PMs apresentam versão diferente das testemunhas no caso Márcio Perez

salvador
24.09.2018, 14:50:00
Atualizado: 24.09.2018, 15:26:20
Empresário perdeu o controle do carro depois ser baleado (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

PMs apresentam versão diferente das testemunhas no caso Márcio Perez

Mulher que estava no carro com a vítima contou a mesma história que os vizinhos

Um engano. É assim que os policiais militares definem a ação que resultou na morte do empresário espanhol Márcio Perez Santana, 41 anos, ocorrida na quarta-feira (19), no bairro de Armação, em Salvador. A TV Bahia e o CORREIO tiveram acesso ao registro feito pelos militares após o assassinato, onde eles explicam o que aconteceu naquela noite.  

Segundo o registro, os PMs foram abordados por pessoas próximo ao antigo Centro de Convenções, por volta das 23h. Elas contaram que homens em um carro branco, modelo Fiat Palio, estavam realizando assaltos na região. Os policiais teriam identificado um veículo suspeito alguns metros à frente e ligaram a sirene da viatura, pedindo que o motorista parasse.

Ainda segundo o relato dos militares, quando os homens no veículo perceberam a presença dos policiais atiraram contra a viatura e tentaram fugir, o que deu início a uma perseguição com tiroteio. Os policiais contaram que o carro de Márcio surgiu no meio da confusão, em alta velocidade e colidiu no canteiro central.  

Os PMs disseram que socorreram Márcio até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Marback, onde o empresário chegou sem vida. Havia uma mulher no carro com a vítima, que teve algumas escoriações. O caso foi registrado na 9ª Delegacia (Boca do Rio). Veja vídeo do socorro abaixo:

Contrário
A versão dos policiais é diferente do relato das testemunhas. Segundo os moradores, Márcio estava estacionando o carro na porta de sua casa, na Rua Gáspar da Silva Cunha, quando a viatura se aproximou, com faróis e giroflex apagados. O empresário teria ficado com medo de ser assaltado e arrastou com o carro, sendo perseguido e baleado na nuca.

"Eles chegaram armados dizendo: 'Desce, desce'. Mas acho que Márcio não viu que eles eram policiais e tentou escapar e os caras começaram atirar", disse uma mulher, amiga da vítima.

Os policiais da 58ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/ Cosme de Farias) não explicaram no relato o que estavam fazendo próximo ao antigo Centro de Convenções -  a base da 58ª CIPM fica a nove quilômetros de distância do local dos tiros, fora da área de cobertura. 

Márcio Perez era filho único e deixou duas filhas (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

Nesta segunda-feira (24), o advogado Alcindo Anunciação Júnior, que representa a família de Márcio, conversou com a TV Bahia e disse que a versão da mulher que estava com o empresário no momento do crime é a mesma das testemunhas que presenciaram a ação.

“A versão apresentada (pela mulher) é de que eles chegaram em casa, pararam o carro, e que um outro carro parou logo atrás, só com os faróis ligados, sem giroflex (sirene). Eles ouviram os gritos ‘sai, sai, sai’. Márcio Perez pensou que fosse uma ação de bandidos e saiu com o carro. Foi quando começaram os tiros”, contou o advogado.

Durante a perseguição, o carro de Márcio subiu o meio-fio e bateu em uma árvore. Foi nesse momento que a mulher percebeu que Márcio Perez estava baleado. O advogado disse que também teve acesso a versão apresentada pelos policiais e que as duas histórias estão sendo apuradas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e pela Corregedoria da PM.

Movimentação na casa da vítima após o crime (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

Nesta segunda, o Ministério Público da Bahia (MPE-BA) designou dois promotores para acompanhar o caso. O assassinato de Márcio Perez ganhou as manchetes dos jornais espanhóis e o cônsul da Espanha no Brasil enviou uma carta para o governador Rui Costa cobrando empenho da polícia baiana para esclarecer o crime.

Dois policiais militares foram afastados das atividades, mas não tiveram os nomes divulgados. O corpo do empresário foi velado na capela do Hospital Espanhol na sexta-feira (21) e encaminhado para a Espanha, onde os pais dele moram. Márcio era filho único e deixa duas filhas.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) segue sem comentar a investigação.

Vidros do carro ficaram destruídos (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

Empresário
Márcio Perez era formado em Economia e sócio de uma empresa que presta consultoria a uma operadora de telefonia. Ele tinha duas filhas - uma completou 9 anos no dia 18 e, por isso, uma festa de aniversário estava programada para domingo (23).

De acordo com vizinhos do empresário, ele morava no mesmo lugar - o 2º andar de uma casa na Rua Gáspar da Silva Cunha - há 40 anos. “Ele chegou [para morar na casa] com 1 ano de nascido e pretendia ir para Espanha, onde estão os pais. Ele era filho único”, disse uma vizinha, que não quis se identificar. Assim como outros moradores, ela disse que ouviu os tiros pouco depois das 23h.

Em relação à mulher que estava no banco de carona do carro, os vizinhos disseram que não a conheciam. “Nunca a vi com ele. Sabemos que ele tem uma ex-mulher e dois filhos. O parente mais próximo é um primo que morava aqui em Salvador”, disse outra vizinha.

Em entrevista à TV Bahia, a ex-mulher de Márcio, que não teve o nome divulgado, disse que ele pretendia levar as filhas para passar as férias na Espanha. Este final de semana, ele ficaria com as meninas: “Ele era um paizão, uma pessoa supertranquila. Foi a pior coisa que eu já fiz na minha vida, foi dar essa notícia para as minhas filhas”.

Vítima foi baleada na nuca (Foto: Evandro Veiga/ CORREIO)

Polícia baiana entre as que mais matam
A polícia da Bahia é uma das que mais matam no Brasil. Ao longo do ano de 2016, 457 pessoas foram mortas na Bahia em decorrência de intervenções policiais. Os dados foram divulgados pelo Atlas da Violência 2018, em junho passado.

A pesquisa, conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), coloca a Bahia na terceira posição no ranking de mortes por intervenções policiais, atrás apenas do estado do Rio de Janeiro, com 925 casos ao longo de 2016, e de São Paulo, com 856 mortes em situações semelhantes no mesmo ano.

Os números usados foram fornecidos pelas secretarias de segurança pública dos estados, embora, no restante do Atlas, tenham sido utilizados números Datasus, do Ministério da Saúde. É que, neste caso, não há informações da saúde sobre todos os estados.

Se, mesmo assim, forem considerados os números da saúde, a Bahia aparece em segundo lugar no ranking, com 364 mortos decorrentes de intervenção policial, atrás somente do Rio de Janeiro, com 538. No caso de São Paulo, os dados da saúde computam somente 254 mortes nessas circunstâncias em todo o ano.

A incongruência nos dados é destacada no próprio estudo. Segundo o instituto, isso acontece porque os dados do Datasus são fornecidos por peritos e médicos legistas e que esses profissionais nem sempre têm todas as informações necessárias quando fazem o registro das mortes para indicar a autoria do homicídio. Por isso, em muitos casos, os crimes são classificados como morte por agressão.

O Atlas da Violência 2018 foi construído com base nos dados de 2016 e apontou, entre outras coisas, que em dez anos a taxa de homicídios na Bahia quase dobrou: cresceu 97,8%. O estudo indica que, de 2006 para 2016, o Brasil sofreu aumento de 23,3% nos homicídios de jovens (pessoas com idades entre 15 e 29 anos), sendo que no último ano analisado pela pesquisa, 33.590 jovens foram assassinados - 94,6% deles eram homens.

Procurada, a SSP-BA informou, na época, que as mortes em confronto são acompanhadas pelas corregedorias: “A Secretaria da Segurança Pública da Bahia ressalta que todo policial brasileiro, por lei, tem o direito de reagir a ataques de criminosos. Acrescenta que todas as mortes em confronto são acompanhadas pelas corregedorias”.

Onde denunciar
Corregedoria da PM - Quem se sentir coagido ou ameaçado por policiais militares pode procurar a Corregedoria da PM, na Rua Amazonas, 13, no bairro da Pituba, para registrar a ocorrência.

OAB -  A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA) também oferece auxílio através da Comissão de Direitos Humanos. Quem estiver precisando de ajuda pode entrar em contato pelo e-mail comissoes@oba-ba.org.br ou ir pessoalmente no 1º andar do Fórum Ruy Barbosa, em Nazaré, ou na sede da instituição, na Piedade.

MP-BA -  O Ministério Público do Estado (MP-BA) também atende casos através do Grupo Especial de Atuação para o Controle Externo da Atividade Policial (Gacep). O telefone é 3103-6805.


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