Irmã Dulce: 'Os milagres foram tão evidentes que o processo foi rápido', diz Dom Murilo

salvador
15.05.2019, 05:30:00
Atualizado: 15.05.2019, 09:09:24
(Foto: Reprodução/Arquivo CORREIO)

Irmã Dulce: 'Os milagres foram tão evidentes que o processo foi rápido', diz Dom Murilo

Religiosa baiana teve o terceiro processo de canonização mais ágil da história; entenda

Da noite para o dia, houve luz. Foi assim, em uma noite como outra qualquer, que um homem de 50 anos dormiu cego – como acontecia por 14 anos, desde que perdeu a visão por um problema de saúde - e, na manhã do outro dia, ele já enxergava. A Medicina nunca soube explicar o que aconteceu, mas, para o homem e outras tantas pessoas, não havia dúvida: foi uma graça concedida por Irmã Dulce

Agora, significa algo ainda maior: essa ‘graça’ foi reconhecida, oficialmente, como milagre pelo Vaticano. O reconhecimento do segundo milagre do Anjo Bom da Bahia veio por meio de um decreto assinado pelo Papa Francisco, nesta segunda-feira (13), e publicado nesta terça-feira (14). Graças a este reconhecimento, a Beata Dulce Lopes Pontes agora será proclamada Santa Irmã Dulce – a primeira santa nascida em território brasileiro. 

Nascida Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, Irmã Dulce agora ocupa o posto de terceiro processo de canonização mais rápido da história da Igreja Católica após a morte do santo. O primeiro passo foi dado em 2000, tendo a Santa Sé validado, juridicamente, um "virtual milagre" em junho de 2003. Em 22 de maio de 2011, Irmã Dulce foi beatificada. Agora, 27 anos após sua morte, o Vaticano confirmou o que muitos baianos – e brasileiros – já diziam: Irmã Dulce é uma santa. 

O processo dela só perde, em agilidade, para o Papa João Paulo II (canonizado nove anos após sua morte) e para Madre Teresa de Calcultá (que se tornou santa 19 anos depois de seu falecimento). 

“É uma notícia para lavar a alma”, comemora o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, em entrevista ao CORREIO.

Dom Murilo, assim como a sobrinha de Irmã Dulce e presidente das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), Maria Rita Pontes, foi uma das pessoas que mais se empenhou no processo. 

De fato, a soteropolitana Irmã Dulce conquistou um feito de poucos. É raro, como explica Dom Murilo, que pessoas sejam canonizadas tão perto do período em que viveram. Hoje, não é difícil encontrar quem tenha convivido com o Anjo Bom. 

“Quando se canoniza alguém, você tem livros e textos das pessoas, de séculos anteriores. Mas esse testemunho vivo que temos aqui em Salvador é raríssimo. O processo dela foi rapidíssimo. Normalmente, é lento. Ficam anos e anos estudando o milagre. Mas os milagres relativos a ela foram tão evidentes que foi rápido”, explica. 

O segundo milagre
Por enquanto, nem a Arquidiocese de Salvador, nem a Osid podem divulgar detalhes sobre o milagre. Ou seja: também não dá para dizer nada que identifique pessoa a miraculada (nome dado à pessoa que foi alvo de um milagre), incluindo quando e onde aconteceu. 

O que se sabe do homem que foi alvo do milagre é que sua mãe conhecia a história de Irmã Dulce e que ele passou por Salvador em algum momento da vida. No entanto, isso não quer dizer que o milagre tenha acontecido na capital baiana, nem que o miraculado viva aqui. 

Ao CORREIO, o médico Sandro Barral, um dos profissionais que analisou o caso para dar o parecer de que a ciência não tem explicações para a mudança de quadro do paciente de aproximadamente 50 anos, revelou alguns detalhes da história.

"Trata-se de alguém que tinha adaptado sua vida a uma nova condição. Ele, antes, trabalhava com informática e mudou de profissão por ter uma doença que deteriorou sua visão. Aprendeu braile, usava guia, frequentava instituições de apoio a cegos. Um cão-guia estava sendo treinado para ser entregue a ele, mas ele não precisou receber, porque hoje enxerga", conta. 

O segundo milagre de Irmã Dulce, como garantiu Dom Murilo Krieger, foi estudado ao longo de três anos. De forma geral, os milagres só começam a ser analisados cinco anos após terem acontecido. Para que uma graça seja convertida em milagre, deve preencher quatro requisitos: deve ser instantânea, duradoura, preternatural (a ciência não pode conseguir explicar) e perfeita. 

“Acredito que, em mais alguns dias, isso (quem é a pessoa miraculada) vai ser comunicado. A pessoa tem que ser comunicada antes, porque todo mundo foi pego de surpresa. E a gente sabe que a pessoa vai sofrer um assédio”, pondera Dom Murilo. 

Primeiro, o milagre é estudado por médicos no Brasil. Depois, é encaminhado a Roma, onde peritos médicos também dão um veredito. Eles precisam garantir que, na ciência, não existem fundamentos que expliquem o que aconteceu. Esses médicos não precisam ser católicos, mas devem ser especialistas nas áreas relativas ao milagre. 

Em seguida, quem avalia o milagre é uma comissão de teólogos. Se esses teólogos aprovarem, há a terceira e última etapa: o colégio cardinalício. Esses cardeais estudam o caso e, se julgarem que houve milagre, apresentam ao papa. Foi esta fase que aconteceu na última segunda. 

A data da canonização deve ser definida em julho pelo Papa Francisco. A cerimônia, que será aberta e realizada em Roma, provavelmente acontecerá a partir de outubro. Normalmente, é uma solenidade que envolve a canonização de três ou quatro santos de diferentes partes do mundo. 

(Foto: Arquivo OSID)
(Foto: Arquivo OSID)
(Foto: Arquivo OSID)
(Foto: Arquivo OSID)
(Foto: Arquivo OSID)
(Foto: Arquivo OSID)

Dez mil graças
Até hoje, mais de 10 mil relatos de graças concedidas por Irmã Dulce já chegaram à Osid. Em 2014, quando o jornalista Jorge Gauthier, chefe de reportagem do CORREIO, publicou o livro Irmã Dulce: Os Milagres Pela Fé, eram 5,4 mil. Ou seja, em cinco anos, o número de agradecimentos à religiosa praticamente dobrou. 

Todos relatos de graças que chegam à Osid passam pelas mãos do assessor de memória e cultura da entidade, Osvaldo Gouveia. Com esse novo milagre, não foi diferente. Gouveia, que presidiu a comissão histórica que coordenou o processo de beatificação do Anjo Bom, ainda se lembra de quando ouviu sobre o milagre pela primeira vez. 

Uma amiga telefonou para ele, que está na Osid desde 1993 – chegou um ano após a morte da religiosa, justamente para coordenar a implantação do Memorial que funciona na sede da instituição, no Bonfim. Pouco tempo após a ligação, o própria miraculado entrou em contato. Descrevia o que aconteceu e enviava documentos. 

Os 10 mil relatos de graça passaram pelo sr. Osvaldo (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Quando li, não acreditei. Fiquei incrédulo. Falei: ‘isso é milagre”, diz Gouveia, emocionado. 

Ele fez o que costuma fazer quando se depara com grandes relatos de cura ou de livramento – entre os agradecimentos a Irmã Dulce, há desde quem tem uma ferida no pé até casos de câncer que desapareceram. Gouveia encaminhou a graça que viria a ser oficializada como milagre ao perito médico da Osid, o cirurgião Sérgio Barral. 

Integrante da comissão científica do processo de canonização, o médico é o responsável por dar o primeiro sinal de que não existem razões científicas capazes de explicar o que quer que tenha acontecido. Depois, o milagre é encaminhado ao postulador Paolo Vilotta, responsável por analisar as causas de mais de 50 santos – incluindo Irmã Dulce. 

Dentre as milhares de graças atribuídas a Irmã Dulce, cerca de 50 já chegaram a ser enviadas ao Vaticano. Dessas tantas, três estavam com análises avançadas. Faltava pouco para que uma dessas três fosse oficialmente declarada milagre - e a primeira resposta veio justamente agora. Muito ligado ao universo do Anjo Bom, Gouveia não deixou de reparar em um detalhe: o decreto foi assinado em um dia 13, número que é muito associado à religiosa. 

Todo mês, no dia 13, uma missa em homenagem a Irmã Dulce é realizada no santuário da Osid. Sua data litúrgica é o dia 13 de agosto, como também foi no dia 13 – mas em dezembro de 1914 – que ela se batizou. Devota de Santo Antônio (comemorado no dia 13 de junho), ela faleceu no dia 13 de março de 1992. 

“Era um sonho. Agora, a sensação é de tirar um peso das costas. A Bahia está de parabéns. Independente da religião, da fé, de cor, partido político, todo mundo está de parabéns”, afirma o assessor de memória e cultura. 

Perto do Anjo Bom
Quem conviveu com Irmã Dulce não podia ter ficado mais feliz com a notícia da canonização. A Irmã Olívia Dulcinda da Silva, 68 anos, conheceu o Anjo Bom da Bahia em 1975. Foi um pouco depois de um dos momentos mais famosos da vida de Irmã Dulce – quando ela transformou o galinheiro do convento em uma enfermaria que recebeu, de uma só vez, 70 doentes. 

Irmã Olívia chegou à Osid em 1975 (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Na época, Irmã Olívia era postulante – estudava para ser freira, tendo se formado pela mesma irmandade que o Anjo Bom, as Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

“Na hora que a conheci, percebi que ela era diferente. Fiquei muito emocionada com o olhar dela para as pessoas. A gente conviveu com uma santa. A gente vê que, nos tempos de hoje, Deus continua chamando pessoas para ser santas. E ela sempre dizia que nós somos instrumentos de Deus”, conta Irmã Olívia que, naquela ocasião, foi convidada a trabalhar na Osid. 

A freira foi uma das pessoas que cuidou de Irmã Dulce quando a religiosa adoeceu. Em novembro de 1990, ela começou a apresentar problemas respiratórios. Morreu em março de 1992, de causas naturais. “Me sinto muito realizada. Se fosse para começar hoje, eu viveria tudo de novo”, completa.

As irmãs Ildeth de Carvalho, 64, e Maria Raimunda de Carvalho, 65, chegaram ao santuário nesta terça distribuindo sorrisos. Sentiam como se fosse uma honra conquistada pela própria família. Fizeram questão de listar todos os descendentes que se tornaram devotos de Irmã Dulce. 

As irmãs Ildeth e Maria Raimunda (à direita) de Carvalho são devotadas (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A mais nova é a neta de 12 anos de dona Ildeth. “Ela nasceu no dia em que o falecimento de Irmã Dulce completou 15 anos. Mas, lá em casa, todo mundo é assim. Eu chego aqui, às vezes, com dor nas pernas e digo logo: ‘Ô Irmã Dulce, você me cure, viu? Logo fico bem”, brinca. 

Das duas irmãs, Ildeth foi a que conheceu a Bem-Aventurada em vida. Há mais de 30 anos, chegou a participar de uma campanha de arrecadação de leite em pó, liderada por Irmã Dulce.

Dona Ildeth comemorou o fato de ter convivido com a história da religiosa (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Posso dizer que apertei muito aquelas mãozinhas dela. A gente pode ler sobre a história de Santa Rita, de Santa Bárbara, mas a gente conviveu com a história de Irmã Dulce”, completa Ildeth. 

Nem todos que admiram Irmã Dulce, porém, são católicos. A Santa da Bahia tem simpatizantes de diferentes religiões – é o caso da instrutora de corte e costura Madalena Silva, 64, que frequenta a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (a Igreja Mórmon). 

Madalena não é católica, mas costuma ir ao santuário para agradecer (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Hoje, faz fisioterapia na Osid, onde também se consulta com uma médica geriatra. Sempre que vai à instituição, dedica um tempo específico para ir ao Santuário de Irmã Dulce. Lá, costuma meditar e agradecer. “Eu sou muito grata a ela. Eu sei que ela segue o mesmo Deus que eu sigo e sei que ela está do lado direito de Deus nesse momento”. 

Moradores de rua onde Irmã Dulce cresceu não sabiam que ela tinha morado ali
Até o início da adolescência, Irmã Dulce viveu na Rua São José de Baixo, no Barbalho. Hoje, a casa onde a religiosa cresceu já não existe e boa parte dos vizinhos sequer sabe que o caminho do Anjo Bom da Bahia começou ali. 

De acordo com as Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), a casa onde ela morava era a de número 131, em um dos pontos mais altos da ladeira da via. Agora, o local é uma espécie de viela, com uma oficina mecânica ocupando parte do terreno. 

Nesta terça-feira (14), o CORREIO esteve no local. A resposta dos moradores era quase sempre a mesma. “Conheci a família dela, que morava nessa casa azul. Sabia que era família dela, mas nunca ouvi falar que ela morou aqui. Nunca nem mesmo a vi por aqui, naquela época”, contou o empresário Albano Lima, 40 anos, apontando a casa de número 122, vizinha ao local onde mora desde 1988. 

A casa azul onde a família de Irmã Dulce morou, no Barbalho, foi a única lembrada por moradores da área (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A casa de número 122 foi o local onde tios e primos da religiosa moraram por anos. Com a mesma fachada da época, nenhum morador foi encontrado no imóvel. 

Dona Ivonete só lembra dos familiares de Irmã Dulce (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Hoje, um casal mora aí. Moraram parentes dela, que tinham dois filhos. Não sei disso de ela ter morado por aqui. Acho que não, viu?”, disse a aposentada Ivonete Ferreira, 62.

Católica, ela não sabia ainda que Irmã Dulce seria proclamada santa. “Mas fiquei feliz, porque fé é comigo mesmo”, garantiu. 

A aposentada Maria de Fátima Miranda, 62, é uma das que nunca ouviu falar nem de Irmã Dulce nem de sua família vivendo ali. “Tem uns 20 anos que moro aqui e nunca soube disso”, disse a aposentada. 

Entenda os termos católicos relacionados à canonização de Irmã Dulce 
Beata
– É um título concedido a alguém que passou pelo processo de beatificação. A beata pode ser cultuada em seu local de origem, atuação ou morte.  

Beatificação – É um dos passos para a canonização. Para ser considerada beata ou beata, é preciso comprovar que a pessoa realizou um milagre por meio de sua intercessão. 

Canonização – É o processo pelo qual as pessoas se tornam santas. Para isso, é preciso ter um segundo milagre comprovado após ter concluído a beatificação. 

Graça – É uma ajuda divina. Em alguns contextos, é um agradecimento. 

Milagre – É um acontecimento diferente do esperado na realidade habitual, como curas e livramentos. 

Santa – É a pessoa que teve o processo de canonização concluído. Fizeram algo de extraordinário ou têm uma especial proximidade com Deus. É possível cultuar os santos em qualquer lugar do mundo, através das devoções. 

O que muda agora? 
Quando uma pessoa tem o título de beata, o culto só pode existir na cidade onde ela nasceu, viveu ou morreu. Assim, um bispo na Amazônia não poderia, por exemplo, criar uma paróquia com o nome de Irmã Dulce. A partir do momento em que ela for proclamada santa, vai entrar para o chamado calendário universal. Assim, o culto pode ser prestado em qualquer lugar do mundo. 


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