Ex-prefeito acusado de dar veneno a cães é suspeito em outro caso semelhante

bahia
06.10.2011, 06:13:00
Atualizado: 06.10.2011, 12:32:19

Ex-prefeito acusado de dar veneno a cães é suspeito em outro caso semelhante

Semana passada, 47 cachorros morreram. Há 5 meses, foram dez mortes

Florence Perez | Redação CORREIO
florence.perez@redebahia.com.br


O massacre de cães por envenenamento em São Bento de Inhatá, distrito de Amélia Rodrigues, a 84 quilômetros de Salvador, não é novidade para quem vive na região.

Há cinco meses, cerca de 10 animais foram exterminados de maneira semelhante aos 47 mortos na sexta-feira passada, caso denunciado ontem pelo CORREIO.

“Só consegui salvar um cachorro porque quando ele passou mal dei muito leite e óleo. Outros dois morreram vomitando sangue. Com toda certeza foi veneno. Essa situação é lamentável”, lembra  o aposentado Fernando do Prado, 61 anos.

A vereadora Maria Quitéria (PMDB) diz que, nos primeiros casos, todos imaginaram que o assassino de cachorros fosse algum ladrão querendo facilitar seu acesso a casas da região.

Mas, depois que diversas testemunhas viram o ex-prefeito de Conceição de Jacuípe, João Barros de Oliveira (PCdoB), conhecido como João de Roque, jogar carne envenenada nas vias de São Bento enquanto circulava numa moto Biz, Quitéria mudou de opinião. “Eu acho que foi ele na primeira vez também. É muita coincidência acontecer da mesma forma. Só que há meses atrás não vimos quem era. Dessa vez, muita gente o flagrou”, afirma.

O caso mais recente chocou a cidade e veio à tona quando 47 cães, três galinhas, um gato e até um urubu apareceram mortos em um raio de 5 quilômetros a partir da fazenda de João de Roque.

A matança pode ter sido uma vingança. “Quem mora perto da fazenda dele diz que alguns cães feriram um bezerro. Talvez por isso ele tenha resolvido acabar com os cães”, diz a vereadora.

Apesar de ter sido visto por diversas pessoas com luvas e um saco amarelo cheio de iscas envenenadas, o ex-prefeito nega as acusações. “Não tenho nada com a última vez (há 5 meses), dessa vez, nem hora alguma. Agora tentarei descobrir quem são as pessoas que estão falando de mim”, avisa João de Roque.

Do povo  Mas, na realidade, quem é João do Roque? Ele teria coragem, num momento de raiva, de cometer um ato tão cruel? Em Conceição de Jacuípe, onde foi prefeito entre 2005 e 2008, o fazendeiro é conhecido como “homem do povo”, que apesar de ter ficado rico com a pecuária, preservou os hábitos humildes.

“Ele anda, fala e se porta como pessoa modesta. Era um homem da roça que conseguiu enriquecer, mas continua falando errado inclusive. No palanque ele fala até ‘pobrema’ , por exemplo”, conta um morador da cidade.

Medo No entanto, a apenas 13 quilômetros de distância da cidade, em Amélia Rodrigues, onde João Roque tem terras, boa parte da comunidade o teme.
“Todo mundo está com medo. Ele anda com capangas. Hoje (ontem), dois capangas armados retiraram os cachorros que estavam pendurados na cerca da propriedade dele. Tememos retaliação”, conta a vereadora Maria Quitéria.

Entre os moradores da região, o fazendeiro é chamado de monstro. “Muita gente aqui se queixa dele, diz que é um cara ríspido e agressivo”, relata o administrador Raimundo Araújo Neves, que também perdeu um cão no incidente. “Isso é atitude de uma pessoa insana, absurda. Esse homem é um louco”, completa Bel, outra vereadora da cidade.

Instinto O psiquiatra Luiz Fernando Pedroso explica que a princípio, um crime como o ocorrido em Amélia Rodrigues não está ligado a uma doença mental. “A natureza humana tem instintos cruéis que são reprimidos pela educação e civilização. A pessoa que fez isso pode estar se sentindo prejudicada pelos cães e entender que seu interesse deve prevalecer”, explica. “Entretanto, pode ser alguém que já é agressivo e que por um motivo banal deixou a fúria aflorar”, acrescentou. 

Por medo, a comunidade acionou a polícia tardiamente. “A gente teve receio de denunciá-lo porque ele anda armado e sempre com capangas”, relata Jacira dos Santos, 64 anos. Viúva e morando sozinha, a aposentada cria cachorros para proteger-se de assaltantes. Mas, no massacre, perdeu sete animais, o que só reforçou a mágoa que Jacira tem contra João de Roque.

“Há 17 anos meu marido vendeu uma parte do terreno para ele (João), mas ele decidiu invadir minha parte e derrubou meu muro. Até hoje luto na Justiça para que ele pague o prejuízo, mas ele não aceita fazer um acordo”, conta a viúva, que diz temer pela própria vida e a de todos que denunciaram o caso.

O ex-prefeito admite o conflito com dona Jacira. “Ela não quer fazer acordo e os cães vivem na minha propriedade”, conta.

Ficha Se em Amélia Rodrigues a fama não é das melhores, para o Tribunal de Justiça da Bahia, o ex-prefeito deve sérias explicações. Ele responde a 15 processos, entre eles dois criminais.

Já o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) rejeitou as contas de 2008 da prefeitura de Conceição do Jacuípe. Entre multas e ressarcimentos devidos aos cofres do município, João de Roque deve mais de R$ 100 mil.

“Basicamente esses valores são referentes a despesas não comprovadas e documentação irregular”, explica o chefe de gabinete do TCM, Paulo Drumond.

Perito alerta que veneno ainda pode causar danos
O mal causado pelo veneno na carne que foi jogada aos cães pode ser ainda pior do que os moradores de São Bento de Inhatá imaginam. Segundo o perito do Departamento de Polícia Técnica (DPT) José Vieira, a forma como os animais morreram e a reação em quem ficou próximo aos corpos em decomposição alertam para o perigo.

“Provavelmente é uma substância altamente corrosiva, pois os cachorros vomitaram muito e até sangue colocaram para fora. Um urubu morreu e o organismo dele é bastante forte. Algumas pessoas apresentaram irritação nos olhos após entrarem em contato com os animais”, contou. O perito diz que é muito difícil que o veneno usado tenha sido chumbinho - usado para matar ratos. “Provavelmente o veneno tem a venda proibida e é letal para humanos”, ponderou Vieira.

Ele recolheu um pedaço de carne, enviado ontem a Salvador para análise. O perito diz que ainda não dá para afirmar que o perigo acabou. “É preciso que o laudo fique pronto urgentemente. Dependendo do que for a substância, o solo contaminado pode prejudicar a plantação e contaminar as pessoas”, alertou. A análise deve ficar pronta em 15 dias.

Promotora vê crime ambiental
O massacre de cães deve render uma boa briga na Justiça. Pelo menos é o que prometem a Procuradoria Geral do Município e a promotoria local. “A lei orgânica do município prevê medidas administrativas e judiciais toda vez que o meio ambiente for agredido”, afirma o procurador-geral de Amélia Rodrigues, Geraldo Sampaio. Mas, se for constatado que o veneno também é letal para seres humanos, João de Roque responderá por mais um crime.

“Com a vida de pessoas expostas, entraremos com uma representação por crime de perigo (quando uma ação pode afetar outras pessoas)”, completa. Entretanto, a promotora Mariana Porto de Castro diz que uma condenação por crime de perigo é difícil “porque nenhuma pessoa foi atingida de fato”. Pelo crime ambiental, ela diz que ele pode ser condenado a uma pena alternativa, mas que isso também é difícil.

“Muitas empresas se recusam a aceitar o trabalho voluntário de condenados. Além disso, não há na região um programa do estado de penas alternativas”, explica. Ainda assim, Castro tentará atingir o bolso do fazendeiro. “Como é uma pessoa de posses, vou pleitear um valor alto. O certo era ele ser preso, mas não sou legislador nem juiz”, conclui a promotora.


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