Mulheres nas ruas: luta por liberdade, direitos e democracia em 1985

clarissa pacheco
08.03.2020, 05:00:00
Atualizado: 13.03.2020, 21:47:12

Mulheres nas ruas: luta por liberdade, direitos e democracia em 1985

Centenas tomaram as ruas do Centro de Salvador em atos políticos e culturais exigindo igualdade de direitos

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Mulheres fizeram manifestação em 1985 na Praça Municipal, em Salvador
(Foto: Gildo Lima/Arquivo CORREIO)

A meta das mulheres em Salvador em 1985, dez anos após as Nações Unidas oficializarem o já histórico 8 de março como Dia Internacional da Mulher, era ter liberdade e direito à democracia. Essas duas palavras estavam estampadas em faixas levadas por grupos de mulheres à Praça Municipal, onde centenas delas participaram de atividades políticas e culturais naquela sexta-feira de março, há 35 anos.

Cada uma apareceu como pôde: mulheres do bairro de São Gonçalo repudiavam o fato de serem tratadas como objetos e pediam, como muitas outras, o fim da violência. As Mães da Engomadeira também estavam lá com seus cartazes. A Comissão Pró-União de Mulheres de Salvador cobrava a participação feminina na elaboração da Constituinte. Naquele dia, Sandra Freire, integrante do grupo, denunciava o quanto a mulher continuava a ser discriminada e marginalizada pela sociedade.

"Por mais absurdo que pareça, a mulher é ainda considerada como um ser inferior e menos inteligente que o homem", afirmou, em entrevista ao CORREIO, durante ato no Jardim Suspenso da Praça Municipal.

Grupo de Mães da Engomadeira participou de caminhada pelas ruas do Centro com faixas e cartazes
(Foto: Gildo Lima/Arquivo CORREIO)

O ano de 1985 não foi o primeiro em que o jornal cobriu manifestações de mulheres no dia 8 de março. No ano anterior, em 1984, uma matéria feita por uma jornalista mulher - Arlita - mostrava que um grupo de mulheres protestava na Praça da Piedade, ao mesmo tempo em que cobrava o direito do voto feminino para presidente da República.

Já naquele ano, Arlita se referia às mulheres que participavam do ato como feministas:

"As feministas protestaram contra as discriminações sofridas pela mulher no lar e no trabalho e gritaram palavras de ordem exigindo igualdade salarial, estabilidade no emprego durante o período de gravidez, legalização do aborto, creches e a aprovação de um novo código civil que concedia à mulher direitos iguais ao do homem sob todos os aspectos", dizia um trecho da reportagem de 1984.

No ano seguinte, em 1985, mais duas mulheres foram responsáveis pela cobertura do Dia Internacional da Mulher: Fátima e Samuelita. Foi esta última quem acompanhou o ato na Praça Municipal, onde centenas de mulheres se reuniram para pedir por liberdade e democracia, e conversou com a dona de casa Maria de Lourdes Santos, moradora do bairro de São Gonçalo do Retiro.

Mulheres do bairro de São Gonçalo pediram pelo fim da violência, enquanto empregadas domésticas exigiam melhores condições de trabalho
(Foto: Gildo Lima/Arquivo CORREIO)

"Eu aprovo esse movimento com força e garra porque vejo que ainda hoje a mulher é reprimida e considerada como objeto", declarou, afirmando que cabia a cada mulher se libertar da opressão participando e se conscientizando do valor da luta.

Outra repórter do CORREIO, Fátima, foi quem esteve no dia anterior na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e acompanhou uma aula da professora Elizete Silva, do Departamento de História, sobre feminismo e dominação da mulher. Na sala de aula aparecem nove alunos - quatro homens e cinco mulheres, que ouviam a professora ser categórica sobre aquele momento:

"Não tem o que se comemorar. É necessário questionar e denunciar a discriminação da mulher. Aproveitar o dia de hoje para conscientizá-las de uma mudança no quadro da sociedade", disse. Na sala de aula, ao fundo, palavras escritas na parede avisavam: 'Anarquizar. Não se submeta'.

Professora Elizete Silva, durante aula sobre dominação feminina em 1985, na Ufba
(Foto: José Carlos Ximbica/Arquivo CORREIO)

Embora o Dia Internacional da Mulher tenha sido oficialmente instituído em 1975 pelas Nações Unidas, ele faz referência a mulheres que entraram para a história bem antes, em 1857. Naquele ano, 129 operárias de uma fábrica têxtil em Nova York, nos Estados Unidos, morreram num incêndio dentro da fábrica durante uma greve em que exigiam a redução da jornada de trabalho.

*As imagens desta coluna têm a curadoria da editora de fotografia do CORREIO, Sora Maia.

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