Em prol da liberdade acadêmica, grupo faz ato a favor de professora intimada por ‘doutrinação’

salvador
24.11.2021, 17:04:22
Atualizado: 24.11.2021, 17:23:58
(Divulgação/APLB)

Em prol da liberdade acadêmica, grupo faz ato a favor de professora intimada por ‘doutrinação’

Representantes sindicais, alunos e professores do Colégio Estadual Thales de Azevedo se reuniram em frente à Dercca durante o depoimento da educadora

A professora de Filosofia do Colégio Estadual Thales de Azevedo (CETA), denunciada por suposto ‘discurso esquerdista’, compareceu à Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Dercca), em Salvador, nesta quarta-feira (24), para prestar depoimento. Na ocasião, um grupo de representantes sindicais, alunos e professores do colégio se reuniu em frente à delegacia em defesa da educadora.

Lideranças do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB) estiveram presentes no local dando apoio ao movimento iniciado por membros da escola e seus estudantes.

“Esse protesto foi em favor da professora Gil que sofreu um ataque brutal com relação ao direito de cátedra (liberdade acadêmica). Estiveram presentes professores, alunos da escola, entidades sindicais, todos em apoio ao nosso movimento, porque nós não aceitarmos essa situação que configura uma tentativa de calar a voz da filosofia”, declara Hércia Azevedo, diretora da APLB. “Imagina a disciplina que define o aparato crítico de um indivíduo na sua base de formação ser questionada com relação ao trabalho dentro da escola, um trabalho pedagógico”, continua.

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O sindicato comentou que a manifestação ocorreu de maneira pacífica, por volta das 14h desta quarta, em defesa de uma educação livre e imparcial. Ainda assim, grupos de oposição compareceram ao protesto para “tentar tumultuar” o ação, “inclusive ofendendo outras pessoas”.

“O ato foi até às 16h, praticamente. Foi muito bom, com a participação de todos e de todas, mostrando que ninguém vai conseguir calar a voz do educador e da educadora na Bahia, e no Brasil”, conclui Rui Oliveira, coordenador-geral da APLB.

Relembre o caso

Uma professora de Filosofia do Colégio Estadual Thales de Azevedo foi intimada pela polícia para prestar esclarecimentos sobre sua postura em sala de aula, sob a alegação de ensinar "conteúdos esquerdistas". A intimação foi motivada por um boletim de ocorrência registrado por uma aluna e sua mãe na Delegacia de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente (Dercca).

De acordo com o Sindicatos dos Professores (APLB), o motivo do boletim de ocorrência seria pela professora discutir temas como questões de gênero, racismo, assédio, machismo e diversidade em sala de aula. Ainda de acordo com o sindicato, dois episódios marcam a perseguição aos professores da unidade escolar.

"No mês de agosto foi realizado um seminário online pela escola e após o evento um grupo de estudantes e seus responsáveis expediram uma nota atacando os professores e palestrantes. Em outra ocasião, durante uma aula remota da disciplina de Inglês, a mãe de uma estudante, a mesma que deu entrada na queixa contra a professora de Filosofia, invadiu o espaço da aula online para inquirir e exigir explicações sobre a temática, que segundo ela seria inadequada por se tratar de feminismo", diz a nota divulgada pelo sindicato.

De acordo com a APLB, após receber a intimação no último dia 16, a professora ficou muito abalada emocionalmente e teve que receber atendimento médico. 

A equipe que gerencia a escola divulgou uma nota sobre o caso e diz que "as alegações são de que os conteúdos de Ciências Humanas são de "cunho esquerdista" e os de Linguagens são de "doutrinação feminista". 

A escola também repudiou a situação e afirmou que a intimação policial fere "a liberdade de cátedra e autonomia pedagógica, princípios constitucionais fundamentais". A escola diz ainda que a intimação também "viola o direito profissional e o respeito ao trabalho docente em disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº9.394) e do Plano Nacional de Educação (Lei nº13.005)". A unidade escolar também pede apoio de entidades e movimentos sociais para garantir a autonomia pedagógica. 

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