Órfãos do Bonfim: baianos sofrem com mais um ano sem festa e dizem como vão celebrar

salvador
13.01.2022, 05:30:00

Órfãos do Bonfim: baianos sofrem com mais um ano sem festa e dizem como vão celebrar

“Eu até choro, sabia? Fico muito triste", contou uma das fiéis

Pelo segundo ano consecutivo, a procissão ao Senhor do Bonfim, que aconteceria nesta quinta-feira (13), está cancelada. Devido às restrições impostas pela pandemia não haverá nem caminhada, nem lavagem. Apesar disso, os 8 km de cortejo têm histórias de sobra para contar, e mesmo vazio, mantêm forte a fé de fiéis que vivem na região, como Karla Couto, que completa 28 anos no mesmo dia de homenagens ao Senhor do Bonfim. Sua mãe, Kátia Siqueira, é médica obstetra e entrou em trabalho de parto durante a caminhada, em 1994.

 “Quando eu nasci, minha mãe estava no cortejo com um barrigão. Ela é ginecologista obstetra e talvez, por isso, tenha conseguido manter a tranquilidade. Ao sentir as dores no meio da multidão, ela interrompeu a caminhada e foi para o Hospital Santo Amaro”, conta Karla.

Os únicos anos em que não participou das comemorações na igreja foram os anos em que a lavagem foi cancelada devido à pandemia. Mas apesar de não poder estar presente, não deixa de prestar suas homenagens ao seu guia há 28 anos. “São as duas únicas vezes que eu não estive lá desde que nasci, por isso, eu decidi ir até a igreja hoje, porque na quinta-feira eu não vou poder, já que eu também sou médica e vou estar trabalhando. É muito difícil para a gente não estar na caminhada. Mas durante esses dois anos, eu sigo rezando e acreditando muito para manter a minha fé forte”, explica Karla. 

Karla Couto (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

Para a publicitária Nívia Rigaud, 35 anos, o dia do Senhor do Bonfim significa um reencontro anual com a família, que mora no circuito da festa, e um dia para agradecer por tudo que pede em suas orações o ano inteiro. Ela se mudou para São Paulo há 10 anos, mas pela religiosidade, nunca deixou de voltar para Salvador. A casa da sua mãe é o ponto de encontro oficial dos parentes, na Rua da Imperatriz. No dia da festa, todos os anos eles se reúnem lá, antes de seguirem para a caminhada. 

“Eu procuro vir nessa época para aproveitar a festa do Senhor do Bonfim, que é maravilhosa e mexe tanto com a gente que é daqui, tão próximos da igreja”, conta ela. Mesmo sabendo que a festa foi cancelada, Nívia não quis abrir mão de agradecer de perto. Veio para Salvador e esteve na igreja um dia antes da comemoração oficial, para, além de prestar suas homenagens, depositar o nome dos familiares na urna de orações e conseguir evitar o possível tumulto do dia 13.  

“É muito triste mais um ano sem essa festa, só que a gente também precisa ter consciência de que é uma comemoração que, sim, aglomera pessoas, então eu seguro um pouquinho a fé e a guardo, tendo a certeza de que no próximo ela pode acontecer. Precisamos continuar acreditando muito, a nossa fé não vai morrer. Todo ano eu escrevo o nome de todos da minha família e deposito nessa urna. Muita oração se concentra nela e eu fico de lá de São Paulo crendo que coisas boas vão acontecer para mim e para minha família. Eu tenho uma fé inabalável", conta Nívia.

A aposentada Mariana Cristina Souza é outra moradora da região onde acontece o cortejo que precisou se adaptar com a falta das ruas cheias de fiéis nessa época do ano. Devota fervorosa, ela reza todos os dias para o Senhor do Bonfim e não deixa de frequentar as missas da igreja em hipótese alguma. Neste ano, sente-se triste e lida com a saudade pedindo a Deus para que a pandemia melhore, para que a comemoração volte a ter o tamanho que tinha.

“Eu até choro, sabia? Fico muito triste de saber que tudo que está acontecendo tem impedido a nossa presença na igreja nesse dia tão especial. Para quem é devota é muito sofrimento”, lamenta a aposentada. Cristina também esteve na igreja nessa quarta-feira (12), para antecipar suas orações e permanecerá em casa no dia 13, com suas velas acesas para o Senhor do Bonfim.


Mesmo sem lavagem a fé continua
Para incentivar os baianos e turistas a manterem viva a tradição da caminhada em direção à Colina Sagrada durante os festejos em louvor ao Senhor do Bonfim, realiza desde o dia 07 de janeiro uma programação especial para os fiéis soteropolitanos renderem homenagens ao Senhor do Bonfim com segurança. A programação vai até o 16 deste mês que incluiu celebrações preparatórias para a festa com temas como Papa Francisco, Vigário do Amado Jesus, Senhor do Bonfim, convida-nos a participar da vida da Igreja e da sua Missão e o lema: Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão. 

Nesta quinta-feira (13), dia em que aconteceria a tradicional “Lavagem de Corpo e Alma”, a igreja ficará fechada e será aberta às 18h, para a novena. Homenagem aos mais de 600 mil mortos, vítimas da Covid-19, no monumento ao Cristo Ressuscitado, localizado na Praça do Bonfim, às 10h. Em seguida, o Pe. Edson Menezes da Silva, Reitor da Basílica Santuário, transmitirá a sua tradicional mensagem através das Redes Sociais. Durante o dia, os fiéis, parentes, amigos, colegas, conhecidos dos falecidos poderão depositar flores brancas no referido monumento.

Nos dias 14 e 15 as novenas continuam com diferentes subtemas:

14.01.22 - Sexta-feira
16h – Recitação do terço da misericórdia pela conversão da humanidade
19h – 8ª noite da novena 
Subtema: “Chamados a ser uma Igreja em saída” 

15.01.22 – Sábado 
19h -  9ª noite da novena  
Subtema: Chamados a caminhar com o Papa Francisco e a acolher seu apelo para que sejamos “uma Igreja casa e escola de comunhão”, “com uma fisionomia acolhedora”, “uma Igreja que encontra novos caminhos” 

Já no domingo (16), acontecerá a Caminhada Virtual do Bonfim “Quem tem fé vai a pé, onde estiver”. Além de manter a tradição, os participantes são convidados a praticar um gesto de solidariedade adquirindo uma camisa, no valor de R$33,00. Toda a renda arrecadada será destinada ao projeto Bom Samaritano, obra de misericórdia da Basílica Santuário que presta assistência social a mais de 300 pessoas mensalmente.

O projeto Bom Samaritano é uma obra de misericórdia mantida pela Basílica do Senhor do Bonfim, que presta atendimento a pessoas carentes, em condição de vulnerabilidade social. Além disso, o projeto realiza serviços de saúde como pediatra, cardiologista, clínico e fisioterapia; e cursos de corte e costura, bordado, informática, crochê, bordado com fitas e flores. 

O Jornal Correio também realizará, nesta quinta-feira (13), um bate-papo, ao vivo, com o historiador Rafael Dantas, que falará sobre a história da tradicional festa. Apresentado pelo jornalista Jorge Gauthier, o programa terá também flashs ao vivo da Colina Sagrada com transmissão pelo Instagram @correio24horas, às 9h30.

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