'Ele não negava serviço', diz esposa de pedreiro que morreu soterrado em Cajazeiras

salvador
05.05.2020, 18:00:00
Atualizado: 05.05.2020, 18:02:56

'Ele não negava serviço', diz esposa de pedreiro que morreu soterrado em Cajazeiras

Vítima realizava uma construção irregular no local, que não era considerado área de risco

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Trabalhador. Essa é a palavra que Patrícia Oliveira usa para descrever o marido, Hildesio Antônio de Oliveira, de 39 anos, que morreu enquanto justamente exercía o ofício de ajudante de pedreiro em uma obra em Cajazeiras V.  

“Ele não negava serviço. Era trabalhador, ajudante de pedreiro, cavava buracos, descarregava caminhões. Tudo que pediam pra fazer, ele e o colega  faziam”, lembra Patrícia, que vivia com o marido em Águas Claras, com os dois filhos do casal, uma menina de 15 anos e um rapaz de 14.  

“A vítima estava escavando no local e houve o escorregamento da terra”, explicou o diretor-geral da Defesa Civil, Sosthenes Macêdo, que destacou que a área não é considerada de risco para deslizamentos. O CORREIO tentou contato com os donos do imóvel, que contrataram Hildesio e seu colega de trabalho, que também chegou a ser soterrado, mas foi resgatado por moradores da região, mas eles não quiseram gravar entrevistas. 

Hildesio ficou abaixo de quatro metros de terra e não resistiu 
(Foto: Reprodução/TV Bahia)

Os vizinhos do local também não quiseram falar sobre o assunto, em respeito ao dono da casa. “Essa foi a primeira vez que ele foi trabalhar naquele local. O dono da obra falou que podia me ajudar com alguma coisa para os serviços funerários, mas que ele não tinha muitas condições, pois é vendedor de churros”, disse Patrícia.  

Na manhã dessa terça-feira, o Departamento de Polícia Técnica fez a perícia no local, mas ainda não produziu o laudo que será enviado para a Polícia Civil fazer a investigação. Quatro casas foram interditadas após o soterramento e os moradores tiveram que deixar as residências.    

Agentes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) também estiveram no local. Por orientação da Defesa Civil, a Sedur já demoliu, nesta terça-feira (5), um muro, as paredes internas e reduziu as paredes externas de uma construção em andamento. A equipe também deu início à demolição de um imóvel com dois pavimentos e a previsão para a conclusão do serviço é para esta quarta-feira (6).

O caso 
O Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBM) esteve no local na segunda-feira (4), por volta das 15h30, para realizar o resgate de Hildesio. Segundo o coronel Ramon Dieggo, do CBM, a vítima estava fazendo uma obra no fundo de uma casa e a terra cedeu. Ele explicou que Hildesio e um colega provavelmente estavam construindo uma fundação para o imóvel, mas acabaram rompendo o talude — um tipo de plano que dá estabilidade a terrenos inclinados. 

Com o deslizamento, o ajudante de pedreiro chegou a ficar soterrado em cerca de quatro metros de terra. Os bombeiros acreditam que a construção tinha o propósito de ampliar a casa. "Há muito risco em fazer um procedimento como aquele. O corte do terreno já é contraindicado, é um contexto de insegurança que soma fatores de risco como chuva, terra molhada, terreno inclinado e ainda uma escavação grande com peso em cima", alerta o coronel Dieggo.  

Local onde Hildesio ficou soterrado
(Foto: Corpo de Bombeiros da Bahia/Divulgação)

Para encontrar a vítima, os bombeiros tiveram primeiro que realizar a contenção do talude e remover parte dos escombros. A operação toda durou mais de quatro horas, encerrando após às 19h30. 

A Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) informou que as famílias que tiveram que deixar suas casas foram cadastradas junto à secretaria e receberão auxílio moradia no valor de R$ 300, cestas básicas, colchões e kits de higiene pessoal. J´s os familiares de Hildesio terão direito ainda ao auxílio funeral. 

Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Empresa de Limpeza Urbana do Salvador (Limpurb), Superintendência de Trânsito do Salvador (Transalvador), polícias Civil e Militar também atenderam à ocorrência. O corpo da vítima foi retirado na manhã dessa terça-feira (5) do Instituto Médico Legal (IML). Não há informações sobre o sepultamento. 

Deslizamentos 
Esse ano, Salvador já registrou dois casos de soterramento e duas mortes. Há quase duas semanas, uma família de seis pessoas vivenciou um drama após um deslizamento de terra no bairro de Águas Claras, que terminou com a morte da bebê Maria Eduarda, de apenas quatro meses, e da avó dela, a diarista Maria da Conceição Fraga Teixeira, 41.  

Ambas morreram depois de ficarem soterradas com o desabamento do imóvel em que estavam, que não resistiu às fortes chuvas. A casa da família, localizada na 2ª Travessa Celika Nogueira, foi demolida e outras 16 construções foram interditadas pela Defesa Civil (Codesal). 

No mesmo dia em que avó e neta morreram, uma criança de 8 anos também foi soterrada após um deslizamento no bairro de Sussuarana. A pequena Sofia conseguiu ser resgatada com vida. Na ocasião, uma vizinha da família contou ao CORREIO que o barranco cedeu pelos fundos da casa da família, depois das 10h do dia 23 de abril.  

"Quando eu passei para ir para casa de minha mãe eu vi o desespero da mãe da menina, gritando, pedindo socorro. Eu chamei o pessoal para ajudar a socorrer", diz ela, que prefere não se identificar. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro. 

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