Paulo Leandro: Os campeões da audiência

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31.07.2017, 09:39:00
Atualizado: 31.07.2017, 09:41:21

Paulo Leandro: Os campeões da audiência

O mundo consiste no azar do nascimento, no enfrentamento das doenças e na angústia da ampulheta que não para de escoar areia, em sucessão interminável de instantes, dando a impressão do tempo. No final, ufa! Tem o alívio da morte e a festa do funeral.

E olha que se fosse só isso, tava de boa. O mundo é também convívio, este o mal maior. Existir no outro. Sentir-se existindo quando o outro nos diz o que somos. Aprisionamos nosso eu numa cela mental onde nutrimos a imaginação da versão do outro sobre nós. 

Não precisamos esperar o inferno. Ele já é. Eis toda a importância das poucas alegrias, seja uma flor multicor espalhando sua beleza, inerte ao solo após a chuva, seja um amor inesperado ou a fruição da arte: cordel, dança, música, pintura e o nosso amado fútilbol. 

Sim, amigas e amigos, o fútilbol é arte e manifestação cultural, talvez a única autorizada a carimbar o RG do brasileiro. Nossos gestores e legisladores ignoram solenemente este perfume que exala da bola: a capacidade de nos fazer sentir existir no seu rolar e quicar.

Cinema, teatro, hip-hop, samba, nada nos une e desune tanto! Quer ver? Vista o manto, saia por aí e conte quantas pessoas que você nunca viu antes vão fazer alguma gracinha. Pegue o elevador, o buzão, avance no metrô com a vovó e concorde: existimos no fútil! 

O fútil é nossa muleta para seguirmos manquitolando: precisamos de gol, alegria, boa campanha, vitória, estrela, lance espetacular, ídolo, vibração da torcida... São estes os anestésicos e psicoativos liberados para seguirmos adiante no mundo além-bola.

Quando nossos clubes estão em alta e fruímos, o peso do mundo fica um pouquinho mais leve e a risada não demora. Pode funcionar também no escárnio do outro, aquecendo as labaredas do forno diário onde assamos o coirmão que fingimos não amar.

O mercado carrasco vem apequenando esta rara oportunidade de enfrentamento do mundo: para o investidor, tudo está bom, se o dinheiro está entrando. É só o que importa. O mercado controla o campeonato e o lucro fácil entra se a audiência compra.

Estamos assassinando por asfixia o fútilbol, cujo encantamento consistia exatamente na arte do fútil: o banho de cuia. A gargalhada geral do ponta entortando o lateral. O time pequeno que ganha do grande. A bagunça das arquibancadas e o farfalhar das bandeiras.

Um círculo vicia o fútilbol: protegemos os campeões de audiência e os campeões de audiência dão o retorno esperado aos investidores. A aparência de profissionalismo das arenas higienizadas esgana a poesia da imprevisibilidade e da oportunidade para todos.

Bem antes de começar o campeonato, sabemos os clubes que vão disputar o título, as vagas da Libertadores e sabemos os times que vão catar migalhas para não cair. O racismo de classe deles se diverte com nossa tristeza. Não há surpresa nem arte. Nada.

O fútil, que nos espantava pelo inesperado, hoje está integrado ao mundo entristecedor. Fundiu-se com a realidade que um dia foi sua freguesa. Despertamos do sonho bom aos gritos dos senhores do ordenamento moralizante. A embriaguez virou tédio invencível.

Escolhemos a cada momento como agir para construir o destino que só a nós pertence. Quando admitirmos que o fútil já não é, vamos futebolizar a vida no baba da Boca do Rio, perto da banca de coco de seu Gil. Nesta aurora, renascerá a fonte de nossas alegrias. 

Paulo Leandro é jornalista, prof. Dr. em Cultura e Sociedade e estuda Filosofia.

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