Miro Palma: Goleiro Aranha é a vítima. É difícil entender?

miro palma
19.07.2017, 04:35:00
Atualizado: 19.07.2017, 10:26:16

Miro Palma: Goleiro Aranha é a vítima. É difícil entender?

Será que sou capaz de julgar o sofrimento de uma vítima de racismo? Eu, um homem miscigenado de pele clara, tenho a compreensão do que uma pessoa que passou por esse tipo de violência sente? Eu que nunca fui seguido em uma loja, barrado em uma festa ou vaiado em pleno exercício do meu trabalho posso me colocar no lugar de uma pessoa negra? Acho que não, mas tem muita gente por aí pensando justamente o contrário.

O goleiro Aranha, 36 anos, que defende a camisa da Ponte Preta, viveu mais um episódio desagradável em sua carreira no esporte. Ao retornar a Arena Grêmio, no último domingo, em partida contra o tricolor gaúcho pela 14ª rodada do Brasileirão, viu a história se repetir e foi vaiado pela torcida gremista todas as vezes que tocou na bola.

Três anos antes, em agosto de 2014, foi chamado de “preto fedido” e “macaco” por alguns tricolores nesse mesmo estádio. Os racistas foram flagrados por câmeras de TV e o time foi eliminado da Copa do Brasil e ainda teve que pagar uma multa de R$ 50 mil como punição. Depois disso, ainda no mesmo ano, ao retornar ao mesmo gramado, foi vaiado constantemente, assim como no último jogo.

E, mesmo depois dessa atitude desprezível por parte de um grupo de torcedores do Grêmio e desse histórico de violências contra o jogador, quem está sendo julgado como “insensível” ou “difícil”? Um prêmio para quem adivinhar... A vítima, claro. Isso mesmo, depois de ter sido vaiado e – talvez por isso – não ter olhado em direção a torcida rival e não ter notado a bela atitude de um gremista que escreveu em um cartaz “Aranha! O tempo passa, mas a dor não! Novamente... perdão por tudo!!! Somos a verdadeira torcida do Grêmio!”, o goleiro está sendo considerado um rancoroso. Por ter saído irritado do jogo e, em entrevista, ter dito que viu “ódio na cara das pessoas” e generalizar que essa seria uma atitude comum à região Sul do país, foi criticado como xenófobo e mau-caráter.

Não vou nem discutir os comentários dos dirigentes do Grêmio que, sem nunca ter assumido a culpa no caso de 2014, insistem em minimizar a violência e condenar a justa punição sofrida no episódio. Nem vou perder tempo criticando o fato de terem colocado uma câmera exclusiva para acompanhar os movimentos do goleiro a espera de um deslize. Muito menos vou me ater ao fato desses mesmos dirigentes terem resgatado um comentário homofóbico do goleiro em uma coletiva em abril deste ano como se um erro anulasse o outro. Os anos passam e a diretoria do Grêmio segue cometendo os mesmos erros.   

Quero falar com você que se acha “desconstruidão”, tolerante e despido de preconceitos, mas não teve pudor em  apontar o dedo para Aranha por causa de seus comentários. Você pode não aceitar, assumir ou ainda perceber, mas essa é uma atitude racista. Aranha tem todo o direito de estar irritado, bravo e com raiva dos torcedores que o vaiaram incansavelmente, que engrossaram o coro de “preto fedido” e “macaco” mesmo sem precisar pronunciar as palavras. Tem todo o direito de não olhar para a torcida, mesmo que naquelas arquibancadas nem todos sejam agressores.  

E ele merece a sua sensibilidade quando erra em generalizar a violência como característica de uma região. Merece, também, quando não nota um cartaz em apoio. E merece, ainda, quando recusa um pedido de desculpas de uma diretoria que não pratica o que fala. Ele tem a minha sensibilidade. E a sua?

Miro Palma é subeditor de Esporte e escreve às quartas-feiras.

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