'Perdi meu caçulinha', diz pai de motorista morto em chacina

salvador
17.12.2019, 05:30:00
Atualizado: 17.12.2019, 08:26:06
(Bruno Wendel)

'Perdi meu caçulinha', diz pai de motorista morto em chacina

Pai e irmão de duas das vítimas esperam que tragédia dos seus familiares não se repitam

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Quando soube que o celular do seu filho caçula estava ruim, Seu Antônio Batista da Silva, 77, logo ofereceu o cartão de crédito para que ele comprasse outro e pudesse continuar trabalhando como motorista. Na sexta-feira (13), já de aparelho novo, Daniel da Silva, 31, pôde voltar a fazer corridas via aplicativo. Com o aumento da demanda de clientes, o final de semana é sempre bom período para os condutores. Mas, não foi para Daniel. 

Vítima de um crime brutal junto com outros quatro colegas de profissão, Daniel tinha filha, esposa e familiares que o amavam.

“Se eu pudesse, dava 10 celulares para meu filho trabalhar e podiam ser 10 celulares que eles tivessem levado, mas que deixassem a vida do meu filho”, emociona-se o pai. No atentado, além do aparelho, os criminosos roubaram o relógio e o tênis de Daniel.

Aposentado, Seu Antônio conta que escolheu continuar trabalhando para poder ajudar os filhos a construir uma vida com mais conforto. “Quando me perguntavam quantos filhos eu tinha, eu falava com o maior orgulho: ‘14 filhos e todos vivos, graças a Deus’. Agora eu perdi meu caçulinha, meu 'homão'. Eu tô sofrendo muito a falta dele, era minha benção. Só o carinho que ele tinha por mim e eu por ele, eu tinha tudo”, desabafa.

Nestes últimos dias, Seu Antônio tem evitado ver televisão para não ter detalhes de como o crime aconteceu. Quando vê o assunto na TV, pede para desligar. O fim de semana passou sem que ele conseguisse comer ou dormir direito. A dor do aposentado é a mesma de dona Nyce Souza, mãe de Alisson Damasceno, 27, outra vítima da crueldade dos criminosos. O irmão de Alisson, Rodrigo Damasceno, 22, é quem fala por ela. 

“Minha mãe está bem debilitada, na base da graça de Deus e dos medicamentos. A gente lembra e chora, para, lembra e chora de novo. O que mais nos marca é a brutalidade que foi, a tortura”, diz ele.

Morador de Igrapiúna, no interior da Bahia, Rodrigo define a família como humilde e trabalhadora. Alisson também vivia lá até que ficou desempregado e veio para Salvador tentar oportunidades.“Ele decidiu buscar uma vida melhor, o que todo pobre sonhador quer”, conta o irmão. 

Quando chegou na capital, começou a trabalhar em um supermercado, mas a rede teve um corte e ele perdeu o emprego. A partir daí, começou a rodar a cidade como motorista de aplicativo. Alisson alugava um veículo e tinha o sonho de comprar o próprio carro para ser mais independente. A família dele mantinha contato regularmente. Em Igrapiúna, Alisson havia deixado uma filhinha de seis anos e também tinha uma namorada em Salvador.

“Ele era um cara que era uma eterna criança, ingênuo, não tinha malícia. Nesse acontecimento, diversas pessoas podem ter se negado a fazer a corrida nesse lugar, mas ele foi com o coração pensando que todo mundo é amigo e acabou se deparando com essa maldade”, comenta Rodrigo. 

O irmão acrescenta que ambos nunca tiveram uma vida fácil e houve pouco lazer na infância porque começaram a trabalhar muito cedo. Apesar da dureza, Rodrigo diz que isso os formou como homens fortes que queriam retribuir os esforços do pai e da mãe. “Eles nos educaram e, apesar de humildes, não nos deixaram faltar nada, nem veste e nem comida. A gente sempre quis dar um futuro melhor para nossa mãe”, fala embargando a voz. 

Enquanto Alisson fazia de tudo para honrar os esforços dos pais, Seu Antônio abriu mão do sossego da aposentadoria para continuar trabalhando e deixar uma vida melhor para os herdeiros. Daniel, por sua vez, só passou a trabalhar como motorista de aplicativo porque queria uma educação mais completa para a filha de um ano. Foi nas plataformas que ele viu a oportunidade de complementar a renda com o que já ganhava dirigindo uma van no Largo do Tanque.

“Ele me dizia que o dinheiro estava pouco e que ia cadastrar o carro. Eu falei: ‘Meu filho, seu carro é novo e isso de dirigir é perigoso’. Mas ele me dizia que precisava para pagar as contas e sustentar a filha”, relata Seu Antônio, que sugeriu à mãe da neta que, a partir de agora, deixe a criança com ele durante o dia.

Atravessadas por um crime que chocou todo o país, as famílias têm em comum o desejo de que as histórias dos seus familiares não se repitam.

“Eu gostaria de deixar um apelo aos órgãos maiores para que impeçam que essas tragédias aconteçam com outras famílias. Eu não fiquei sentido só pela minha perda, mas também pelas outras vítimas. Eu acho que se o outro homem não conseguisse fugir, a tragédia teria sido pior. Deus é misericordioso e, neste momento, não consigo calcular o tamanho dele, que tem nos dado força para seguir de cabeça erguida”, conclui o irmão de Alisson.

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