Estilistas do Afro Fashion Day mostram pluralidade para falar de Black Power

correio afro
12.11.2021, 05:30:00
Felupz foi um dos modelos a desfilar no Afro (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Estilistas do Afro Fashion Day mostram pluralidade para falar de Black Power

Passarela mais negra do Brasil fez um verdadeiro passeio na história; desfile será apresentado dia 20 de novembro

Durag, calça boca de sino, sunga cavada, upcycling e diversas outras possibilidades de estilos e looks estiveram na passarela do Afro Fashion Day. O tema do evento, em sua sétima edição, é o Black Power, e o que deu para ver na passarela montada em plena Estação Campo da Pólvora do Metrô de Salvador foi que o poder preto dá uma série de possibilidades de construções e narrativas expressadas pela Afro.

Estilista do Afro Fashion Day, Filipe Dias mergulhou na história e influência do Partido dos Panteras Negras para conceber o look que construiu para o subtema Black Panter, um dos 5 blocos do desfile, que será exibido no dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, nas redes sociais do CORREIO.
 

Caçula da passarela em 2021, Alice Vitória, 13 anos, recebe alguns retoques na maquiagem antes da gravação (Foto: Árisson Marinho/CORREIO)

Além de desenhar um look, Filipe participou de todo o processo de produção do Afro ao lado do curador Fagner Bispo, outro estilista que assina o evento em 2021. 

'"Para além do que sabe sobre o termo "black power" como um determinado estilo de cabelo afrodescendente, em sua tradução o termo diz sobre 'poder negro', existindo uma ligação às construções para o Afro deste ano, onde pude explorar/experimentar referências de uma época à qual não vivi"', disse Filipe Dias.


Para ele, o tema possibilitou acessar a herança de informações deixadas por ancestrais, através da história. Isso acontece, por exemplo,  quando usa em um dos looks  uma durag como acessório. Filipe explica que a peça se origina por meio da necessidade dos trabalhadores pobres e escravizados de usarem uma ferramenta de segurança do trabalho. “Hoje, o capacete evoluiu para um adereço estético que ajudava a preservar penteados, sendo assim um elemento afirmativo e de empoderamento”, afirmou.

Katarine Cardoso durante gravações da campanha do Afro (Foto: Paula Fróes/CORREIO)


A moda foi muito importante para a chegada do movimento Black Power à Bahia, que aconteceu entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, como explica Vovô do Ilê, fundador do bloco Afro Ilê Aiyê. Ele conta que em bairros como Liberdade, Engenho Velho da Federação e de Brotas, além de Itapuã - com forte presença negra - a juventude recebeu de braços abertos a influência dos Panteras Negras e de músicos como James Brown - ícone máximo no período, que tinha uma estética considerada extravagante por ter o cabelo black armado, usar calça colada, rebolar e dançar muito.

Todas essas informações trouxeram uma verdadeira explosão para a Bahia, que tomou o movimento para si e injetou dendê para fazer a sua própria corrente: a partir das festas embaladas por vitrolas antigas e LP's, com a juventude construindo suas próprias roupas até com fraldas de pano costuradas junto à fitinhas do Senhor do Bonfim, aquela galera, há quase meio século, abriu portas para a criação de Blocos Afros, estímulo ao estudo de história da África e valorização da negritude como um todo.

Curador do AFD, Fagner Bispo já queria usar o Black Power como tema há muito tempo. Um dos motivos, justifica, é justamente a possibilidade de misturar um resgate à história com situações mais contemporâneas, como o jeito de vestir da juventude em 2021, tendo como referência eventos como a Marcha do Empoderamento Crespo, que nasceu em Salvador.

“Minhas avós, bisavós, tataravós, e assim por diante, foram representadas em pintura no look que abre o desfile. É tudo muito rico. Riqueza essa que foi traduzida também em um look dourado, representando, acima de tudo, toda a nossa riqueza cultural, e todo ouro que nos foi roubado, importante enfatizar”, contou Filipe Dias.
 

Um dos modelos selecionados pelo Tik Tok para desfilar no Afro Fashion Day, Felupz contou que se sentiu liberto pelo tema e lembrou de quando era aluno de uma escola particular em Salvador. Ele passou toda a vida num ambiente embranquecido e se sentia deixado de lado. Além de fazer o máximo para não se aparecer enquanto pessoa preta: mais contido, cabelo cortado. Uma persona completamente diferente do rapaz alto e de black armado que desfilou no evento.

"Depois que comecei a me empoderar, me vi com a beleza que tenho hoje. Esse tema fala muito sobre isso, aceitar tudo que temos. Eu não corto o cabelo desde que me aceitei, foi incrível trabalhar com esse tema, que é símbolo de resistência pra mim", disse. 


 
As criações que estiveram na passarela falam muito sobre isso. Desde os trabalhos de Filipe e Lu Saramato, ambos ambientados nos anos 1970 até a Coleção Hídrica de Silverino Ojú, com um modelo  de calça de corte italiano mais moderno e fazendo referência de uma viagem que fez ao Marrocos, situado no norte do continente africano. No caso de Lu, com uma criação exclusiva chamada Oásis de Bethânia, na qual ele fez uma imersão intensa no clima da Bahia dos anos 70.  

O Afro Fashion Day 2021 é patrocinado pelo Hapvida, Grupo Boticário, TikTok, apoiado institucionalmente pela Prefeitura Municipal de Salvador e Sebrae e apoiado pelo Shopping Barra, Laboratório CLAB, CCR Metrô, Vizzano e Clube Melissa.

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