Joel Zeferino, o pastor que canta ‘É D’Oxum’

baianidades
26.01.2020, 21:30:00
Atualizado: 27.01.2020, 18:23:53

Joel Zeferino, o pastor que canta ‘É D’Oxum’

‘Posso ver beleza nos símbolos e sinceridade na fé do outro’, diz líder de igreja evangélica no bairro do Nazaré que comanda ala progressista entre protestantes

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Na terça-feira passada completaram 13 anos da promulgação da Lei 11.635, que criou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi escolhida a dedo, para relembrar um caso de extremo preconceito que levou uma mãe de santo à morte na Bahia. O incidente ocorreu em 21 de janeiro de 2000, e também este texto tenta homenagear e relembrar o caso de Mãe Gilda, mantendo a ferida em carne viva, para que não se esqueça ou repita. 

Pra quem não sabe (ou não lembra), Mãe Gilda de Ogum, ialorixá fundadora do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, sofreu um infarto fulminante após ver sua foto veiculada no jornal de uma igreja pentecostal chamando-a de “macumbeira charlatã”.

Busto de Mãe Gilda em Itapuã (Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Homenageada em lei, em busto e diversos livros, ela agora também tem sua memória registrada em filme. O documentário ‘Àkàrà: No Fogo da Intolerância’, da diretora Cláudia Chávez, lançado na mesma terça, em Salvador, mostra o caso de intolerância que vitimou a ialorixá e discute, principalmente, a descaracterização da figura da baiana de acarajé, e da própria iguaria, com a entrada no mercado das quituteiras evangélicas e seus “bolinhos de Jesus”.

Olha ele!
Na terça-feira passada (não é repetição do primeiro parágrafo), estava eu vindo para o jornal, ouvindo o programa Multicultura (Rádio Educadora), quando o nobre colega Renato Cordeiro perguntou, durante o bate-papo sobre o doc, algo ao pastor Joel Zeferino. 

A princípio, achei que tinha entendido errado que se tratava de um pastor protestante, especialmente pelo comentário absurdamente destoante do que normalmente ouvimos de evangélicos ao se referir a religiões de matriz africana. (Pregava o respeito, resumindo). 

Refeita e confirmada a apresentação de Joel Zeferino, pastor da Igreja Batista Nazareth, no bairro de Nazaré, e reiterada uma crítica que fez à apropriação cultural pelos evangélicos “do sagrado do outro”, ao se referir ao bolinho de Jesus, comemorei. 

Sim, claro, celebrei que haja na Bahia uma voz dissonante e progressista nas ‘religiões de matriz alemã’ (alô, Martinho Lutero!). De cara, me veio à cabeça: “esse bicho é o Henrique Vieira da Bahia! Ele precisa ser conhecido!” (Se ainda não conhecem, pesquisem sobre o Pastor Henrique Vieira).

Cantou ‘É D’Oxum’
Mas calorzinho no coração rolou mesmo quando o pastor nada alemão (cria de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro) contou que, certa vez, num evento ecumênico, cantou ‘É D’Oxum’, de Gerônimo, para demonstrar - sem ser algo da boca pra dentro - seu respeito ao sagrado alheio.

Pastor Joel Zeferino com fiéis da Igreja Batista Nazareth, no bairro do Nazaré
Pastor Joel Zeferino com fiéis da Igreja Batista Nazareth, no bairro do Nazaré (Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Mais uma vez, pareceu estranho nunca ter ouvido falar desse moço diante de tamanha ‘ozadia’. Mas, sim, isso ocorreu, conforme registra o Fala Egbé, informativo dirigido a comunidades de terreiros de candomblé, publicado em novembro de 2014.

“O pastor Joel Zeferino da Igreja Batista de Nazareth cantou, em um ato de respeito e diálogo, a música
‘É D’Oxum’, de Gerônimo, surpreendendo o público que respondeu cantando e dançando junto”, conta reportagem sobre o evento do grupo ecumênico Koinonia que tinha como tema “Povos de Terreiro e Direitos: Ação e Mudanças na Bahia”.

Mas, como só acredito ouvindo, perguntei ao próprio Joel Zeferino se procedia.

“É verdade. Cantei essa canção. Primeiro, é muito fácil cantar porque é uma canção belíssima. Gerônimo tava muito inspirado. Foi num evento de Koinonia, que é uma entidade que trabalha justamente na promoção da diversidade, no respeito às diversas religiões, sobretudo na Bahia”, confirmou o líder protestante.

Diante da renitente incredulidade deste pobre diabo, o pastor garantiu que cantaria novamente a música, passados seis aninhos: “Com certeza! Melhor ainda se Gerônimo me convidasse pra fazer um dueto com ele!” Feito o auto-convite, eu e André Uzêda, meu parceiro de Baianidades, já estamos empenhados em tornar o encontro real. Aguardem...

O que pensa o guerreiro Zeferino
Mas, sem aguardar mais nada, vou dar a real de algumas ideias-xeques que o pastor Joel têm sobre temas como intolerância religiosa, respeito ao sagrado alheio, justiça social, além das críticas que têm a grupos protestantes que pregam o ódio, ao invés do amor. Destaquei alguns trechos de falas dele durante uma entrevista exclusiva para esta coluna, os quais vão separados por tópicos, tá ok?

  • Conhecer para respeitar

“Antigamente, a gente falava de tolerância. Mas tolerância é insuficiente. A gente fala muito de respeito, e respeito é, de fato, uma atitude importante porque significa dizer que eu considero o outro, e respeito ele. Agora, o respeito não nasce por acaso, e aí a gente tem que falar também de convivência. É por isso que eu aposto muito na necessidade de a gente se aproximar das pessoas para poder conhecer, e conhecendo, respeitar”.

  • Celebrar a diferença

“Celebrar no sentido de perceber que mesmo eu pensando diferente do outro, eu posso perceber beleza, posso perceber sinceridade, busca verdadeira na fé do outro. E isso leva a celebrar a vida uns com os outros”.

  • Grande número de casos de intolerância entre evangélicos

“Pra poder explicar, é preciso lembrar que a formação religiosa brasileira se dá a partir de uma matriz religiosa muito perversa. O Brasil foi formado a partir das invasões portuguesas por um tipo de catolicismo, na época, muito violento, (...) muito próximo do poder. (...) Hoje, infelizmente, o que aconteceu é que, em parte, a Igreja Católica vem reconhecendo os erros que cometeu e deu grandes avanços (...) e as igrejas evangélicas, sobretudo no século passado, foram num caminho contrário. Setores da Igreja Evangélica, não toda, infelizmente retomaram aquele tipo de leitura do cristianismo, do catolicismo antigo. E começaram a se aproximar do poder, e começaram a achar que a fé pode se impor através não da pregação da Palavra, da exposição da fé, do diálogo através da pregação, mas através da força, através da violência, do uso do Estado para fazer com que as pessoas se sintam constrangidas de alguma forma a aderirem à sua fé”. 

  • Pregação da violência

“O discurso evangélico passa a ser, em si mesmo, violento, intolerante, marcado por esse discurso agressivo, de conquista, de poder, e isso alimenta ainda mais essa situação beligerante. (...) Essas marchas meio evangélico, meio militares, essa ideologia da conquista acaba influenciando as pessoas a, também, tornarem-se violentas”.

  • Poucas vozes pela tolerância 

“Poucas vozes do segmento evangélico no que diz respeito ao tamanho do cenário evangélico brasileiro. Porém, há muitas vozes. Eu, nessa semana de combate à intolerância religiosa, promoção da diversidade, me envolvi num grupo que anotou as celebrações, em todo o Brasil, de combate à intolerância com foco na promoção da diversidade. Cultos em Natal, Maceió, São Paulo, Brasília, em diversos estados igrejas evangélicas, pentecostais como a Bethesda em São Paulo, a Anglicana no Distrito Federal, a Igreja do Pinheiro em Maceió, enfim, dezenas de igrejas. Há muita coisa acontecendo, muita gente falando de diversidade”.

  • Visibilidade das boas práticas

“Você tem uma diversidade de coletivos, de lideranças, promovendo coisas muito interessantes. Infelizmente, essas vozes não são ouvidas tanto, né? Não tem tanta mídia, não tem tanta divulgação quando as vozes do ódio, infelizmente. Então, isso é algo para se notar”.

  • O sagrado do outro

“Eu tenho o meu sagrado, eu creio da minha forma, eu penso da forma que eu penso, eu tenho as minhas crenças, mas eu posso me aproximar do outro, eu posso ver beleza. Eu posso ver beleza nos símbolos do outro, a sinceridade que ele tem na fé dele. E, novamente, quando se trata de uma expressão artística, como é a canção ‘É D'Oxum’, é o fato de eu celebrar a beleza que há nessa canção e na expressão da fé que não é minha, uma fé diferente da minha, mas eu percebo que há beleza nisso, que há sinceridade de coração, que há busca verdadeira, por isso foi muito tranquilo poder cantar essa canção tão bonita, e que homenageia essa cidade também tão bonita, e que me acolheu de forma tão generosa.” 

  • Nessa cidade...

“Para mim cantar ‘É D'Oxum’ diz respeito a tudo isso. A homenagear a fé e a beleza que há na fé das pessoas de religião de matriz africana, a beleza que há na canção de Gerônimo, e celebrar também a cidade do Salvador e toda a amorosidade desse povo”.

  • Compreender e respeitar 

“É preciso compreender e respeitar a integridade religiosa, e a integridade moral, intelectual, dos povos africanos. Uma das questões debatidas (no filme) é a questão da apropriação cultural, por parte de pessoas da religião evangélica, do sagrado do outro, é algo muito sério. As pessoas precisam aprender a respeitar o sagrado dos outros. Se esse sagrado se expressa de forma culinária, é preciso respeitar isso. E aí a máxima bíblica de que a gente não deve fazer ao outro um mal que nós não queremos para nós se expressa novamente. (...) A gente precisa respeitar o sagrado dos outros, respeitar as pessoas, e isso é novamente parte da nossa fé. Amar ao próximo como a si mesmo. Isso é essencial e a base de qualquer pessoa que realmente se considere cristã.”

  • Racismo religioso

“Nós vivemos num país que, infelizmente, desde a sua formação ele é estruturalmente racista. Então, as pessoas são, desde a infância, socialmente educadas a considerarem o sagrado de matriz africana como sendo perverso, mau, ruim e como sendo do demônio. (...) As pessoas que vão entrando nas igrejas acabam recebendo uma formação bíblica marcada pelo racismo estrutural e religioso. (...) Essas pessoas têm uma compreensão da Bíblia que é muito ruim, no sentido de que não se apropriam da beleza e da diversidade que há na própria Bíblia. E sobretudo, não se apropriam daquilo que é mais fundamental na Bíblia, que é o exemplo de Jesus.”

  • O exemplo de Jesus

“E aí, quando a gente vai olhando para o exemplo de Jesus, não tem como ser intolerante. Jesus caminhava, dialogava com mulher samaritana. Dialogava com pessoas de outras religiões que passaram, segundo os evangelhos, pela vida de Jesus. Ele dialoga, senta, conversa, Ele não acusa. Quando os discípulos querem, segundo e passagem, jogar fogo sobre Samaria, Jesus pergunta 'vocês não entenderam de que espírito vocês são'? E parece que até hoje o espírito do cristianismo é o amor. E quem ama não mata, não pratica racismo, intolerância, não pratica nenhuma forma de discriminação e de violência. E eu acho que o que precisa mesmo é voltar a essa essência que é: 'ser Cristão é seguir a Jesus'. É aprender com a vida de Jesus. Se a gente voltar a esse aprendizado de Jesus, se a igreja se converter novamente a Jesus, eu acho muito do que a gente vê de casos de intolerância e de racismo irão desaparecer.”

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Mais sobre o pastor
Achei importante apresentar as pensatas do pastor porque, num futuro não muito distante, os evangélicos serão maioria no Brasil (metade da minha família já é, inclusive), e me anima saber que há vozes no meio que não disseminam certas práticas divisivas e condenáveis.

Mas se você chegou aqui, provavelmente quer saber mais sobre a biografia de Joel Zeferino. Folgo em cedê-la.

Nascido em Nova Iguaçu (tal qual Fani, do BBB), o pastor estreou na vida religiosa como auxiliar na Primeira Igreja Batista de Seropédica, interior do Rio, em 1999. Lá, se envolveu numa discussão pioneira entre os batistas brasileiros sobre a ordenação de mulheres no pastorado.

Essa militância permitiu que ele estivesse envolvido na primeira ordenação de uma pastora batista no Brasil, a líder religiosa Silvia Nogueira. Foi nessa ocasião que conheceu o pastor Djalma Torres, da Igreja Batista Nazareth, no Nazaré, com quem chegou a organizar um congresso sobre o lugar da mulher na igreja.

Joel Zeferino com Mãe Stella de Oxóssi, que nos deixou há pouco mais de um ano (Foto: Divulgação)

Um dos congressos, por acaso, aconteceu aqui em Salvador, de onde depois brotou o convite para assumir o pastorado da sua atual igreja. Está lá desde agosto de 2004.

Além da liderança religiosa no Nazaré, Zeferino presidiu até o ano passado a Aliança de Batistas do Brasil (ABB), organização que ajudou a fundar, e que reúne igrejas com olhares semelhantes em relação aos evangelhos: mais progressista, com engajamento social e a compreensão de que Jesus Cristo chama ao amor e não ao ódio. A maioria das igrejas participantes são da região Nordeste.

Além desse comando, participa de organismos ecumênicos e de eventos nacionais e internacionais de protestantes progressistas. Na esfera local, a comunidade religiosa que comanda costuma participar de redes de apoio humanitário. Zeferino destaca o apoio que costuma oferecer a entidades filantrópicas, sindicatos de trabalhadores, grupos de mulheres e LGBTQI+. 

"Nos envolvemos nas lutas da sociedade como um todo, compreendendo que é nossa responsabilidade como igreja estar presente e atuante na realidade, compreendendo que somos igreja e, sem querer interferir nos processos, mas apoiando aquilo que consideramos à luz dos evangelhos (algo) justo e verdadeiro", comenta ele.

Quer conhecer?
Pra quem se interessou e quer conhecer o trabalho de Joel Zeferino de perto, tem cultos na Igreja Batista Nazareth (na Rua do Cabral, 142, perto do Santa Izabel e da Climério de Oliveira) toda quinta-feira, às 19h. Se chegar um pouco mais cedo ainda toma um cafezinho; e se ficar até um pouco mais tarde, dá pra acompanhar o ensaio do coral.

Aos domingos, a programação é mais extensa: tem café da manhã às 9h, celebração às 10h, classes de estudos bíblicos às 10h45, e ainda, se quiser, almoça por lá mesmo. À noite, às 19h, ainda tem culto, seguido de lanche e bate-papo no after.

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