Mitos e verdades sobre os vinhos produzidos no Vale do São Francisco

paula theotonio
25.08.2019, 05:00:00

Mitos e verdades sobre os vinhos produzidos no Vale do São Francisco

Estudiosos explicam porque experimentar a produção de vinhos do semiárido baiano; safra garante três colheitas por ano
Produção da Vinícola Terranova, em Lagoa Grande, Pernambuco (foto/Helder Ferreira/divulgação)

Desde que seus rótulos começaram a chamar atenção no mercado e nas premiações especializadas pelo mundo, os tintos, brancos e espumantes do Vale do São Francisco vem causando um misto de fascínio e incredulidade entre os apreciadores. 

Não é por menos: a região que compreende a produção anual de 4 milhões de litros de vinhos finos está no semiárido brasileiro, em meio à Caatinga. Fica a apenas 8 graus da linha do Equador, enquanto as áreas tradicionais do Velho e Novo Mundo estão para além dos Trópicos de Capricórnio e Câncer. A média de chuvas é baixa, de 470 mm anuais; e a terra está exposta a mais de 3.100 horas nesse período. E, mesmo assim, as cinco vinícolas em plena produção colhem até duas safras e meia por ano. Como isso se explica?

Os grandes responsáveis por esse paradoxo são o Rio São Francisco, gigante brasileiro que margeia grande parte da região, e a tecnologia da irrigação, importada de Israel e dos Estados Unidos, mais precisamente da Califórnia. A caminho das vinícolas, é comum enxergar dois cenários antagônicos: o da Caatinga intocada, com sua mata branca e cactáceas, e o verde saturado dos vinhedos e demais produtos da fruticultura irrigada. 

Tamanha distinção tem causado, ao longo dos anos, um certo desconhecimento e preconceito com os vinhos da região. “Antes de falar, é preciso que cada pessoa dedique um tempo a viver o Vale, e entender sua singularidade”, recomenda o enólogo português Ricardo Henriques, da Vinícola Rio Sol, localizada em Lagoa Grande, Pernambuco. 

Videiras estressadas - Um dos mitos difundidos sobre o Vale do São Francisco é que seus vinhedos são submetidos a uma produção ininterrupta ao longo de todo o ano, sem pausa entre as safras ou descanso para as videiras. Fato que, segundo especialistas, causaria uma perda na qualidade dos vinhos.

“A verdade é que as videiras do Vale repousam de 60 a 90 dias entre as colheitas, período em que se recuperam para o próximo ciclo. O que nós não temos é um período de hibernação no inverno, comum em países de clima frio. Passar por esse processo não altera a qualidade final do produto”, argumenta Henriques.

O Vale do São Francisco produz três colheitas por ano com características bem diferentes (foto/Euclides Neto/divulgação)

Também é dito que, com o sol a pino durante quase todo o ano, os ciclos produtivos nos vinhedos pernambucanos e baianos são muito rápidos - o que também comprometeria o desenvolvimento de alguns compostos importantes para a bebida, que conferem a ela cor, sabor, equilíbrio e longevidade. “Nosso ciclo é de, em média, 130 dias, o mesmo que o de regiões quentes, como Mendoza na Argentina e Alentejo, em Portugal”, compara o enólogo.

 Ainda segundo Henriques, as duas safras e meia do ano por planta não aceleram o envelhecimento dessas videiras. “Aqui na Rio Sol, temos videiras com idades entre 10 e 15 anos e acreditamos que o auge delas ainda está por vir - ainda que já tenham nos presenteado com 20 a 30 colheitas”, comenta o profissional. 

Vinhos jovens - O campo de uma vinícola do Vale do São Francisco está em plena produção durante todo o ano, com diferentes estágios do ciclo produtivo. Isso dá aos visitantes um vislumbre de quatro estações em uma só propriedade. Porém, devido às alterações no clima ao longo dos meses, as mesmas uvas apresentam características distintas quando colhidas em diferentes épocas. “Em outros locais, safras possuem diferenças de um ano para o outro. Aqui, as variações são intra-anuais”, alega a engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Semiárido, Patrícia de Souza Leão.

 Segundo a especialista, uvas colhidas entre fevereiro e abril tendem a produzir bons vinhos jovens e brancos. De maio a agosto quando as temperaturas ficam mais amenas e há uma amplitude térmica maior, vinhos têm um amadurecimento mais lento e apresentam maior equilíbrio entre acidez e açúcares. É nessa fase do ano em que as empresas apostam na produção de vinhos de guarda, principalmente tintos. E entre outubro e dezembro, há um tempo bastante ensolarado. De acordo com o enólogo Ricardo Henriques, é um “meio-termo” bastante aromático, excelente para complementar a produção de espumantes. 

Nos dias atuais, muitas vinícolas fazem cortes e misturas dessas safras intra-anuais. Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS), Giuliano Elias Pereira acredita que, nos próximos anos, as vinícolas podem vir fazer vinhos específicos de cada período. “É uma região com apenas 30 anos de existência, que só tende a melhorar, conquistando o consumidor com sua tipicidade e singularidade”, aposta.  

Defensivos agrícolas - Outra inverdade é que produzir vinhos no semiárido requer uma quantidade massiva de agrotóxicos. A verdade é que o uso de defensivos é mais baixo que qualquer região produtora brasileira: cerca de 20% da quantidade aplicada em outros territórios. Para Ricardo Henriques, o próprio clima da região a torna menos suscetível ao desenvolvimento de doenças e pragas: “Não há ervas competindo pelo solo, não há chuvas, então há menor necessidade de correções, limpezas, tratamentos fitossanitário”. 

Já de acordo com Patrícia Coelho, a exigência do mercado internacional, o custo dos defensivos e a evolução das técnicas de manejo no campo fizeram com que as aplicações de químicos fossem diminuindo ao longo dos anos. “Hoje se faz um manejo integrado, com aplicações de acordo com a presença da praga e quando há condições climáticas desfavoráveis”, explica.

Em Lagoa Grande (PE), a Vinícola Bianchetti aposta em uma produção de vinhos finos orgânicos desde 2004. “Nosso foco é sempre trabalhar a prevenção de pragas, e quando há necessidade, aplicamos produtos naturais. Hoje, há uma ampla cadeia de insumos para produção orgânica”, explica a enóloga da propriedade, Izanete Tedesco. Em seus três hectares, ela produz rótulos a partir das uvas Barbera e  Tempranillo, e pretende lançar em breve varietais de Petite Syrah, Rubi Cabernet, Sauvignon Blanc e Cabernet Sauvignon. 

Alto nível de antioxidades e oligossacarídeos, que ajudam na saúde do intestino (foto/Euclides Neto/divulgação)

São os mais saudáveis vinhos do Brasil

Já é de conhecimento geral que uma taça de vinho por dia pode melhorar a saúde cardiovascular. O que nem todos sabem é que essas bebidas, quando produzidas no Vale do São Francisco, têm um acréscimo considerável em seus compostos benéficos ao coração, como resveratrol, flavonóides, antocianinas e procianidinas; além de oligossacarídeos que auxiliam no bom funcionamento do intestino. 

Em pesquisas coordenadas pelo pesquisador Giuliano Pereira, nos últimos anos, entendeu-se que isso é resultado de três fatores: altas temperaturas, radiação solar e poucas chuvas. Isso faria com que as uvas produzissem esses antioxidantes como forma de proteção. Já em estudo de Marcos de Lima, publicado na revista científica britânica Food Chemistry em julho deste ano, a luminosidade e as temperaturas amenas, em determinadas épocas, fazem com que os compostos se concentrem ainda mais na bebida nordestina.

Um exemplo dessas alterações pode ser dado com a Syrah, considerada uma das uvas que melhor se adaptou a terroir da região sanfranciscana. “Colhida no início do ano, quando a temperatura está quente, vai produzir vinhos com mais álcool e mais taninos, mais jovens e que devem ser bebidos em até 12 meses para obter a excelência do seu sabor. No meio do ano, amadurece lentamente e ganha cor, taninos macios, acidez equilibrada e será mais longevo. No final do ano, a Syrah é ideal para espumantes jovens”, exemplifica o professor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF-Sertão) na área de tecnologia de bebidas.


Passeios imperdíveis pelas vinícolas do Vale do São Francisco

Vinícola SantaMaria/Rio Sol -  A vinícola pertencente ao grupo Dão Sul possui vários pacotes para visitação. No roteiro Tradicional, por R$ 20, o visitante tem acesso guiado ao campo, fábrica e adega; faz degustações dos vinhos e espumantes de entrada da Rio Sol e ganha uma taça de brinde. Disponível de segunda a sexta, 9h às 11h e 14h às 16h; e sábado, das 9h às 11h. Outra opção é o Pôr do Sol às sextas-feiras (R$ 50), que inclui todos os itens da rota tradicional e inclui um passeio de catamarã pelo Rio São Francisco, com opcional de transfer a partir de Petrolina (PE) por mais R$ 35. Aos sábados, a vinícola promove o WineDay Rota dos Vinhos (R$ 160), com mais prova de uvas no campo, almoço regional e transporte em ônibus de turismo a partir de Petrolina. Fazenda Planaltino, Rodovia PE-574, Km 8 Estrada da Uva e do Vinho. Lagoa Grande/PE. (87) 3862-1616 ou (87) 99807-8475. www.valeturismo.tur.br/.

Passeio do Vapor do Vinho no Vale do São Francisco (foto/divulgação)

Vinícola Terranova - Pertencente ao Grupo Miolo, a Terranova possui dois receptivos. O tradicional inclui um tour guiado por diversos setores da vinícola, como adega e destilaria, além de uma descontraída aula de degustação deos vinhos e espumantes. Em seguida, você é direcionado à lojinha. Incluindo essas atividades, o Vapor do São Francisco (operado pela empresa Vapor do Vinho, R$ 160) inclui banho e passeio de barco pelo Lago de Sobradinho, com direito a almoço e passagem rápida pela Barragem de Sobradinho. Fazenda Ouro Verde – BR 235, Km 40, Santana do Sobrado, Casa Nova/BA. (74) 3536-3972. Vapor do Vinho: https://vapordosaofrancisco.com.

Vinícola Bianchetti - Para conferir os vinhedos menores do lado pernambucano, a dica é ir de carro até a Bianchetti. Lá é possível aprender sobre a produção orgânica da vinícola diretamente com a enóloga e proprietária da empresa, a Izanete Bianchetti Tedesco. Ao final, é claro, você pode experimentar os rótulos da casa – especialmente os produzidos com as uvas Barbera e Tempranillo. O passeio custa R$ 15 e é realizado sob agendamento de segunda a sexta-feira, das  9h às 15h; e aos sábados, chegando até 9h. Estrada dos Vermelhos, Zona Rural, S/N, Lagoa Grande/PE. www.vinhosbianchetti.com.br. (81) 4042-0008 ou (87) 99619-0040.

Vinícola Vinum Sancti Benedictus  - O processo mais artesanal de produção de vinhos ocorre nesta pequena vinícola em Curaçá (BA), fundada pelo sommelier e escritor José Figueiredo. No tour operado para visitação, o turista passa um fim de semana conhecendo detalhes do manejo das videiras, participa de uma colheita noturna e pisa de uvas, e ainda aproveita a natureza no Hotel Recanto Campestre, às margens do São Francisco. Passeio: R$ 420, sempre no primeiro fim de semana do mês, com hospedagem e alimentação inclusas na sexta e no sábado. Transfer opcional. Contato/Agendamento: (74) 99160 1427 ou www.instagram.com/vsbvinhos/.


Vinhos do vale para provar com atenção

1. Rio Sol Gran Reserva Alicante Bouschet  - Imponente, com uma boca marcante, volumosa e elegante, passa por 9 meses em barrica carvalho francês e é ideal para ser provado com carnes vermelhas. 13% de álcool. Preço médio: R$ 65 - os vinhos da Rio Sol podem ser encontrados no Consulado do Vale, que fica na Ladeira dos Aflitos, 56, Dois de Julho.

2. VSB Malbec 2019  - Denso, límpido, elegante e potente, com aromas de cereja negra, cacau e baunilha. Elaborado com uvas passificadas e sobremaduras, e com colheita, desengace, engarrafamento e enrolhamento manuais. Combina com pratos picantes e estruturados. Preço médio: R$ 90. 

3. Miolo Testardi Syrah 2017 -  Aromas de fruta vermelhas maduras, mescladas com gengibre, noz moscada e nuances defumadas. Altamente estruturado e de médio volume em boca, devido à precoce integração da madeira, é um vinho muito equilibrado, untuoso, de acidez refrescante e de longa persistência em boca. Acompanha bem os preparos de carne típicos de sertão, como carneiro assado, buchada e carne de sol. 14% de álcool. Preço médio: R$ 130 - os vinhos da Miolo podem ser encontrados nas unidades da Perini. 

4. Bianchetti Tempranillo 2016  - Orgânico, se mostra excelente para acompanhar carnes vermelhas gordurosas e queijos, a exemplo do provolone. Levemente adocicado no paladar e com taninos marcantes. 12% de álcool. Preço médio: R$ 45. 

5. Miolo Terranova Brut Rosé  - O primeiro espumante brasileiro elaborado com a uva Grenache, vinificado pelo método Charmat. Aroma limpo e intenso que lembra frutas vermelhas, morango, framboesa e cereja. 12% de álcool. Preço médio: R$ 37. 


 


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