Meus pêsames

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09.06.2021, 05:15:00

Meus pêsames


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Seu filho tem as seguintes manias: estuda com o fone de ouvido tão alto que você escuta lá no outro cômodo da casa; estuda com o fone no ouvido e de olho no que passa na televisão; estuda com o fone de ouvido, de olho no que passa na TV e atendendo e respondendo às mensagens de WhatsApp; almoça ou janta manuseando o aparelho celular; dialoga com você sem tirar o olho do celular; vai dormir tarde e leva com ele o celular que fica ao lado do travesseiro; viaja com a família e não vê a bela paisagem que você está mostrando por que está atuando no telefone. E o mais incrível: passa mensagem pelo 'zap zap' mesmo estando você e ele na mesma casa, no mesmo apartamento.

Duvido que você não se irrite com tudo isso em algum momento, mas vejo um artigo escrito por um especialista em psicologia e comportamento, observando que isso, sim, é normal, que o anormal é você minha senhora. O especialista observa que temos, nós que somos da geração Baby Boomers – pós-guerra ou da geração X - de ir acostumando e procurando entender para não entrar em choque permanente. Essa é a galera da Geração Y e engula calada, sem drama e sem choro.

Assim como os pais dizem que problema com filhos desobedientes, relapsos, folgados e cheios de “autoridade” e empoderamento só muda de endereço (uma queixa quase 100 por cento universal é a questão de cama deixada desarrumada – ah! Se não fossem os jovens japoneses), é quase uma unanimidade a questão da absorção dos nossos filhos – eu até diria abdução – por parte desses pequenos objetos animados e “smarts” que invadiram o planeta e criam a cizânia familiar interplanetária.

Soube de uma história interessante que mostra o quanto os pais precisam ficar “ligados” naquilo que se afirma como atitudes comportamentais. A filha de um conhecido disse que estava triste por que o pai de um amigo havia morrido depois de penar por causa da covid-19 num hospital. Ela não só gostava do amigo como gostava muito da mãe dele, agora viúva. O meu conhecido perguntou se ela tinha ligado para o amigo e também para a mão dele e a garota disse “já dei meus pêsames”. O pai pergunta como foi a reação deles e a filha responde que não sabia ainda por que não ligara de voz viva ou viva voz. Tinha mandado pelo zap: “Meus pêsames!”.

Meu amigo só fez respirar fundo e dizer:

- Imagino se você não gostasse deles.

Ela de chofre:

- Ninguém gosta de falar no telefone.

Ele:

- Mas não podia pelo menos ter mandado mensagens de voz?

Ela:

Mensagem de voz é contra a etiqueta.

Meu conhecido diz que desistiu. Entretanto, agradece ao WhatsApp quando no banheiro se descobriu sem papel higiênico e pediu socorro para a filha que estava no quarto ao lado com uma colega. Claro que pediu por escrito. Mensagem de voz era contra a etiqueta.


Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista

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