O espancador obedece a um padrão de comportamento: é reincidente

textão
13.02.2020, 14:29:42
Atualizado: 13.02.2020, 14:34:47

O espancador obedece a um padrão de comportamento: é reincidente

Senta que lá vem...

Dia desses, fui procurada pela ex-mulher de um colega. Não era um contato por simples cortesia ou para matar as saudades. Era, por assim dizer, um pedido de socorro. Ela me trazia notícias que, posso dizer sem exagero, mudaram minha vida. Não no aspecto material, mas na forma de enxergar o mundo, as pessoas e até a mim mesma.

Nunca fomos muito próximas. Na verdade, eu não era próxima do casal. Tinha uma relação boa com o marido, trabalhamos juntos em várias oportunidades, sempre o admirei profissionalmente e tinha enorme carinho pela pessoa que ele aparentava ser, sempre preocupado com as causas sociais, com o respeito aos direitos humanos, coisas desse naipe.

Mas, depois de tomar conhecimento dos fatos que levaram à separação, fiquei sem chão. Não se tratava de um rompimento devido à infidelidade de uma das partes ou porque, simplesmente, o amor que os unira um dia tinha chegado ao fim. Não. O motivo do desenlace fora a revelação de uma face oculta (e muito feia) do outrora homem apaixonado com quem ela havia casado, quase 20 anos atrás.

Como no clássico do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), “O médico e o monstro”, entre murros, pontapés, ofensas impublicáveis e ameaças de morte, ela conheceu o Mr. Hyde que se escondia sob a imagem do Dr. Jekyll, com quem ela dormira por bem mais que uma década.

Como jornalista, aprendi que não se deve tomar partido em histórias que nos chegam. E que sempre é imperioso ouvir o outro lado. Entretanto, não fui procurada como jornalista, mas como mulher, mãe, avó. Aquela moça é somente um ano mais velha que minha filha. E veio em busca de colo, de um ombro, de uma palavra de conforto, já que, em sua luta, só encontrou portas fechadas e reprovação. Por que? Porque suas denúncias têm como alvo uma pessoa conhecida, “um profissional respeitado, um homem das letras, um cara do bem”. Expor essa face oculta significa destruir sua reputação.

“Você quer acabar com a vida dele?”, “Deixa isso pra lá. Se ele ficar desempregado, nem vai poder lhe pagar pensão” – é com frases desse tipo que ela vem sendo recepcionada no círculo de amigos dele. Ao me procurar, suas expectativas de acolhimento já haviam baixado muito.

Não foi fácil ouvir a narrativa. Cética como sou, ficava buscando uma contradição, uma inconsistência qualquer. Mas ela tem uma memória incrível. Lembrou de episódios e situações em que eu estive presente e que corroboravam suas denúncias.

Em dado momento, me dei conta de que estava indo de encontro a toda aquela postura de defesa da mulher que sempre ostentei. Senti um pouco de vergonha, confesso. Porque, fosse outro o suspeito, eu estaria entrincheirada contra ele e não tentando encontrar um furo na história dela. Onde estava o “mexeu com uma mexeu com todas” e o “ninguém solta a mão de ninguém”, que usamos o tempo todo? É por isso que resolvi dividir essa experiência.

Não pretendo, em hipótese alguma, revelar a identidade dos envolvidos. Ao trazer esse assunto a público, quero suscitar algumas reflexões. Uma delas tem como foco a velha máxima “quem vê cara, não vê coração”. Porque, não fosse a riqueza de detalhes com que o caso me foi apresentado, eu jamais acreditaria que aquele colega tão gente boa seria capaz de agir com tanta perversidade.

Outra reflexão diz respeito ao perfil do marido agressor. Ele não está na favela, nos guetos, nos casebres miseráveis, não. Olhe ao redor: agora mesmo, ao seu lado, no mais insuspeito dos ambientes, pode estar um cruel espancador de mulheres.

Mais uma conclusão a que cheguei é que o espancador obedece a um padrão de comportamento. É reincidente. Se ele agrediu uma vez, existe imensa probabilidade de que vá repetir o ato. Então, não importa o quanto a mulher esteja apaixonada, se souber que o “príncipe” espancou uma ex, deve desistir do romance e fugir para bem longe. Não se engane: se ele fez com ela, saiba que pode fazer com você também.

E por que optei por preservar a identidade dos personagens? Por vários motivos. Um dos quais o respeito pelo contraditório – ao contrário do que me obrigaria a fazer, caso estivesse no exercício da profissão, eu não procurei ouvir sua versão dos fatos. Depoimentos da vítima e de testemunhas me convenceram de uma realidade que, ainda hoje, me custa aceitar. Depois, porque o caso está sendo devidamente tratado nas esferas criminal e judicial. Por último, não preciso revelar nomes. Só preciso que ele saiba que eu sei quem ele é e tudo o que ele fez neste e em muitos outros verões.

Texto pubicado originalmente no Facebook e replicado com autorização da autora


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