Imbecis em trânsito: a violência dos supostos torcedores

victor uchôa
09.02.2019, 05:00:00

Imbecis em trânsito: a violência dos supostos torcedores


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Vislumbremos juntos: seu time vai jogar a 120 quilômetros de sua cidade e você, supostamente um torcedor fiel, chama quatro amigos para uma curta viagem em nome da paixão. Tudo certo, lá se vai o grupo pela estrada.

No meio do caminho, bem antes do destino final, você passa por um cara que faz exercícios na rua, trajando a camisa de uma torcida organizada do clube que é o rival do seu time do peito. “E eu com isso?”, pensaria você ou qualquer pessoa minimamente capaz, afinal, seu interesse é chegar à partida quilômetros adiante. Concorda?

Tal raciocínio seria o mais razoável se estivéssemos falando de torcedores. Mas aqui, infelizmente, estamos falando apenas de supostos torcedores fiéis. A bem da verdade, estamos falando de imbecis.

Imbecis criminosos, membros de uma torcida organizada do Bahia que, ao cruzarem com um jovem na estrada, acharam por bem atropelá-lo e, sem sucesso, resolveram persegui-lo e espancá-lo porque ele cometeu a grande ofensa de usar a camisa de uma torcida organizada do Vitória.

Vale enfatizar: o tricolor jogou contra o Atlético em Alagoinhas e, a caminho do jogo, um bando de não-torcedores do Bahia quase mata um torcedor do Vitória na base da porrada em São Sebastião do Passé. Assim, como quem para pra abastecer.

Nesta infame sequência de fatos, a única coisa coerente é a cristalização de que marginais como estes não torcem para o time que raivosamente dizem amar. Eles torcem é para a torcida organizada da qual são integrantes. É isso que os move.

No mais, há um detalhe a destacar: um dos agressores, Luciano Venâncio, é presidente da Bamor, a principal organizada do Bahia. Ou seja, eram representantes como ele que participavam daquelas inúteis reuniões entre “torcedores”, Polícia Militar e membros do Ministério Público antes de Ba-Vis com duas torcidas. É este tipo de “líder” que assina os documentos se comprometendo a torcer em paz, a não realizar emboscadas, a não marcar pancadarias pela internet.

A polícia e os promotores sabem (ou deveriam saber) exatamente quem são os bandidos que cometem crimes camuflados sob o manto da rivalidade da bola. Em vez de barrá-los, barram os autênticos torcedores de irem ao estádio, como aconteceu no domingo passado, em mais um clássico de torcida única.

Nisso, os imbecis seguem livres para agir, inclusive em trânsito intermunicipal, como mostrou este caso de São Sebastião. Os cinco foram detidos, mas não demora estarão na rua novamente – ninguém duvide de que amanhã mesmo já estejam na Fonte Nova contando suas vantagens, detalhando cada soco e cada chute que impuseram ao rubro-negro antes de serem presos. E tudo vai ficar por isso mesmo.

Sabe o que é pior? Já tem marginal do lado do Vitória (eles estão por todos os lados) tramando revanche, sedento por pegar um tricolor desavisado no meio da rua.

Os imbecis desconhecem limites.  

Tristeza
Acordamos todos ontem com a triste notícia do incêndio no CT do Flamengo. Apenas para ilustrar o tamanho do fosso em que estamos, segue um comentário que li em um dos portais de notícia: “Desta vez não sentiram o cheirinho de queimado a tempo de evitar a tragédia”.

É isso. Vivemos numa era – e num país – dominada por imbecis.


Victor Uchôa é jornalista e escreve aos sábados.

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