Elton Magalhães: o Dia 2 de Fevereiro

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04.02.2015, 07:34:00

Elton Magalhães: o Dia 2 de Fevereiro

Cesse agora a voz cristã
Que aos santos sabe agradar
Pois hoje eles repousam
Para agora dar lugar
À rainha soberana:
Rainha de todo o mar.

O seu nome é Iemanjá -
Para muitos Janaína,
Dandalunda, Inaê -
Entidade feminina
Nas águas várias da vida
Vive a Morena Marina.

Muito enfeite determina
A graça dessa sereia
Arquétipo da beleza
Por vastos mares passeia
E todos os pescadores
Essa rainha norteia.

Janaína presenteia
Quem bem sabe lhe agradar
Por isso, os homens da terra
Quando se lançam no mar
Sempre pedem proteção
E só depois vão pescar.

E para a ela alegrar
Foi que o dono de saveiro,
De jangada, de canoa,
E todo bom marinheiro
Criou um rito sagrado
E este se fez costumeiro.

Dia 2 de fevereiro
É o dia de Iemanjá
No bairro do Rio Vermelho
É lindo de admirar
Uma multidão de branco
Saudando-a: Odoyá!

Assim, logo ao clarear
Na casa dos pescadores
O presente principal
Vai se enchendo com os odores
De tão diversos perfumes
E de variadas flores.

Pela tarde os pescadores
Em seus barcos enfeitados
De muito branco e azul
(Todos sempre carregados)
Partem ao encontro dela
Com presentes delicados.

Balaios inusitados
Com pente, batom, espelho,
Bonecas, frutas, bombons,
Vestidos (até dinheiro!),
São mostras das oferendas
Que seguem com seu roteiro.

E durante o dia inteiro
Presentes correm pro mar
Pela manhã, pela tarde
Vê-se gente a dedicar
Todo tipo de gracejo
Torcendo pra não voltar.

Porque se a ela agradar
Serão todos acolhidos,
Mas diz a língua do povo
Que se forem indevidos
Os variados presentes
Logo serão devolvidos.

O povo comprometido
Com o bem da natureza
Manda mimos degradáveis
E, assim, consegue a proeza
De agradar o Orixá
Que os aceita, com certeza!

Mandados à profundeza
(E mantendo a tradição)
O baiano segue firme
Aliando à devoção
No calor do Rio Vermelho
Muita festa e diversão.

Desde o bar Santa Maria
Passando pelo Lalá
Ao Dubliners Irish Pub
É possível encontrar
Uma gama de opções
Pra quem quiser se esbaldar.


Os seus cabelos compridos
Sua incomum beleza
Foram bem representados
Como cristais por clareza
Os filhos da Mãe-do-Mar
Exaltam-na com grandeza:

Caymmi em sua destreza,
Iemanjá tão bem cantou
Carybé, em finos traços,
Sua imagem desenhou
E Verger, para fechar,
Muito bem a retratou.

A mãe África deixou
pra nós um grande legado
O Brasil, seu filho terno,
Entendeu o seu recado
E formou um lindo elo
Já há muito eternizado.

E o trabalho delicado
De nossos laços juntar
Está nas mãos da sereia
Do oceano: Iemanjá
Por isso é que agradecemos
À rainha: Odoyá!

* Elton Magalhães  é mestre em Literatura, professor e poeta-cordelista

***

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