O dia em que Ogum evitou um assalto na orla; áudio viralizou e deu origem a HQ

baianidades
17.11.2019, 06:00:00
Atualizado: 22.11.2019, 16:45:52

O dia em que Ogum evitou um assalto na orla; áudio viralizou e deu origem a HQ

Mawo Adelson de Brito explicou 'máximo respeito' a orixá; Wilton Bernardo ilustrou história

Depois que a onda (sonora) “Neiva do Céu” varreu o WhatsApp com um sotaque sulista bem característico, um áudio viral made in Bahia — ou noutra paragem litorânea atingida por petróleo cru — de um relato feminino que transita entre o absurdo e o engraçado já começa a se espalhar como gremlins nas correntes do mensageiro.

O vocativo nordestino é “Daniela, você não sabe…”, e o que eu sei, basicamente, é que ainda não se sabe de onde veio, embora seja um relato maravilhoso. 

Linda Bezerra, minha chefe e idealizadora dessa coluna, veio a mim com a missão de descobrir o paradeiro da protagonista da história bem/mal contada (que vai logo abaixo), mas a investigação não deu em nada. No entanto, missão dada, missão cumprida, embora de outra forma: mais literária, menos jornalística. Quem lê tanta notícia?

Vamos nos ater ao que temos: um áudio de uma senhora dizendo que se livrou de um assalto — espie só — porque o ladrão leu nas entrelinhas que ela era uma mãe de santo. Isso por carregar, a tiracolo, uns ramos de aroeira (folha de Ogum) e feijão preto (comida do mesmo orixá).

É importante que você ouça o áudio, porque nele está mais da metade da graça — nos jeitos e trejeitos, no sotaque e no léxico de baiana interiorana. Mas, aos não ouvintes, eis um resumo do relato do quase assalto na orla (sabe-se lá que orla), em texto hiper-editado.

“Daniela, você num sabe... Chegou um rapaz, perguntou informação, onde era o fim de linha. Eu e Nádia indicamos. Aí daqui a pouco vem um rapaz de lá de dentro da praia pra cá. Eu achando o rapaz bonito, achei até que tava me paquerando. Ói que miséria! Sabe o que ele disse? 'Passe o celular!' Eu digo, 'por que eu vou passar meu celular?'. Ele disse: 'eu tô lhe assaltando'. E eu disse: 'não tá, não, meu fio. Cê não tá me assaltando porque meu celular não presta, tá todo quebrado. Cê não vai querer'. Aí ele disse: 'minha senhora, passa o celular que eu estou com fome'. Eu digo 'peraí que tem comida na minha bolsa'. Antes de chegar no ponto eu tinha arrancado umas folhas. Aí eu disse: 'segure aqui as folhas de aroeira, que eu vou tirar de dentro o potinho com arroz e feijão, e aí eu lhe dou e você não fica com fome. Ele aí falou: 'a senhora é mãe de santo?' Eu digo: 'não, peguei as folhas pra rezar minha sobrinha'. Ele aí começou a se tremer, largou as folhas. Quando eu suspendi o potinho era feijão preto. Feijão preto é o que? Comida de Ogum! Aroeira é o que? Folha de Ogum! O menino saiu correndo. Mulher, a Nádia quase se mija nas caçola que a gente ia ser assaltada, não levou foi nada! Meu Deus é tão grande, tão maravilhoso, que o homem pensou que eu era mãe de santo”. 

Fúria de Ogum
Ao ouvir o áudio, claro, sorri, mas já fui me perguntando por que esse medo todo de Ogum? Como não tenho profundidade em temas relacionados a religiões afros, fui atrás de quem sabe. Minha colega Carmen Vasconcelos indicou a fonte perfeita, com as ideias mais frescas sobre o assunto, afinal, lançou no mês passado um livro — adivinha — sobre Ogum.

O estudioso e professor Mawo Adelson de Brito foi minha fonte aqui mesmo, no texto sobre “a maior briga de WhatsApp da história da Bahia”, no qual traduziu o pajubá, e agora fui perturbar ele de novo pra falar sobre mais um áudio viral. Deu certo, então, vamos manter.

E então, professor, por que esse ladrão se cagou de medo do orixá?

“Ogun é o Orixá patrono dos guerreiros e soldados, dos caçadores, dos ferreiros, dos agricultores, dos tecnólogos e dos motoristas. Uma das características mais marcantes desse Orixá é a sua fúria que pode acontecer de forma repentina. Ogun odeia a mentira”, explicou o mestre, claro, pelo WhatsApp.

Para exemplificar como a fama de Ogum/Ogun o precede, ele cita que nos tribunais e cortes de Justiça que funcionam em países da Costa Ocidental da África “é comum entre depoentes prestar juramento de falar a verdade beijando um pedaço de ferro jurando em nome de Ogun”. 

“Invariavelmente, para os que mentem usando o nome de Ogun, o castigo é a morte trágica”, alerta o autor do recém-lançado ‘Ògun: Ogun OniIre Alákoro, Gù Alágbede’, que pode ser adquirido por R$ 60 (basta encomendar pelo Insta).

Fui mais fundo e quis saber se, de fato, dá pra dizer, como a autora do áudio presume, que Ogum intercedeu por ela. “Uma leitura que faço da mística que envolve o episódio é de que houve uma intervenção dos Mentores Ancestrais da (quase) vítima com as energias que estavam impulsionando o (quase) assaltante, que perdeu o élan de superioridade sobre a vítima (componente, penso, indispensável para a configuração do domínio do agressor sobre o agredido). Daí, abandonado que foi pela sua energia agressora em face a uma situação inusitada (a reação verbal da vítima), só lhe restou fugir o quanto antes daquela cena”, concluiu, considerando prudente o temor do assaltante desertor.

Causo em quadrinhos
Se não se pode contrariar Ogum, também não é prudente ignorar pedido de Linda Bezerra. Para atender a semi-contento a pauta dela, após o fracasso de não achar a senhorinha por trás do áudio, fiz um desafio ao nobre colega Wilton Bernardo, um dos maiores ilustradores da Bahia, com quem tive o prazer de trabalhar aqui mesmo no CORREIO. 

Criador da Oficina HQ, que promove cursos de desenho, e dono do Estúdio Laço Afro (www.lacoafro.com), que cria e comercializa artigos étnicos (camisetas, canecas, chaveiros, imãs e estatuetas), a maioria com temática do candomblé, Wilton adaptou o causo zapiano para uma história em quadrinhos. 

“Para criar as imagens, dar cara aos personagens, eu lembrei do meu cotidiano. No metrô, no ponto de ônibus. Na cidade está cheia de gente assim, com essa fala gostosa, engraçada, que culturalmente se afirma, e se celebra, ainda que sem consciência”, explica WB, lamentando, porém, o que aparenta ser um caso de preconceito (por parte do ladrão fujão) sobre as religiões de matriz africana.

O resultado do quase assalto na orla aí está, para Daniela saber como tudo aconteceu e como Ogum intercedeu.



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