É preciso tomar cuidado com a evolução do medo

gustavo teles
01.03.2020, 05:00:00

É preciso tomar cuidado com a evolução do medo


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O medo é o sentimento que nos coloca no devido lugar da vulnerabilidade humana. E quando falo de medo, não estou me referindo às patologicamente atestadas fobias. Mas daquele aperto no coração e na mente que atiça todos os nossos sentidos. É aquela caminhada no corredor escuro de casa no meio da madrugada enquanto sua imaginação te faz acreditar ter alguém te olhando, te seguindo. O medo do desconhecido diante das encruzilhadas decisórias a que a vida nos submete. A insegurança em recomeçar um relacionamento sentimental após sofrer uma decepção amorosa. É o medo nos cercando em todos os ângulos possíveis de nossa vida. Assim como a poeira, que entra quase imperceptivelmente e se amontoa formando uma camada grossa de sujeira, é a nuvem do medo em nossa vida.

É preciso tomar cuidado com a evolução do medo. Não se sabe ao certo de onde ele vem e muito menos pra onde ele vai. Por vezes paro pra tentar compreender os meus medos. Sua anatomia e principalmente a origem. Será que alguns dos nossos medos mais particulares estão presos nas vestes de nossa alma desde a infância? Será possível extirparmos o medo em  nossos filhos enquanto ainda são pequenos projetos de adultos? O que eu, enquanto pai, posso fazer ou deixar de fazer para cultivar em meu Bento um ser corajoso e não alguém dominado por medos bobos?

Essa semana, em meio ao fim do Carnaval e o retorno das aulas, todos nós estamos sendo surpreendidos com mais uma fonte de medo (ou pavor?): a epidemia do Corona vírus. Entre milhares de fake news e as mais sérias informações que estão correndo na internet, o grande residual que nos invade é o medo da morte desconhecida e repentina. Mas afinal, por que tememos tanto a morte? Posso responder por mim. A morte não seria um problema se “eu” ainda fosse apenas “eu”. Desde 2012, ano em que conheci minha esposa, minha vida ganhou um brilho diferente. Passei a ter um senso de destino mais claro. Um propósito se revelou diante dos olhos do meu coração.

Com a chegada de Bento, em 2017, a alegria ficou ainda maior. Mas a maior alegria veio acompanhada de um outro sentimento: uma gratidão tão grande que transborda dentro de mim como uma explosão de responsabilidade. E é aqui que a sombra da morte causa tremor dentro de mim. Tenho uma responsabilidade em cuidar do propósito da minha vida: minha família. E imaginar não estar presente é como um sopro gelado em minha face, capaz de arrancar os piores calafrios. Como seria a vida dos meus após a minha morte? E não estou falando de sustento financeiro ou coisas do tipo. Este com certeza não seria um ponto de preocupação. Tenho uma mulher forte, inteligente e profissionalmente espetacular. Mas estou falando da presença do pai na vida do filho e do companheiro na vida da esposa. Sei na prática como é difícil um lar encontrar estabilidade emocional com essa ausência. 

A grande verdade é que a gente queria mesmo era aquele abraço gostoso da nossa infância toda vez que, mesmo sendo adultos, tivéssemos nossos momentos de medo. Numa madrugada dessa semana, Bento dormia conosco quando, lá pelas 3 da manhã, ele me cutuca:
    - Papai, eu tô com muito medo!
    - Mas por que você tá com medo, meu filho?
    - Eu tive um sonho ruim.
    - E como era este sonho?
    - Eu estava andando em um lugar, papai, e no chão tinha um monte de coisinhas verdes pegando no meu pé. Aí eu fiquei com muito medo e acordei.
    - Fica tranquilo, filho, foi só um sonho ruim. Me abraça e vamos dormir.

Abracei meu sonhador, fiz uma oração com ele e o guardei entre meus braços o resto da noite. Foi gostoso estar do outro lado. O lado de quem acalma o coração com medo. E é isso que chamo de propósito. Não sou Deus para acalmar tempestades ou impedir calamidades. Mas, tenho um propósito divino que é aquietar o coração do meu pequeno e afagar os temores invisíveis do meu amor através da segurança de uma postura firme e cheia de coragem para encarar esse mundo repleto de pavores.


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