No atual ritmo de produção e consumo, petróleo acaba em 2067

bahia
17.04.2019, 05:09:00
Monumento na Praça do Petróleo, Jardim Lobato, exibe as marcas do tempo (Foto: Marina Silva/CORREIO)

No atual ritmo de produção e consumo, petróleo acaba em 2067

Pré-sal afasta a Petrobras da Bahia e coloca o país na contramão de outros produtores

Entre 2005 e 2010, 32% das descobertas de petróleo no mundo foram brasileiras. Todas em áreas profundas e nenhuma na Bahia. Em seu ápice, o volume de reservas  ultrapassou os 15 bilhões de barris, em 2014, com base em dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP). Os dados mostram o caminho trilhado pela atividade petrolífera e o seu afastamento de seu berço. 

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Além de mudar os rumos da exploração no Brasil, as águas profundas e o pré-sal colocaram o Brasil na contramão do mundo. Se nada mudar, a era do petróleo acaba em 2067. Nas condições atuais, os 1,697 trilhão de barris em reservas provadas serão consumidos, a um ritmo de 35,1 bilhões  de barris por ano, com base em dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), com base em dados de 2017. 



No Brasil, a hipótese de um esgotamento dos recursos se confirmara em um prazo ainda mais curto, sem um aumento no volume de reservas aos 12,8 bilhões de barris comprovados. O país consome pouco mais de 3 milhões de barris por dia, ou 1,1 bilhão por ano. Nesse ritmo, a última gota do óleo produzido por aqui no país será utilizada em 2030. 

Aqui na Bahia, o início da atividade aconteceu antes. O apogeu do petróleo se deu nas cada vez mais distantes décadas de 60 e 70 do século passado. Hoje, o estado onde Oscar Cordeiro decretou o fim do mito de que não havia petróleo no Brasil, onde foi encontrado o primeiro poço comercial, em operação até hoje em Candeias, já enfrenta o declínio.

Se o dia 23 de janeiro de 1939, com a descoberta de Oscar Cordeiro de petróleo no bairro do Lobato, tornou a Bahia  pioneira na prospecção do óleo negro, um dia indeterminado em setembro de 1968 começou a desviar para o mar as atenções do setor, com a descoberta no Campo de Guaricema (SE). Quatro décadas depois, é descoberto o pré-sal, uma nova guinada, e os outrora desejados campos terrestres da bacia do Recôncavo são colocados ainda mais à margem. 



Em 2017, as bacias de Campos e Santos, juntas, responderam por 93,8% da produção nacional. No mesmo ano, o estado do Rio de Janeiro respondeu por 57% dos empregos do setor (45,5 mil postos de trabalho) e 64,4% da massa salarial, com a geração de R$ 9,5 bilhões em salários, de acordo com dados catalogados pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Na Bahia, a atividade gerou 6 mil empregos e movimentou pouco menos de 
R$ 1 bilhão em salários. 

A despeito da discrepância na comparação, a Bahia ainda possui significativo volume de reservas. De acordo com análise da Fieb, caso o volume de reservas fosse recuperado e monetizado em sua totalidade aos níveis atuais do barril, de cerca de US$ 57,71, seria gerada uma riqueza bruta da ordem de US$ 18 bilhões, equivalentes a pouco mais de R$ 70 bilhões. 

Um caminho
Um estudo produzido pela federação no final do ano passado indica como caminho para a atividade no estado uma maior participação de produtores independentes.  “Há grandes expectativas sobre um novo ciclo, no qual pequenos e médios produtores independentes possam atuar de forma competitiva, inaugurando uma nova fase do setor na Bahia”, destaca a FIEB.

Um dos caminhos apontados é a aceleração do projeto Topázio, da Petrobras, que foi divulgado em março de 2016, com a proposta de ceder os direitos de exploração de um total de 98 concessões de produção, além de seis blocos exploratórios, no  Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia e Espírito Santo. 

O secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás – (ABPIP), Anabal Alves, conta que o prolongamento do processo tem prejudicado a atividade na Bahia. “Estamos em um momento de transição. A Petrobras reconhece que não tem como dar conta do pré-sal e da produção em terra, são universos diferentes. O problema é que ela não consegue fazer as vendas”, destaca. 

Segundo ele, recentemente, a Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) passou a ter uma atuação mais clara, no sentido de defender a passagem das áreas que não interessam a Petrobras para outros operadores. Os prazos para definições variam entre os meses de junho e outubro.

“Se essas questões forem resolvidas mesmo, 2019 terá sido um ano perdido em termos de produção, mas vai ser um marco porque isso vai abrir perspectivas para a atividade no futuro aqui no estado”, pondera Anabal Alves. 

O executivo da Abpip ressalta a necessidade de uma política para o desenvolvimento da produção em áreas terrestres. Ele destaca que o país, com enorme volumes de áreas terrestres, possui a menor taxa de exploração dessas áreas no planeta, de 5%. “A média de recuperação mundial é de 23%”, compara. 



E a Petrobras?
Com a Petrobras cada vez mais focada na exploração do pré-sal, a discussão no setor do petróleo brasileiro não se dá mais em torno da possibilidade da saída da estatal das chamadas áreas de campos maduros, onde a produção está em declínio. A questão é quando e como. 

O superintendente de Atração e Desenvolvimento de Negócios da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), Paulo Guimarães, acredita que a Petrobras adotou uma filosofia equivocada ao deixar de lado várias frentes de atuação para focar apenas no pré-sal. “É uma empresa pública, se ela não se preocupar com o desenvolvimento regional, quem é que vai se preocupar? As empresas privadas é que não serão”, avalia. 

Ex-funcionário da Petrobras e descrito por muitos como memória viva da história do petróleo no Brasil, o engenheiro Ary Barbosa Silveira tem uma leitura diferente do cenário. Com memória afiada, conta em detalhes e muitas vezes em primeira pessoa episódios marcantes da história da indústria no país, com destaque para a implantação do complexo petroquímico no Polo de Camaçari. Entretanto, sua grande preocupação está no futuro. 

“O petróleo não vai ser desejado a vida inteira. A era da pedra lascada não acabou porque acabaram-se as pedras, mas porque se descobriu o cobre. A era do petróleo vai acabar”, acredita. Ele lembra que há pouco mais de um século, o carvão mineral era a grande riqueza da humanidade. 

“A Petrobras descobriu um tesouro no fundo do mar. Tem a obrigação de fazer o que for preciso para tirar de lá. Que passe os poços terrestre para outros”, recomenda o engenheiro Ary Silveira. 

Rui Lima, coordenador do Lapeg (Foto: Betto Jr.)


Laboratório ajuda a recuperar poços 
Montado com o objetivo de estudar estratégias para recuperar os poços da Petrobras na Bacia de Campos, quando as áreas de produção entrassem em declínio, o Laboratório de Petróleo e Gás (Lapeg) atualmente dá suporte para produtores independentes na recuperação de poços maduros. 

Desde 2008, o laboratório, que já foi ligado à Unifacs, é parte do Instituto Brasileiro de Tecnologia e Regulação (BTR). Entre as análises mais buscadas por produtores em campos maduros está o estudo de missibilidade, que corresponde à mensuração da pressão mínima necessária que precisa ser injetada nos poços para que eles voltem a produzir. “É muito importante conseguir encontrar a pressão mínima, porque esse processo é custoso”, destaca o coordenador do Lapeg, Rui Lima. Segundo ele, sem o laboratório, diversos testes que são realizados em Salvador teriam que ser feitos no Rio Grande do Norte, ou mesmo no Rio de Janeiro. 

“Quando a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis) quebrou o monopólio do petróleo, muita gente queria investir, mas não  tinha apoio”, destaca Rui Lima.

Mata se prepara para a vida sem petróleo
Cada vez mais lembrada como um polo turístico e de veraneio, Mata de São João já foi altamente dependente da indústria do petróleo. Hoje conhecida pela Praia do Forte e alguns dos mais badalados resorts do país, o município ostentava na década de 60 poços com elevada capacidades de produção. 

“Hoje os poços estão maduros (com produção em declínio) e foram terceirizados pela Petrobras para uma outra empresa”, conta o prefeito da cidade, Marcelo Oliveira. Segundo ele, mesmo com a diversificação econômica, que tornou o turismo fonte de 60% das receitas do município, a atividade petrolífera continua sendo relevante. 

“A produção de petróleo em si gera os royalties diretamente, mas a prestação de serviços das empresas que atuam no município nos propicia um importante aumento no ISS (Imposto sobre Serviços). Além disso, ainda tem a geração de empregos, diretos e indiretos”, complementa o prefeito. 

Segundo Oliveira, apesar da sua relevância econômica hoje o “petróleo não é imprescindível para a sobrevivência do município”. Acontece que o caso é uma exceção na realidade das localidades produtoras. 

Segundo o consultor de gestão pública Antonio Pimentel,  o mais comum é que os gestores, diante da realidade de escassez de recursos, passem a contar com receitas extras provenientes da produção de petróleo como se elas fossem durar para sempre. “A previsão legal é que os royalties, que são receitas extraordinárias, sejam utilizados para investimentos em infraestrutura, que são duradouros, mas nem sempre é assim que acontece”, destaca. 

Pimentel explica que, além de um aumento nas receitas com royalties e do ISS, a produção do petróleo gera também um aumento no repasse do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). “O importante é entender que é algo extra, que vai acabar, e procurar investir em algo que deixe benefício duradouro”. 

Marcelo Olveira, prefeito de Mata do São João (Foto: Evandro Veiga)



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