Meu vizinho é um perigo: sem covid-19, municípios resistem cercados por cidades infectadas

coronavírus
07.06.2020, 06:00:00
Barreira sanitária montada na entrada de Pedrão tenta conter o coronavírus (Prefeitura de Pedrão / Divulgação)

Meu vizinho é um perigo: sem covid-19, municípios resistem cercados por cidades infectadas

Desafio é ainda maior pela forte dependência e pelo fluxo de pessoas com gigantes da vizinhança

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É difícil apontar Pedrão no mapa da Bahia. No mapa do coronavírus no estado, então, ela sequer aparece. Não fosse a pandemia, esse município de 7,5 mil habitantes dificilmente teria tanto destaque na imprensa: hoje, é a primeira cidade num raio de 100 km a partir de Salvador sem caso confirmado de covid-19.

Pedrão é um oásis, cercado por todos os lados de vizinhos com números crescentes de moradores infectados. A façanha será continuar incólume, mesmo sendo tão dependente de quem vive ao lado. A cidade fica na região de Alagoinhas, município que já tem 151 casos confirmados.

A dependência maior, quase diária, no entanto, é com os municípios vizinhos de Irará, que tem seis casos confirmados – todos registrados na última semana – e Coração de Maria, que tem 12. Um cerco que vem se fechando: “É o Sagrado Coração de Jesus, nosso padroeiro, que vem nos protegendo”, diz Elisângela da Silva, moradora de Pedrão.

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Situação parecida vive Dom Macedo Costa, no Recôncavo, a outra única cidade num raio de 100 km a partir de Salvador (em linha reta, não em distância percorrida) sem casos de covid-19. Lá, a dependência do vizinho gigante é ainda maior. No caso, Santo Antônio de Jesus, que pulou de sete para 78 casos nos últimos 15 dias.

Na Região Metropolitana de Salvador, portanto, não é mais possível encontrar uma cidade sem caso de covid-19. Pelo contrário: somadas, as regiões de saúde – divisões feitas pelo governo do estado para distribuir leitos hospitalares – de Salvador e Camaçari concentram 66% dos casos da Bahia.

Além delas, as regiões de saúde de Jequié, do Sul (que engloba Ilhéus e Itabuna, entre outros municípios) e Extremo Sul (Porto Seguro e Teixeira de Freitas, entre outros) são as que mais preocupam em relação à concentração de casos. Nelas, pouquíssimos municípios ainda não foram acometidas pelo vírus.

Questão de sorte ou de tempo?

Voltemos a Pedrão, que coleciona curiosidades. A cidade passou por fortes emoções na última semana: em 30 de maio, um sábado, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) divulgou no boletim diário que Pedrão tinha registrado o seu primeiro caso.

A informação gerou apreensão. A secretária de saúde, Jananci Xavier, publicou um vídeo nas redes sociais explicando que se tratava de erro no sistema da Sesab. Na terça-feira, o estado admitiu o erro. A resistência continuava.

“A gente comentava aqui que agora, em junho, poderia aparecer algum caso. Falamos isso num dia, no outro saiu essa notícia. Todo mundo ficou assustado, mas graças a Deus no final foi alarme falso”, comenta o professor Manoel Silva.

Pedrão tem uma sede muito pequena, à beira da BA-503. O município é basicamente uma grande zona rural, já que 80% da sua população está espalhada em pequenos povoados. Os residentes fixos são em sua maioria idosos, cujos filhos vivem e trabalham nas cidades ao redor.

Pedrão é um bom estudo de caso para os perigos que a covid-19 leva aos menores rincões baianos. Não há estrutura hospitalar: dispõe apenas de pronto-socorro, aberto 12 horas por dia. Casos de média complexidade precisam ser enviados para o Hospital Dantas Bião, em Alagoinhas – a sede da região de saúde. A unidade dispõe hoje de 12 leitos clínicos e 12 de UTI reservados para covid-19, isso para atender 18 municípios.

Prefeitura acompanha quem entra na cidade (Foto: Prefeitura de Pedrão / Divulgação)

A ligação de Pedrão com Alagoinhas, distante 25 km, é da ordem da saúde. Em relação a empregos e comércio, a relação é mais estreita com Irará e Coração de Maria, distantes 16 km, cada.

O município não possui agência bancária. Dispõe apenas de uma casa lotérica e um posto de atendimento do Bradesco. Na prática, os moradores acabam tendo que se deslocar para cidades vizinhas a fim de sacar dinheiro. O que, em tempos de pandemia, torna-se um risco.

“Para você ver, desde dia 30 que o salário da prefeitura está na minha conta e ainda não consegui sacar. No posto de atendimento daqui acabou o dinheiro. E eu não quero arriscar minha vida indo para Irará ou Coração de Maria”, reclama o professor Manoel.

O medo não é só em época de contágio, mas também de saidinha bancária. “O problema é que na data do pagamento todo mundo vai sacar e acaba o dinheiro. E eles não repõem. Aí quem não consegue precisa se expor para tirar dinheiro em outra cidade. Muita gente tem medo. Eu, inclusive”, lamenta Elisângela da Silva.

O prefeito Sosthenes Campos reconhece que essa é uma das suas maiores preocupações: “Há seis anos, bandidos estouraram o posto de atendimento e desde então o banco tem colocado menos dinheiro. Isso é um problema não só pela pessoa se expor ao contágio, mas também porque o dinheiro não circula no município”.

Em relação ao coronavírus, a prefeitura tem se esforçado para evitar o perigo da vizinhança. Instalou uma barreira sanitária na principal entrada do município, pela BA-503, vindo da BR-101. Lá é feita aferição de temperatura, é preenchido um questionário e são dadas orientações a quem chega.

Na ligação entre Pedrão e Irará ou Coração de Maria o prefeito não conseguiu implantar a mesma medida: “Tentei criar um bloqueio, mas a oposição começou a fazer tumulto e recuamos. Os prefeitos vizinhos também não aprovaram nossa medida".

"Esse é o nosso maior medo: não temos comércio que atenda aos munícipes, então o povo aproveita que vai sacar o salário nas cidades vizinhas e fica lá para fazer compras”, aponta o prefeito Sosthenes Campos.

Nas últimas semanas, moradores e prefeito relatam que aumentou o número de pessoas aproveitando os feriados para visitar Pedrão: “Estou com muito medo. Vejo muita gente de Salvador, Feira de Santana, mas que tem casa na zona rural daqui, vindo para cá. O problema é que eles não usam máscara, não estão nem aí”, desabafa Elisângela.

Outro resistente

Dom Macedo Costa é o 7º menor município da Bahia em população, segundo projeção do IBGE de 2019, com 4,2 mil habitantes. Da entrada do município até Santo Antônio de Jesus são apenas 11 km. Por isso, muitos munícipes fazem o percurso todos os dias para trabalhar.

Quando os casos estouraram no vizinho, Dom Macedo tomou a tensão como sua. Há 15 dias, sete funcionários de uma fábrica de cosméticos em Santo Antônio testaram positivo. Nesta semana, tornou-se público o caso de uma funcionária de uma grande loja de roupas que estava assintomática e seguiu trabalhando, já que o comércio segue aberto.

Em ambos os casos havia pessoas de Dom Macedo como colegas de trabalho: “A gente percebe que os munícipes estão muito preocupados com os casos nas cidades vizinhas, sobretudo Santo Antônio. Por isso, a gente fortaleceu a orientação de cuidados para aquelas pessoas que não têm opção e precisam sair”, diz a secretária de saúde, Luana Piton.

“Nossa vigilância foi até a casa das pessoas que moram aqui e trabalham na Natulab e Santa Júlia (fábrica de cosméticos e loja de roupas). Orientamos a quarentena, fizemos o monitoramento e graças a Deus eles não evoluíram em sintomas. Não houve necessidade de teste”, afirma a secretária.

A redoma em torno de Dom Macedo Costa é ainda mais curiosa. Municípios vizinhos e tão pequenos quanto, como Muniz Ferreira (7,6 mil habitantes) e Varzedo (9,3 mil), já tiveram ao menos um caso. A cidadezinha também possui forte relação com Cruz das Almas, que tem 27 moradores infectados.

Dom Macedo dispõe apenas de dois prontos-socorros. Seus casos de média complexidade são enviados para o Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus, que possui cinco leitos clínicos e cinco de UTI para covid-19.

A prefeitura criou uma barreira sanitária, monitora casos suspeitos e faz uma campanha de conscientização. No entanto, todos têm consciência de que o oásis não é eterno:

“Eu espero que não tenha nenhum caso. Mas, sendo realista, a gente sabe que é improvável. A gente faz tudo o que pode, une todos os esforços, mas nem todo mundo adere às recomendações. Pode chegar um caso, mas vamos continuar lutando”, diz a secretária de saúde.

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