O que é: Saiba por que Irã e EUA estão em crise

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11.01.2020, 07:00:00
Atualizado: 11.01.2020, 15:31:40
Na Times Square, em Nova York, ativistas pedem fim das sanções ao Irã e que os EUA não entrem em guerra com o país persa (Spencer Platt/AFP)

O que é: Saiba por que Irã e EUA estão em crise

Países vivem clima de pré-guerra há quase três anos

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Os Estados Unidos e o Irã vivem uma escalada de tensão desde o dia 03 de janeiro, quando um ataque norte-americano culminou na morte do general iraniano Qassem Soleimani, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (Quds, na tradução do persa). O estranhamento entre os dois países, no entanto, começou bem antes e se agravou desde 2017, quando Donald Trump retirou os EUA do Acordo Nuclear de 2015. O irã respondeu à morte de Soleimani lançando 22 mísseis sobre as bases de Al-Asad e Erbil, no Iraque, instalações que abrigam tropas dos EUA. Ninguém morreu ou ficou ferido, mas houve perdas materiais. Na sequência, um avião civil da Ucrânia, que voaria de Teerã para Kiev, caiu poucos minutos após decolar da capital iraniana, matando as 185 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulação. Os EUA e o Canadá acusaram o Irã de ter derrubado o avião acidentalmente, mas Teerã negou inicialmente. Neste sábado, 11, porém, o Irã admitiu ter derrubado o avião de forma não intencional. Ao longo da semana, foguetes também caíram a cerca de 100 metros da Zona Verde de Bagdá - região na capital iraquiana que abriga a embaixada dos Estados Unidos e as representações diplomáticas de diversos outros países - e perto da base militar de Balad, onde estão mais tropas dos EUA. Nesses dois casos também não houve feridos. Na tentativa de frear o Irã, Donald Trump anunciou novas sanções econômicas contra o país persa. Para você entender a celeuma no Oriente Médio, o CORREIO fez um histórico com os principais fatos da crise, confira:

Barack Obama selou o acordo nuclear com o Irã em 2015, quando presidia os EUA (Foto: Pete Souza/White House)

O começo da confusão

O Acordo Nuclear de 2015 é o motivo principal das hostilidades entre Estados Unidos e Irã. O tratado foi assinado por Barack Obama, o governo iraniano, pela União Europeia, a Rússia e a China naquele ano. O acordo assegurava que o programa nuclear iraniano tivesse um caráter não militar, em troca da retirada das sanções econômicas internacionais que asfixiam o país. Ou seja, se o Irã não enriquecesse urânio suficiente para gerar armas atômicas, a UE, os EUA e demais países diminuiriam as sanções econômicas contra o país. 

ONU tentou interceder no impasse criado com a saída dos EUA do acordo nuclear (Foto: Mark Garten/AFP)

Acordo rompido

Ao assumir a presidência dos Estados Unidos, em 2017, Donald Trump retirou o país unilateralmente do Acordo Nuclear de 2015 e endureceu ainda mais as sanções econômicas contra o país persa, o que irritou o governo iraniano. Durante quase um ano, a UE, Rússia, China e até as Nações Unidas (ONU) tentaram intermediar uma solução para o impasse, mas Trump se recusou a retomar o acordo ou negociar regras para um novo tratado. Na opinião do presidente norte-americano, “o Irã é o maior patrocinador do terrorismo no mundo” e por isso, ele acredita que o país quer enriquecer urânio para criar armas nucleares.

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, afirmou que o país iria enriquecer urânio acima dos limites impostos pelo tratado rompido em 2017 (Foto: AFP)

A resposta do Irã

Diante da negativa de Donald Trump em retomar o tratado de 2015 ou negociar novos termos com o Irã - além da recusa dele em suspender as sanções econômicas -, Teerã também comunicou à UE, no começo do ano passado, que iria desrespeitar o acordo e passaria a enriquecer urânio acima dos limites estabelecidos no acordo rompido. A afirmação do Irã provocou apreensão mundial, interferência da ONU, mais ameaças de Trump e novos embargos econômicos ao país persa.

Petroleiro britânico foi retido pelo Irã em julho (Foto: Jan Verhoog/AFP)

Sequestro de navios

Em julho de 2019, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã sequestrou dois navios petroleiros, um deles de bandeira britânica, no Estreito de Ormuz -  pedaço de oceano entre o golfo de Omã e o golfo Pérsico que é uma das principais rotas de petroleiros do mundo - como forma de pressionar a UE e os EUA a suspenderem os embargos econômicos. O sequestro foi uma retaliação à retenção de um navio de bandeira iraniana, interceptado também naquele mês, em Gibraltar. O navio iraniano foi apreendido por suspeita de levar petróleo para a Síria, contrariando as sanções da União Europeia impostas contra o governo sírio devido à guerra civil que assola o país. O Irã e a Síria são aliados.

O general Soleimani era considerado um herói para os iranianos (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)

Morte do general

As trocas de ameaças e as retaliações entre Irã e EUA culminaram no ataque de Washington que provocou a morte do comandante da Quds, general Qassem Soleimani. O ataque, feito por drones, aconteceu em 03 de janeiro deste ano. Soleimani morreu quando deixava o Aeroporto Internacional de Bagdá. O irã prometeu vingança porque o general era considerado um herói nacional para os iranianos. 

Imagem de satélite do Planet Labs mostra base de Al-Asad após disparo de mísseis (Foto: AFP)

Ataque às bases

Na terça, dia 7, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã disparou 22 mísseis que atingiram duas bases militares no Iraque que abrigam forças dos Estados Unidos e do próprio Iraque. Na base de Al-Asad, a principal instalação dos EUA no Iraque, e em Erbil, a segunda base, os mísseis acertaram diversas construções. O chefe da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, Amirali Hajizadeh, afirmou que os bombardeios de Al-Asad e Erbil deram início a uma série de ataques contra os Estados Unidos no Oriente Médio. O objetivo é fazer Washington sair da região.

Milhares de iranianos acompanharam carro fúnebre com o corpo do general Soleimani (Foto: Mehdi Jahanghiri/AFP)

Velório e vendeta

Os quatro dias de velório de Qassem Soleimani atraíram milhões de pessoas. Os ritos fúnebres começaram no sábado, 4, em Kadhimiya, distrito xiita de Bagdá, no Iraque, e passou pelas cidades de Karbala e Narjaf. No domingo, 5, chegou à cidade sagrada iraniana de Mashhad. Na segunda, 6, o cortejo seguiu para Teerã e, na terça, 7, chegou a Kerman, cidade natal do general, onde ele foi enterrado. Em todos os locais por onde a procissão passou, os iranianos gritavam “Morte à América!” e pediam vingança.

Equipes de resgate e investigadores trabalham na área da queda do avião ucraniano (Foto: Rouhollah Vahdati/AFP)

Queda de avião

Na manhã de quarta-feira, 8, um Boing 737-800 da Ukraine Internacional Airlines caiu cinco minutos depois de decolar do Aeroporto Internacional Imam Khomeini, em Teerã, matando as 185 pessoas à bordo. Poucas horas após o acidente, levantou-se a suspeita de que o avião poderia ter sido derrubado por um ato terrorista ou de forma não intencional pelo Irã. O governo da Ucrânia, que inicialmente havia divulgado que a aeronave caiu por falha técnica, voltou atrás e passou a afirmar que aguardaria as investigações. Teerã afirmava que a queda foi por falha técnica e se recusou a entregar as caixas pretas do avião às autoridades ucranianas e à Boing, uma empresa norte-americana. No dia seguinte ao acidente, Estados Unidos e Canadá afirmaram que o avião havia sido derrubado pela defesa aérea do Irã acidentalmente. Especulou-se ainda que os EUA poderiam ter derrubado a aeronave, também de modo acidental, mas tanto Teerã quanto Washington negavam ter qualquer envolvimento com o acidente até a sexta-feira, 10, quando jornal New York Times divulgou um vídeo mostrando o momento em que o avião é atingido (veja abaixo). Na manhã deste sábado, Teerã admitiu a culpa, mas enfatizou que a intenção não era ter atingido o avião. Os 185 mortos, sendo 83 cidadãos iranianos, foram as primeiras baixas civis desde a escalada de tensões devido a morte do general Qassem Soleimani. Também neste sábado, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse esperar "admissão total de culpa"  por parte de Teerã.

Veja o vídeo com o míssel iraniano atingindo o avião:

Donald Trump disse que sanções ao Irã só terminarão se o país 'mudar o comportamento' (Foto: Saul Loeb/AFP)

Sanções Econômicas e novos ataques

Na quarta, 8, Donald Trump anunciou na Casa Branca que iria impor sanções econômicas adicionais e ainda mais duras ao Irã como resposta aos ataques a Al-Asad e Erbil. No mesmo dia, foguetes caíram próximos à Zona Verde, área das embaixadas, em Bagdá, e à base militar de Balad. Em seu discurso, Trump enfatizou que nenhum americano ou iraquiano havia sido morto em Al-Asad e Erbil e que os danos materiais foram mínimos. "Mas, os Estados Unidos  estão preparados para tudo", enfatizou. Ainda segundo Trump, os EUA continuarão com as sanções "até que o Irã mude seu comportamento" sobre o enriquecimento de urânio, mas, enfatizou que os EUA não voltarão ao acordo nuclear de 2015 e ainda aconselhou que os demais países signatários também abandonem o tratado.

Steve Mnuchin, secretário de Tesouro dos EUA, anunciou as novas sanções contra o Irã (Foto: Nicholas Kamm/AFP)

Punições adicionais

Nesta sexta, 10, os Estados Unidos impuseram sanções adicionais ao Irã como retaliação pelo ataque feito contra as bases militares. As sanções extras foram anunciadas pelo secretário de Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, e atingem oito autoridades iranianas, entre elas o secretário do Conselho de Segurança Nacional Supremo, Ali Shamkhani, e o comandante da milícia voluntária Basij, da Quds, Gholamreza Soleimani. Sofreram sanções também os maiores produtores iranianos de aço, ferro e cobre. Foram ao todo, 17 produtores de metal e companhias mineradoras iranianas. "Essas sanções vão continuar até que o regime iraniano pare de financiar o terrorismo global e se comprometa a nunca ter armas nucleares", disse Mnuchin, em comunicado.

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