Joe Biden: um homem calejado pela vida

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07.11.2020, 07:00:00
(Angela Weiss/AFP)

Joe Biden: um homem calejado pela vida

Com quase 78 anos, democrata superou tragédias familiares e não costuma perder eleições

Difícil alguém imaginar que o jovem Joe Biden, em Scranton, no estado da Pensilvânia, um dia chegasse a ser um político tão influente nos Estados Unidos. Em meados da década de 40, o jovem primogênito de quatro irmãos numa família de ascendência irlandesa por parte de mãe e de irlandeses, franceses e ingleses por parte de pai era gago. Tinha problemas para falar em público e, ao sofrer com as brincadeiras dos colegas, não tinha medo de resolver as diferenças no socos. 

Hoje, com 78 anos a serem completados no próximo dia 20, Biden comemora uma votação popular recorde nas eleições dos EUA. Já são mais de 74 milhões de votos dados a ele pelos americanos. Mais uma marca importante numa carreira política cheia de vitórias.

Na década de 50, com seu pai vivendo dificuldades na Pensilvânia, a família de Biden acabou se mudando para Wilmington, em Delaware, aonde tem residência oficial até os dias atuais. Lá, ele foi um ótimo jogador de futebol americano na escola e considerado um líder, além de muito carismático, traços necessários aos bons políticos. 

Ao contrário de muitos americanos, Biden não saiu de seu estado para fazer um curso superior. Não sairia, se não fosse o amor. Quando já estudava Ciência Política e História na Universidade de Delaware, em 1964, ele viajou com colegas para as Bahamas e conheceu a futura esposa Neilia Hunter, que estudava na Universidade de Syracuse, no estado de Nova Iorque. 

Formou-se pouco tempo depois e rumou para a mesma escola, para estudar Direito e sacar-se com Neilia. De volta a Delaware, começou a atuar com advogado, algo não pagava muito bem. Trabalhando no escritório de um político democrata, Biden foi convidado a se filiar ao partido e aceitou.

Em sua primeira eleição, em 1969, mostrou algumas das características que carregaria consigo até hoje. Um perfil calmo, gentil e conciliador. Com uma plataforma em cima da construção de moradias populares, derrotou o candidato republicano, que era favorito, por larga margem e foi eleito como conselheiro do condado de New Castle. Seus objetivos eram maiores e já falava em concorrer ao Senado pelo estado em 1972

Tragédia
Suas palavras não eram à toa. Famoso pelo corpo a corpo eleitoral, Biden trabalhou como conselheiro entre 1970 e 1972, ano em que concorreu ao Senado. Seu nome foi aprovado porque os democratas achavam que a briga contra o senador J. Caleb Boggs, que buscava a reeleição, era perdida já e não queriam queimar cartucho com um político mais forte. Mal conheciam a determinação de Biden. 

Com plataformas contra a Guerra do Vietnã e por mais direitos civis, ele foi conquistando os eleitores aos poucos e venceu Boggs de forma apertada, com uma diferença de menos de 4 mil votos.

Mas a felicidade acabou poucas semanas depois. Sua esposa Neilia e a filha Naomi, de apenas 1 ano, morreram num acidente automobilístico, que ainda deixou os outros dois filhos de Biden, Beau e Hunter, feridos. O novo senador foi empossado na capela do hospital, ainda dando assistência aos filhos.

Biden votaria a se casar em 1977, com Jill Jacobs, com quem teve Ashley. E voltaria a ter uma tragédia familiar em 2015, quando Beau morreria após ser diagnosticado com um câncer cerebral.

Em sua carreira política, Biden foi senador durante 36 anos. E chegou a tentar ser candidato a presidente por duas ocasiões, mas retirou-se das prévias partidárias. Em 2008, foi convidado por Barack Obama para ser seu candidato a vice-presidente. 

A dupla saiu vitoriosa por duas eleições e Biden foi um vice-presidente de intenso diálogo com outras nações e internamente, sendo apontado por Obama, que o via como um grande conselheiro,  como fundamental para melhorar as relações de seu governo.

Azarão
Pelo seu histórico como político e boa relação com os trabalhadores, Biden sempre foi tratado como um potencial candidato nas prévias do Partido Democrata. Até porque, durante o período do governo Trump, manteve a luta por políticas ambientais, de melhoria da saúde pública e dos direitos de imigrantes e público LGBTQIA+.

Ainda assim, começou as prévias como azarão. Enquanto o senador Bernie Sanders, bem mais progressista e com um discurso mais inflamado vencia prévias em alguns estados, Biden amargava o 4º ou 5º lugar entre a preferência dos democratas.

No entanto, a situação foi mudando. Temendo uma possível derrota de Sanders contra Trump, outros candidatos, como Elisabeth Warren e Amy Klobuchar, retiraram suas candidaturas e passaram a apoiar Biden, visto como aquele que conseguiria derrotar o atual presidente com maior facilidade por conta de seu tom mais moderado, o que facilitaria a adesão de eleitores indecisos e um tanto conservadores. Além disso, ele havia tido sucesso em estados com maior participação da população negra, uma tendência que seria vista nas eleições para presidente.

Como prometido, Biden escolheu uma mulher para ser sua candidata a vice-presidente. A senadora Kamala Harris, da Califórnia, filha de uma indiana e um jamaicano e que chegou a anunciar sua candidatura nas prévias, mas a retirou depois, foi a escolhida. A Califórnia é o maior colégio eleitoral dos EUA. 
 

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