compra”. Mas que investiram num projeto que aliaria experiência – “uma pizza genuinamente novaiorquina” – ao preço como diferenciais.

Para abrirem, no entanto, foram necessárias readaptações. “Havíamos pensado em muitas estratégias de marketing, combos e vantagens para o público que frequentasse o nosso balcão e tudo isso teve que ser repensado para funcionar apenas com delivery”, revela. A Pizzaria funcionava apenas com delivery e take away – buscar e levar o alimento.  Com a segunda fase do Plano de Ação da Prefeitur ade Salvador, a pizzaria recebeu seus primeiros clientes no balcão, que por enquanto, só dispõe de duas mesas, em respeito ao protocolo. 

Pequeno e médio na vanguarda

A abertura de novas empresas, mesmo num momento de crise, parece ser alavancada por dois motivos: o próprio momento econômico, que fez crescer a taxa de desemprego em 18,7%, segundo o Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e o desejo de se formalizar. É a avaliação de Flávia Paixão, especialista de gestão de pequenos e médios negócios. 

“Tem o ponto de vista de pessoas que queriam se formalizar, para haver uma regularização maior, e aqueles que, desempregados, viram no empreendedorismo um atalho. Muita gente sempre teve vontade de aprender e aproveitou o momento para fazer isso”, diz.

A advogada Aede Souza, 42 anos, sempre quis ter um negócio próprio. E, durante a pandemia, ansiosa pela pressão no trabalho como advogada em um escritório de advocacia, e a ausência de perspectiva de crescimento de salário a médio de longo prazo, decidiu investir num sonho antigo: abrir o próprio negócio.

"Estou investindo para que eu possa sair do escritório", diz empreendora (Foto: Arquivo Pessoal)

A ideia surgiu em abril. Há duas semanas, a loja de roupas – que atende online e com marcação de atendimento presencial – foi aberta. Se optarem por receberem as roupas em casa, quem leva é uma motogirl, uma das tentativas de Aede de personalizar o serviço. A antesala da casa da advogada, nos Barris, é o endereço da Aede Sousa Store.

“Por enquanto as vendas estão fracas, somente amigos e conhecidos que estão comprando. Estou investindo em alguns cursos para vendas online para tentar trazer pessoas o suficiente para que eu possa sair do escritório e ficar somente com a loja”.

A Juceb não faz diferenciação, nos cálculos divulgados, entre pequenas, médias e grandes empresas, mas a especialista Flávia Paixão consegue ver um predomínio dos menores ao invés dos grandes. O presidente do Sistema Fecomércio da Bahia (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia), Carlos Andrade, concorda. 

“Mas ainda é preciso olhar melhor para o micro, o pequeno e o médio, que é quem realmente está empregando”, diz.

Ele ressalta que é preciso ter mais políticas de crédito para apoiar o empresário, que muitas vezes esbarra em burocracias em conseguir ter apoio governamental.

Os dois indicam que, para se manter ou mesmo investir num negócio durante a pandemia, é preciso aliar conhecimentos antigos a novos aprendizados, como: pesquisar o mercado; conhecer as necessidades do consumidor; não assumir muitas dívidas; organizar as finanças; pensar criativamente; e investir no digital são as principais dicas. “Quem não investir em tecnologia vai ficar parado”, opina.

Uma das estratégias para movimentar a economia durante este período é a promoção  da “Semana Brasil”, promovida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que acontece entre os dias 3 a 13 de setembro, e venderá produtos com descontos em plataformas online e lojas físicas. “Tem como finalidade motivar aqueles que pouparam [dinheiro] durante esses seis meses de pandemia”, diz Carlos, da Fecomercio. 

Nem tudo são flores

Durante a pandemia, os gastos continuaram, os clientes se afastaram e, em julho, Leonardo Cruz e Rodrigo Dias, sócio da Clínica do Iphone, especializada em reparos de celular, fecharam as portas da filial em um shopping de Salvador. “O delivery era inviável e o custo operacional seria superior do que a receita”, conta Leonardo. A loja tinha quatro funcionários – todos demitidos.

A loja matriz, no bairro de Costa Azul, continua em funcionamento. A história do negócio é semelhante ao de outras empresas que precisaram fechar. Foram 5.169 empresas extintas de abril a julho deste ano, ainda segundo a Juceb, que diz ser “prematuro afirmar que esse panorama é reflexo da pandemia na economia do Estado”.

No ano passado, o número de empresas extintas foi até maior, no mesmo período considerado. Entre abril e julho de 2019, 7.487 negócios deixaram de existir. De acordo com Flávia Paixão, especialista em pequenos negócios, das mais de 500 mil empresas que fecharam no Brasil durante a pandemia, 99,2% são empreendimento pequenos - com menos de 49 funcionários). 

A especialista destaca que há um déficit de educação empreendedora e preparo desses pequenos empreendedores. Segundo ela, como afirmou o presidente da Fecomércio, Carlos Andrade, “muitos alegam falta de apoio do governo”. A loja física de roupas chamada Cabide de Luxo, de Suyana Lemos, também fechou, por falta de renda. As vendas foram reduzidas bruscamente e o virtual, para onde migraram as vendes, não conseguem sustentar. Por outro lado, ela diz não ter recebido nenhum tipo de auxílio financeiro para enfrentar o período, sem precisar fechar as portas. 

O SEBRAE elaborou uma lista em que é possível ter acesso as condições e linhas de crédito existentes por estado - na Bahia, são três, que tem condições variadas de pagamento e juros. A Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia), responsável pela intermediação dos contratos, não informou, até o fechamento da publicação, quantos empresários tiveram acesso a empréstimos. 

Dicas para sobreviver à pandemia e abrir novos negóios: 

- Faça um estudo do segmento onde você quer inserir sua empresa e veja quais lacunas ela pode preencher;
- Pesquisa linhas de crédito, mas evite tomar muito dinheiro emprestado, é melhor ter uma reserva prévia; 
- Estude o mercado e veja como ele se comporta, principalmento no setor em que você quer investir;
- Organize as finanças, o que significa levantar os custos e cortar em coisas que podem ser cortadas, como diminuir as contas;
- Entenda a necessidade do seu cliente, quais são suas necessidades e gostos; 
- Invista no marketing digital e em ferramentas digitais de venda.

*Fonte: Carlos Andrade, presidente da Fecomercio; Flávia Paixão, especialista em pequenas e médias empresas.

Quer saber sobre linhas de crédito?

- No link https://bit.ly/2ENiYIo, o Sebrae disponibiliza a lista de possibilidades de linha de crédito por estado - a da Bahia está na página 34. 

*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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