Hospital da Bahia diz que tem apenas cinco casos de ‘superfungo’; Sesab fala em 11

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28.01.2021, 06:00:00
(Antonio Saturnino/Arquivo CORREIO)

Hospital da Bahia diz que tem apenas cinco casos de ‘superfungo’; Sesab fala em 11

Metodologia de contagem gerou divergência entre dados apresentados pelo hospital e pelos órgãos públicos

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O Hospital da Bahia sustenta que apenas cinco pacientes foram infectados com o ‘superfungo’ Candida auris. Esse número é diferente do que foi confirmado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e divulgado pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). O órgão afirma que identificou na instituição hospitalar privada 11 casos da presença desse germe causador de infecções graves. Esses são os únicos casos registrados em todo o país.  

Segundo o infectologista Igor Brandão, coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital da Bahia (CCIH), quatro pacientes foram identificados com a infecção pelo fungo em dezembro e um recentemente, na segunda-feira (25). Dos cinco diagnosticados, quatro estavam com quadro grave de covid-19. O quinto teve uma doença de origem não revelada. Eles foram intubados, usaram diálise, cateteres e medicações. “São pacientes altamente complexos, o que na nossa linguagem da medicina dizemos que são fatores de risco para fungemia. Ou seja, esses pacientes tem alto risco de ter algum fungo”, disse.

Dos contaminados, três morreram, mas não por causa do fungo, segundo o médico. “A infecção pode ser corresponsável, mas a doença mais grave e sem tratamento não foi a Candida auris e sim a covid-19”, revelou.  Dos outros dois casos, um corresponde ao primeiro paciente diagnosticado, um idoso com comorbidades que foi internado em estado grave por causa da covid-19. “Hoje, ele está lúcido, orientado, curado e tratado em casa. Ele foi salvo do coronavírus e também da C. auris”, falou o médico do Hospital da Bahia. Já o quinto paciente ainda está internado em estado grave, intubado e fazendo diálise. Ainda segundo o médico, quatro pacientes são homens e um é mulher, todos com média de idade de 60 anos.

Colonização 
O Hospital da Bahia não reconhece os outros seis casos a mais divulgados pela Sesab e Anvisa, mas afirma que, durante a investigação, seis episódios de colonização em pacientes que não tiveram infecção ou de ambiente hospitalar foram encontrados. “A gente teve cinco caso de pessoas com líquidos corporais com Candida e o resto foram culturas do ambiente, não do paciente”, explicou Brandão.  

Isso quer dizer que no leito desses seis pacientes, em algum local, tinha o germe que, felizmente, não foi capaz de infectar o organismo do doente. “O leito tem várias coisas para mantê-lo vivo como a bomba de infusão, ventilador, suporte de soro, grade de cama e mesa para medicação. A gente fez cultura disso tudo, até das paredes e dispensadores de álcool. E esses meios podem ter fungos e bactérias, mas não quer diz que o paciente teve fungo e bactéria”, falou.

“Existe uma diferença técnica entre colonização e infecção. Eu acho que esse dado está alterado no que diz respeito a isso. Na colonização, o paciente pode ter o germe, que pode ser o fungo ou uma bactéria que mora na pele da pessoa, e não levar a doença. Inclusive, a orientação é que não seja tratada colonização, pois pode ser induzida a resistência fúngica e, aí sim, no futuro virar um superfungo”, avaliou o infectologista do hospital.

Cultura de Vigilância 
Através da assessoria, a Sesab informou novamente, nesta quarta-feira (27), que 11 casos foram registrados e não há retificação sobre esse dado até o momento. O órgão também explicou que esse número foi notificado nacionalmente pela Anvisa. No entanto, ainda na quarta-feira, a pasta acrescentou que esse dado inclui casos clínicos e de vigilância.

Em entrevista ao CORREIO, o infectologista da Diretoria de Vigilância Epidemiológica do Estado, Antonio Bandeira, confirmou que cinco dos 11 casos contabilizados pela Sesab foram atestados em culturas clínicas e seis em cultura de vigilância.

“A de vigilância é uma cultura em que a pessoa não está doente e você encontra o fungo na superficie dela. Você faz uma cultura da pele, da região axilar, da região inguinal etc. E encontra que o fungo está presente na superfície. E a cultura clínica é quando está em algum local que cause doença: sangue, urina, dentro da parte respiratória”, revelou Bandeira.

A Anvisa foi prucurada para prestar mais informações sobre a divergência entre os números de casos e sobre as características da cepa. A noite, o órgão respondeu indicando o CIEVS Bahia como fonte de informações mais específicas e locais. Por conta do horário da resposta, não tivemos tempo de entrar em contato com o CIEVS Bahia antes do fechamento desta publicação.


Candida auris foi identificado em 2009 na Ásia (Foto: Reprodução)

‘Superfungo’?  
De acordo com informações da Anvisa, o fungo Candia auris é capaz de causar infecção na corrente sanguínea, pode provocar feridas e é especialmente fatal em pacientes com comorbidades. Ele preocupa também porque fica impregnado no ambiente por longos períodos — de semanas a meses — e resiste até aos mais potentes desinfetantes. Pela dificuldade de eliminação e por ser confundido com outras duas espécies, o que demora na identificação, há a propensão de gerar surtos.  

Segundo o infectologista da S.O.S Vida, Matheus Todt, em entrevista concedida na terça-feira (26) ao CORREIO, a C. auris ataca pessoas já doentes em estado grave. “É um problema de hospital e associado a problemas hospitalares complexos, com pacientes que precisam de procedimentos invasivos. Sua principal forma de transmissão são as mãos contaminadas. Mas eles são fungos oportunistas, que não atacam pessoas saudáveis. Por isso é mais comum em hospitais, com pessoas já doentes”, explicou.  

Pela sua característica de resistência às medicações e alta taxa de letalidade em alguns países, que chega a 60%, o germe é descrito como um ‘superfungo’. No entanto, o médico do Hospital da Bahia não concorda com a utilização desse termo para denominar o germe identificado na instituição. Segundo Brandão, estudos feitos com esse fungo indicam que ele pode ser combatido por vários medicamentos.  

“A gente fez um exame chamado antifungigrama, que vê quais são os remédios que matam o fungo. Vimos que ele é sensível a todos os antifúngicos, incluindo o fluconazol, que é o mais comum e que utilizamos rotineiramente. Então, não se trata de um ‘superfungo’ e sim um fungo que tem um potencial para ser um superfungo se não for tratado da forma correta, se não for identificado e se não for utilizado o remédio da forma correta”, disse.

Igor Brandão sustenta essa hipótese pelo fato de que nenhum paciente do hospital morreu em decorrência do germe, segundo ele. O médico também leva em conta outros estudos  feitos com a Candida auris encontrada no Brasil que indicam se tratar de uma cepa mais “leve” do fungo. “Dentro do nosso estudo, fizemos a filogenética. Vimos que parece ser uma cepa do Sul da Ásia, mas os pesquisadores acreditam que ela não veio de lá e, sim, emergiu do ambiente. Existe a possibilidade dessa cepa ter vindo de algum lugar ou dela estar emergindo da natureza”, ponderou.

Investigação   
O coordenador do CCIH do Hospital Bahia, Igor Brandão, revelou que, entre ambientes do hospital e pessoas, incluindo pacientes e funcionários, mais de 200 possíveis culturas para fungos – um tipo de exame em laboratório - foram feitas para encontrar a presença da Candida auris. A investigação começou nos pacientes que cruzaram com o primeiro caso, partindo para todo o ambiente de UTI, inclusive funcionários. “Nós o descobrimos pela primeira vez em dezembro e, por ser um germe que não tinha sido veiculado sabidamente no Brasil, fizemos a notificação para a Anvisa e instauramos essa investigação profunda no hospital, para deixar os pacientes seguros”, contou.  

Essa investigação ainda não foi encerrada, mas o médico acredita que não serão encontrados novos casos de doentes com esse ‘superfungo’. Igor considera o surto controlado. “Ao identificarmos, intensificamos a higienização com o uso de saneantes específicos para Candida auris. Ela é muito bem higienizada com hipoclorito de sódio, a famosa água sanitária. Então a gente trocou o saneante do hospital temporariamente nessas áreas específicas”, disse.  

Segundo o Hospital da Bahia, a investigação dentro do hospital só foi possível devido ao equipamento Vitek 2. “A gente utiliza a nossa máquina para identificar, mas enviamos ao Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) para confirmação. Eles ainda confirmam novamente com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade de São Paulo (USP)”, afirmou Brandão.    

Para a direção do hospital, essa infraestrutura da unidade permitiu que a Candida auris fosse identificada primeiro lá. Não é possível, porém, descartar a possibilidade do fungo estar em outras unidades hospitalares do país. “Fora daqui, sem a devida terapêutica para diagnóstico, fica difícil para encontrá-lo”, explicou o médico.  

“Eu sei de outros hospitais particulares que tiveram suspeitas, mas os casos não foram confirmados. Nosso equipamento faz a identificação da espécie e subespécie de Candida, o que alguns hospitais particulares e públicos não têm. É por isso que o Lacen alerta para que, em qualquer dúvida ou suspeita de Candida, seja enviado o material para análise e diagnóstico. A gente sabe que dentro disso existem dificuldades técnicas, mas a gente garante aqui o traquejo e o diagnóstico dentro do Hospital da Bahia”, concluiu o infectologista.
 

Tratamento 
A Anvisa classifica o Candida auris como um fungo emergente que representa uma séria ameaça à saúde pública. Isso acontece devido a diversos fatores, como a dificuldade de tratamento desse ‘superfungo’. No entanto, o coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital da Bahia (CCIH) explicou que, na unidade, o tratamento é bem sucedido com uma equinocandina, uma espécie de antifúngico.  

“Nós poderíamos ter utilizado o fluconazol, que é o mais comum, mas usamos uma equinocandina. Dentro do antifungigrama guiado, sabemos que a gente pode tratar com esse medicamento obtendo resposta in vitro e in vivo. Portanto, não é um superfungo, pois tem tratamento”, defendeu o infectologista do Hospital da Bahia.

Além do tratamento em si dos pacientes, outros procedimentos foram adotados pelo Hospital da Bahia para lidar com o surto que afetou o local. “A gente fez limpeza com hipoclorito de sódio; compramos uma máquina de ATP, que em tempo real consegue dizer se qualquer superfície está limpa ou suja; fizemos treinamento das equipes com uso de equipamento de proteção individual e técnica de higienização das mãos; e colocamos os pacientes em alas específicas com equipe exclusivas para evitar a disseminação do germe dentro da instituição”, relatou Igor Brandão.


* Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo.

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