Festival de mulheres, resistência e arte, em Cachoeira

quantA
07.02.2020, 05:00:00

Festival de mulheres, resistência e arte, em Cachoeira


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Letícia Ribeiro e Camila Camila

Até o próximo dia 13, estão abertas as inscrições para a Mostra MAR - Mulheres, Ativismo e Realização que acontece, bienalmente, em Cachoeira. O evento é um espaço criado para a exibição principalmente de filmes realizados por mulheres (cis, trans, travestis), mas também de outras linguagens culturais, workshops, vivências feministas, performances e intercâmbio artístico. O edital e a ficha para inscrição (gratuita), estão no site (https://www.marderealizadoras.com.br/). A mostra acontece de 29 de abril a 2 de maio.

No comando do evento, estão Camila Camila e Letícia Ribeiro, parceiras no amor, no trabalho e na militância. Ambas cineastas, escolheram viver à beira do Paraguaçu, na cidade que, além de ícone histórico de resistência, vem se afirmando como um importante espaço do cinema nacional.

ENTREVISTA

QUANTA - Como surgiu a MAR?
Letícia - O embrião da MAR nasceu em 2010, dentro do coletivo Benditas Tetas, com o intento de fazermos uma mostra feminista, já reivindicando o lugar da mulher enquanto realizadora. Estávamos nos formando politicamente e academicamente, e era cada vez mais claro que queríamos romper com cinema majoritariamente burguês, branco, heterossexual. Com o convite para integrar o coletivo Gaiolas, nossas lutas se fortalecem no intuito da realização de filmes que contemplassem nossas urgências e questionamentos.
Camila - Encontrei no cinema um caminho para transpor as minhas inquietudes de gênero, de corpo e seus entornos. Já nas primeiras produções de curta metragem que participei, até a experiência de integrar um coletivo de cineastas feministas, que acabou desaguando na produtora da qual hoje sou sócia com a Letícia, as questões de gênero e sexualidade sempre se fizeram presentes, inicialmente de forma instintiva, no desejo de expressar as vozes sempre reprimidas aqui dentro, que com o tempo foram se tornando mais políticas e ativistas, por encontrar no campo e no mercado do cinema uma hegemonia masculina, normativa. Nos festivais que participávamos era raríssimo encontrar com outras mulheres assinando a direção de filmes, liderando projetos.

Q - Que segmentos artísticos são contemplados pelo projeto?
L -  Esse é um evento focado em narrativas realizadas por mulheres brasileiras. Nosso viés principal é o cinema, nossas atividades principais envolvem exibições de filmes dirigidos por mulheres. Contudo, o evento conta também com espaço para promoção de obras e atividades realizadas por mulheres nos mais diversos campos da cultura, acolhemos expressões artísticas de dança, música, performance e poesia, através dos nossos Intercâmbios Culturais. E nessa edição ainda teremos novidades e pretendemos em parceria com a Entre Minas, uma empresa focada em serviços para mulheres, ampliar nossas atividades para além das áreas da artes  e oferecer laboratórios que empoderem as mulheres na vida cotidiana.

Q - Vocês acham que Cachoeira é um "oásis", diante do momento de intolerância que vivemos?
C - Cachoeira é historicamente um território de resistência. É uma cidade heróica com lugar importantíssimo na independência da Bahia, na luta contra escravidão, de riqueza histórica, arquitetônica e imaterial imensa. É uma comunidade que efetivamente tem as artes e a cultura como ação cotidiana, com suas Filarmônicas e Lira, o samba de roda, a história oral, a preservação dos cultos e ritos das religiosidades de matriz africana, além de ser uma cidade tombada como patrimônio. Eu sinto Cachoeira como um lugar que inspira resistência, e isso ao meu ver ganha mais força em momentos históricos como o que vivemos agora. Há no que se referenciar para resistir, para aprender com a mais velhas,  preservando suas histórias, revisitando lugares que não podem mais ser esquecidos.

Q - Quantas MAR já aconteceram e qual o resultado das edições anteriores?
L - Em nossa primeira edição, a MAR mobilizou mais 1500 pessoas, durante os cinco dias de evento, exibiu 23 curtas metragens brasileiros, realizados exclusivamente por mulheres, 11 deles nordestinos premiados mundialmente, porém ainda desconhecidos do público interiorano. Dos seis longas exibidos, três eram inéditos na Bahia. Compartilhamos com o público do Recôncavo, cinco intervenções culturais realizadas por mulheres brasileiras, dentre elas, performances, espetáculo de dança, exposição fotográfica, ação de lambe-lambe e pocket show. 

Q - Qual é a importância de um projeto como esse, na contemporaneidade?
C - Indo na contramão do apagamento que o tempo e a história oficial - escrita e difundida quase que em sua totalidade por identidades masculinas e brancas - nos apresenta, a MAR busca somar as ações e movimentos que empoderem as mulheres em suas múltiplas vozes e realidades. O Brasil é um dos países líderes em feminicídio e violência contra mulher, sofremos não apenas com o  apagamento dos nossos  discursos, da  cultura e da nossa não presença nos espaços de poder. Somos mortas diariamente, logo torna-se a cada dia mais urgente que tenhamos segurança e possamos construir e preservar os espaços de acolhimento e promoção do nosso trabalho e das nossas vivências, na família, na sociedade e na história.

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