Em dia comemorativo, associação lança selo por baiana 'de verdade'

salvador
25.11.2017, 15:58:00
Com tabuleiro na Liberdade, Maria da Conceição diz que aprendeu profissão com a mãe (Marina Silva/CORREIO)

Em dia comemorativo, associação lança selo por baiana 'de verdade'

Baianas participaram de missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

“Sou uma baiana completa”. Com um sorriso no rosto, a baiana Maria da Conceição, 42 anos, explicava sua felicidade na manhã deste sábado (25), durante as comemorações pelo Dia da Baiana de Acarajé, no Pelourinho. Enquanto posava para fotos com turistas e admiradores, ela completou: se define como ‘completa’ por ser baiana de acarajé, de receptivo e de axé. 

Como Maria, dezenas de baianas participaram da tradicional missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e, depois, seguiram em cortejo até a praça da Cruz Caída. Lá, participaram de uma solenidade e, depois, de uma roda de samba – tudo organizado pela Associação Nacional das Baianas de Acarajé (Abam).  

Entre colegas que seguiram o ofício por todo tipo de origem, Maria da Conceição descobriu a vocação com a mãe, também baiana. “É hereditário”, brincou ela, que tem um tabuleiro na Liberdade e é Ialorixá de um terreiro. A filha, a recepcionista Ingrid Silva, 22, não é baiana, mas já aprendeu muita coisa com a mãe. “Ela é meu orgulho porque se dedica ao que faz. Ela chega em qualquer lugar e chama atenção”, derreteu-se a jovem.  

Para a presidente da Abam, Rita Santos, o dia foi ainda mais especial porque foi como uma festa depois que a profissão de baiana de acarajé foi reconhecida oficialmente pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), em julho. Por isso mesmo, também pareceu o momento ideal para o lançamento da campanha Baiana Legal, que é apoiada pela Fundação Gregório de Matos e pelo Conselho Municipal de Cultura. 

“É uma campanha para que a população ajude o ofício e compre o acarajé da baiana de verdade, que usa bata, saia e torso. Infelizmente, por mais que a gente faça o nosso trabalho, nosso ofício está se perdendo”, explicou Rita. A campanha, na verdade, vai oferecer selos às baianas que estiverem com tudo em dia – tanto com as obrigações com a prefeitura quanto com a indumentária e o tabuleiro. 

“A partir de segunda, vamos visitar os tabuleiros para ver quem cumpre as regras”, anunciou. Logo neste sábado, foram concedidos cinco selos a baianas presentes no local. A primeira a receber o selo foi Sônia Balbino, 69, que pratica ofício há mais de 40 anos. “Ser baiana é um orgulho que veio de minha avó, de minha mãe, passou para minha filha e agora para minha neta, que já tem 30 anos”, disse ela, que tem um tabuleiro no Farol da Barra. 

(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)
(Marina Silva/CORREIO)

De gerações
Na casa da baiana Denise de Oliveira, 58, as coisas também começaram cedo. Desde os 11 anos, vende acarajé. Começou com um tabuleiro na Boca do Rio, onde morava, e, hoje, trabalha em um hostel no Pelourinho, onde sua filha é a proprietária. “Baiana é uma coisa passada de geração para geração. Aprendi com minha mãe e criei meus três filhos com acarajé. Hoje, não tenho mais tabuleiro na rua, mas recebo os clientes no hotel, faço acarajé para eles”, explica ela, que foi escolhida para ser a próxima Ialorixá do terreiro Logum Obaneji Omin, em Paripe, e deve assumir o cargo religioso daqui a um ano. 

Baiana de receptivo há 15 anos, Claudina Silva, 65, descobriu a profissão por acaso. Em sua família, ninguém tinha ligação com o ofício. “Eu era dona de casa, mas comecei a vir para a Abam e conheci (o universo). Meu dever é receber os turistas que chegam sempre com um sorriso no rosto”, contou. 

Presente na comemoração, o prefeito ACM Neto aproveitou o dia para reverenciar as baianas. “O que seria de Salvador se não fossem as baianas? Tenho certeza de que não seria uma cidade com tanta mágica e energia. A experiência em Salvador é diferente e as baianas têm um papel decisivo para isso”, afirmou. 

Na solenidade, foi lançado o site A Bahia Tem Dendê, produzido pela Fundação Pedro Calmon e doado à Abam. “É um site completo, que tem desde iconografia à história das baianas”, afirmou o diretor da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé, Clíssio Santos. Por enquanto, o portal pode ser acessado através do site da biblioteca (http://www.bvconsueloponde.ba.gov.br/). Além disso, também ocorreu o pré-estreia do documentário Coisinha Gostosa de Dendê - Memórias das Baianas de Acarajé. A data do lançamento oficial será divulgada em breve. 
 

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