O coronel pediu perdão. Você dá?

flavia azevedo
12.01.2020, 11:26:04
Atualizado: 12.01.2020, 12:02:25

O coronel pediu perdão. Você dá?

Crime é crime, liberdade é liberdade. A diferença deveria estar clara

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Ele pediu desculpas e eu tô pensando em aceitar. É que pode não ter sido por mal. O coronel Eurico Filho Silva Costa, comandante da 15ª Companhia Independente da Polícia Militar (Itapuã) pode ter mesmo um olhar peculiar sobre a vida, um tipo de raciocínio que considera cada humano sobre a Terra completamente responsável por tudo de ruim que lhe acontece. Isso porque não acredito que esse senhor tenha repetido a ladainha de que as mulheres (e só nós) são culpadas pelos crimes dos quais são vítimas. Ninguém aguenta mais rebater essa conversa e, por esse motivo, este texto contém ironia. Mas não demais.

 “O que uma pessoa vai fazer numa praia deserta das 19h às 23h?”, ele perguntou, diante do crime do qual foi vítima a turista estuprada na noite de terça passada, em uma praia de Salvador. E eu nunca havia me perguntado “o que uma pessoa vai fazer num pelotão de polícia militar?” diante de qualquer policial morto em serviço. Mas é uma linha de raciocínio que, principalmente vinda de uma autoridade no tema, preciso considerar. Dentro dessa lógica, não devo me compadecer quando morrem policiais porque, ao escolherem ser policiais, eles sabiam que podiam morrer em trocas de tiros. Ou seja, “assumiram o risco”. Aqui, eu apenas cito a expressão usada pelo coronel, em relação à turista estuprada. Porque é a mesma coisa, né não?

“Ainnnn, nada disso, o policial tá cumprindo obrigações”. Sim, mas obrigações de uma profissão escolhida (normalmente com paixão) com a mesma liberdade que temos para escolher o que fazer entre as 19h e 23h. A não ser que a pessoa esteja presa (não era o caso da moça) ou tenha alguma severa incapacidade mental (também parece que não era o caso), ela pode decidir namorar numa praia deserta, por exemplo, em vez de dormir. Eu mesma preferiria, principalmente no Verão da Bahia, passar parte daquela noite nas areias de Itapuã. Isso porque eu sei que viver é perigoso, mas acho que deixar de viver é bem mais.


A minha coragem é suficiente pra namorar numa praia deserta, mas não pra ser policial. Inclusive, sou tão medrosa que quase me jogo no chão, numa noite em que, andando no bairro (nobre e bem policiado, “assumi o risco”?) da Barra, com uma amiga que é delegada, um cabra suspeito se aproximou. Ela tava armada e fez treinamento como a zorra, mas nada me deixou tranquila e até agora lembro do meu corpo tremendo e de ter pensado “é hoje que eu morro”, enquanto ela tomava as providências, impávida. Então, imagino eu (mas o coronel pode discordar) que as pessoas que escolhem a carreira militar são todas corajosas que nem minha amiga e, sim, assumem o risco de se lascar. A pergunta que eu faço é: quando morre um/a policial, então, eu não devo lamentar?

Não quero decepcionar seu Eurico, mas eu lamento, sim, independente de quem é o/a policial. Isso porque sonho com outras realidades, penso em outros países, em policiais que sequer usam armas letais. Ainda que eu saiba que nem sempre o “lado certo” dos confrontos está claro, acho bizarro que alguns policiais, por exemplo, precisem secar seus uniformes dentro de casa porque, se os penduram em varais externos, sinalizam que moram ali e viram alvo. Isso é tão triste quanto saber que certos CEPs, cores de pele e condições sociais também transformam pessoas em “suspeitos”, independentemente da forma que agem.  O conjunto está errado e isso todos/as sabem. Diante do que concluo: nenhuma escolha é segura e, por isso, não consigo entender muito bem quando é que dizer “assumiu os riscos” vale.

Viver é se arriscar e há um imenso espaço pra fazer isso dentro dos limites dos direitos individuais. Fazemos todos os dias, em diferentes níveis, no uso legítimo da nossa liberdade. Mas isso não inclui, claro, o motorista que dirige a 200km/h por hora, exemplo que o coronel utilizou, comparando ao comportamento da turista estuprada. Francamente, assim não vale. Se até eu sei, é claro que ele sabe que a nossa legislação não permite dirigir a 200km/h, mas que não há nenhuma lei que proíba qualquer pessoa de ir à praia, em qualquer horário. Discordo demais do coronel. E, pensando bem, por comparar uma vítima de estupro a alguém que comete crime de trânsito, não está, pelo menos por mim, perdoado.

***

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