'Foi o pior dia de minha vida', lembra sobrevivente da Cavalo Marinho I

salvador
24.08.2019, 06:30:00
Atualizado: 24.08.2019, 09:41:34

'Foi o pior dia de minha vida', lembra sobrevivente da Cavalo Marinho I

Maior tragédia da Baía de Todos-os-Santos completa dois anos neste sábado (24)

O dia 24 de agosto de 2017 parece nunca ter tido fim para Michele Sila Amorim, de 34 anos. Há exatos dois anos, ela viveu o que classifica como pior dia da sua vida. A mulher é uma das sobreviventes da maior tragédia da história da Baía de Todos-os-Santos, quando a lancha Cavalo Marinho I, que transportava 116 passageiros, afundou e deixou 19 mortos.

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Os detalhes do dia do seu 'renascimento' seguem vivos na memória, como um filme que se repete com mais frequência do que ela gostaria. O vento forte, o desespero, a força do mar. Ela lembra de tudo. Saiu logo cedo de casa, em Itaparica, e pegou a embarcação rumo a Salvador, onde trabalha em uma empresa de home care.

O dia estava chuvoso, com o céu nublado e um vento bastante forte. Ao chegar na Cavalo Marinho I, Michele se acomodou no segundo lugar do primeiro banco da fila e aguardou o início da viagem. Pouco mais de 10 minutos após a embarcação passar pelo farol, começou o pesadelo. 

"Foi quando eu comecei a escutar o pessoal gritando: ‘vai virar!’. Foi o pior dia de minha vida", lembra emocionada.

Michele é uma das sobreviventes da Cavalo Marinho I (Foto: Acervo pessoal)

Michele ficou assustada, já que não sabe nadar e, assim como os demais passageiros, não estava usando os colete salva-vidas, que estavam amarrados e de difícil acesso para os passageiros.

“Logo em seguida aos gritos de que o barco iria virar, eu caí no mar. Comecei a engolir água e, por instinto, bati os braços para tentar subir e não afundar. Consegui me mover e fiquei entre uma lona e uma madeira, foi o que me salvou. Então, consegui chegar até o bote da embarcação", relata ela.

Ao lado de Michele, no bote, estavam outras 20 pessoas, além de criança de 4 anos, que não saiu da memória dela. 

Já se passaram dois anos do dia em que tudo isso aconteceu. E há 730 dias ela pensa, lembra e revive a tragédia, como um pesadelo que insiste em ir e vir, como as ondas do mar.

"É uma coisa que sempre vem à memória, toda vez quando vou dormir. O pior de tudo isso é que é isso tudo também ficou marcado pela injustiça, pois até agora ninguém foi punido, nada. A empresa (CL Transportes Marítimos) continua rodando, fazendo as travessias. Pode acontecer uma tragédia ainda pior”, desabafou.

Barco ficou totalmente destruído; coletes estavam amarrados e de difícil acesso
(Foto: Arquivo CORREIO)

Perda
Michele teve a chance de nascer de novo, recomeçar. Era tudo que o pescador Juraci Reis, 37, queria para a sua mãe, a aposentada Edileusa Reis da Conceição, 53, que morreu na tragédia.

Além da dor da perda, intensa e constante na vida dele, o filho ainda precisa lidar com a angústia de não ter respostas que expliquem o que aconteceu aquele dia. Falha no equipamento? Erro de manobra? Ele ainda não sabe. As respostas só virão à tona no julgamento por parte do Tribunal Marítimo, previsto para acontecer ainda este ano.

Até lá, Juraci, que até aquele dia era um apaixonado pelo mar, tenta lidar com a mistura de sentimentos sempre que tem contato com a água salgada. 

“Há dias vivo nessa angústia. É uma dor muito grande e que aumenta quando chegamos perto da data, do dia 24. Eu não estou conseguindo comer, fazer nada. Sinto as piores sensações do mundo. Não consigo explicar, só sei que é uma dor que não diminui, só cresce", desabafa.

Ver o julgamento ainda este ano não trará dona Edileusa de volta, nem vai levar a dor do filho embora, mas trará um alívio para a família, que espera ver os responsáveis punidos.

"Fico perplexo pela demora na punição dos culpados. Foram 19 pessoas mortas e hoje já faz dois anos. Os responsáveis estão vivendo suas vidas como se nada estivesse acontecido. Há uma falta de interesse na resolução do problema”, reclamou o pescador.

Problema antigo
Depois da tragédia com a Cavalo Marinho I, a situação das lanchas que fazem transporte marítimo pela Baía de Todos-os-Santos segue precária. A declaração é de Lenise Ferreira de Andrade, integrante da comissão de vítimas e usuários do sistema.

“Desde essa tragédia, nada mudou. Se você entrar hoje em um desses barcos, vai encontrar do mesmo jeito, com os coletes fora do alcance dos usuários, por exemplo. Se houvesse uma fiscalização rigorosa, não haveria a tragédia”, bradou.

A queixa é antiga. Lenise denuncia a precariedade do sistema de navegação no trecho desde 2006. “Sou usuária de marca-passo há anos, infartei dentro do ferry uma vez e não recebi socorro. A minha sorte é que eu havia tomado um remédio que me fez aguentar até chegar em terra firme. Chegando, eu recebi atendimento da ambulância da VitalMed, que eu mesma acionei", aponta. A lancha Cavalo Marinho I, inclusive, foi notificada pela Capitania dos Portos um ano antes da tragédia.

O CORREIO entrou em contato com a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (Agerba), que regula, concede e fiscaliza os serviços de travessias do transporte intermunicipal hidroviário de passageiros.

Por meio de nota, o órgão informou que "acompanha toda a documentação, como licenças e comprovantes de vistorias exigidos pela Marinha, para que as embarcações possam compor a frota do sistema hidroviário". Em relação à embarcação Cavalo Marinho I, disse que "após apuração, nenhuma sanção administrativa foi aplicada. Junto à Agerba a documentação da empresa estava em dia, ficando os itens a fiscalização das embarcações e itens de segurança para a navegação sob exclusiva competência da autoridade marítima".

A Agerba também é o responsável por estabelecer tarifas, cumprimento de horários das embarcações, limpeza, conforto nos barcos e serviços de atendimento prestados ao usuário.

(Marina Silva/Arquivo CORREIO)
(Marina Silva/Arquivo CORREIO)
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(Marina Silva/Arquivo CORREIO)
(Marina Silva/Arquivo CORREIO)
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(Mauro Akin Nassor/Arquivo CORREIO)
(Marina Silva/Arquivo CORREIO)
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