Ex-PM baiano é chefe financeiro de quadrilha internacional de tráfico, aponta PF

bahia
12.08.2020, 11:46:00
Atualizado: 21.08.2020, 11:07:17

Ex-PM baiano é chefe financeiro de quadrilha internacional de tráfico, aponta PF

Oito já foram presos em ação que aconteceu em vários estados

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Oito suspeitos foram presos nesta quarta-feira (12) em uma operação da Polícia Federal para desarticular uma quadrilha de tráfico de drogas que agia em vários estados e fora do país. Entre eles está um ex-policial militar baiano que foi localizado em um condomínio de luxo de apartamentos na cidade de Itajaí (SC). Com ele, foi encontrado uma Land Rover avaliada em mais de R$ 300 mil.

A ação faz parte da segunda fase da Operação Olossá, que tem o objetivo de cumprir mandados judiciais decorrentes de investigação sobre organização criminosa especializada no tráfico internacional de entorpecentes pelo modal aéreo, especialmente para Europa e Ásia, com a utilização de “mulas”, que transportavam o entorpecente escondido em suas bagagens.

O ex-PM é apontado como o chefe financeiro da organização. A PF chegou até ele através de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). "As investigações e o levantamento do Coaf apontaram que o ex-PM tinham um patamar de vinda muito superior a de um salário de um policial. Ele foi expulso da PM na Bahia por cometer diversos crimes", diz o delegado Fábio Araújo Marques, da PF.

Com o suspeito, a PF apreendeu certa quantidade de drogas sintéticas. A Land Rover também foi apreendida pela polícia. Até o momento a operação teve 8 presos e 5 veículos apreendidos. A quantidade da droga e os valores bloqueados em conta não foram informados.

Em Aracaju, foi preso o líder da organização, um paulistano. Ele morava numa casa com a família no Robalo, bairro em expansão da região da capital. "Ele estava lá para dificultar a ação da Polícia Federal. Não há registro de nenhuma saída de droga da quadrilha por Sergipe. Ele não matinha contado com as mulas, não aparece nas conversas, não tem rede social, não tem vinculo nenhum com as mulas. Chegamos ao nome dele com a prisão do número 03 da organização na última operação na Bahia", explicou o delegado.

A organização, inicialmente, embarcava a drogas pelo Aeroporto de Guarulhos, mas, diante das investidas da PF, passou a operar em quase todos aeroportos do país. Na Bahia, as mulas eram aliciadas em festas, algumas dele realizadas numa barraca de praia em Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. Na Bahia, os integrantes são jovens de classe média. "Muitos deles usuários de drogas sintéticas e anabolizantes. Foram encontrados anabolizantes na operação", disse o delegado.

Dos dois presos em Salvador, um deles é um rapaz de Conceição de Coité que agiu como 'mula', transportando drogas no ano passado para Espanha. O outro foi preso na capital, em bairro não divulgado.

Dos 4 mandados de prisão restantes, um dos alvos fugiu e os outros 3 são ações no exterior - dois na Espanha e um na Tailândia - que a PF ainda não tem informações do desfecho. Ainda foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão na Bahia - Salvador, Lauro de Freitas, Conceição do Coité - e outros cinco estados: Sergipe, Maranhão, Pará, São Paulo e Santa Catarina.

Nessa fase da operação a PF visa  fazer um levantamento financeiro da organização. "Agora vamos apurar a lavagem de dinheiro. Os líderes não tinham nada em seus nomes. Os bens são ocultados em nomes de laranjas, como é o caso da barraca de praia", explica o delegado. A droga que a organização transportava vinha da Bolívia, Colômbia e Peru. "O Brasil é uma rota. Daqui escova para os outros países pelo modal aéreo", acrescentou.

Trabalho de investigação
A investigação teve início em maio de 2019, a partir do aprofundamento de informações recebidas pelo serviço de Disque Denúncia da Secretária de Segurança Pública da Bahia. Na ocasião, identificou-se que o proprietário de uma barraca de praia em Lauro de Freitas usava o estabelecimento para aliciar as “mulas”, sendo ele o principal integrante da organização criminosa nessa função. Era ele, também, quem providenciava as passagens, documentos e dinheiro para o custeio da viagem.

A investigação teve início em maio de 2019, a partir do aprofundamento de informações recebidas pelo serviço de Disque Denúncia da Secretária de Segurança Pública da Bahia. Na ocasião, identificou-se que o proprietário de uma barraca de praia em Lauro de Freitas usava o estabelecimento para aliciar as “mulas”, sendo ele o principal integrante da organização criminosa nessa função. Era ele, também, quem providenciava as passagens, documentos e dinheiro para o custeio da viagem. Ele foi preso em março deste ano. 

Cada mula recebe R$ 20 mil quando conseguia fazer o transporte da droga com êxito. Nas conversas da organização, a mula era chamada de atleta. Quando alcança o objetivo, a mula "marcou o gol".

O rendimento da quadrilha é variado.  Na Europa, 2kg de cocaína custam 40 mil dólares. Se for para a Tailândia o o valor chega a 130 mil dólares. "Eles diziam que não queriam o tráfico interno porque não era rentável para a organização", explica o delegado Fábio.

Durante a investigação, dez pessoas foram presas em flagrante quando tentavam embarcar para o exterior com cocaína escondida em suas bagagens em aeroportos da Bahia, de São Paulo, de Pernambuco, do Ceará e do Paraná. Além delas, outras três pessoas foram presas quando efetuavam a entrega de malas já preparadas, com a droga escondida, para as “mulas”.

A partir da análise do material apreendido na primeira fase, conseguiu-se identificar a liderança e integrantes do primeiro escalão da organização criminosa investigada, inclusive de pessoas que iniciaram como “mulas” e assumiram outros postos no esquema criminoso, mudando-se para o exterior para recepcionar os viajantes que chegavam do Brasil transportando a droga.

Os investigados irão responder pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas