Por dívida de 2011, Justiça bloqueia R$21,5 milhões do Bahia

e.c. bahia
12.05.2020, 14:29:00
Atualizado: 19.05.2020, 21:33:21
Tricolor entrou com recurso e cobra que ex-presidente Marcelo Guimarães Filho explique a dívida (Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia)

Por dívida de 2011, Justiça bloqueia R$21,5 milhões do Bahia

Tricolor diz que valores não entraram no clube e acusa o ex-presidente Marcelo Guimarães Filho

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A Justiça determinou o bloqueio de bens do Bahia para pagar uma dívida de R$ 21,5 milhões contraída pelo clube com a empresa Ingresso Fácil, do grupo BWA, em 2011, durante a gestão do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho, destituído do cargo em 2013 após intervenção judicial.

Em nota, o Bahia afirma que o valor da penhora pedida pela Justiça é de R$ 18,3 milhões. O valor seria somado aos R$ 3 milhões que o clube teve bloqueado no ano passado para formar o montante total da dívida. A decisão cabe recurso.

Ao CORREIO, o vice-presidente do Bahia, Vitor Ferraz, explicou que um documento de confissão da dívida foi assinado por Marcelo Guimarães Filho quando ele ainda era presidente do Bahia, mas o clube não reconhece que os valores em questão tenham entrado nos cofres do tricolor.

"É uma dívida antiga, de 2011, contraída pelo Esporte Clube Bahia S/A, não foi o Bahia entidade esportiva, e na época Marcelo Guimarães Filho assinou um documento de confissão de dívida, um valor original de aproximadamente R$ 6,5 milhões. Com valor de juros e correção fez chegar nesse valor que está hoje", explica Ferraz.

"Essa confissão é para consolidar débitos que seriam fruto de operações anteriores. Ele pega e consolida isso tudo em apenas um documento, esse valor de R$ 6,5 milhões. Mas não explica quais foram essas operações que fizeram chegar esse valor, nem para qual finalidade esse dinheiro foi usado, simplesmente diz que o Esporte Clube Bahia S/A é devedor dessa quantia e pagaria de tal forma", continua.

Como o valor nunca foi pago para a BWA, em 2014 a empresa entrou com processo contra o Bahia para executar a dívida. Após não conseguir bloquear bens do Esporte Clube Bahia S/A, que atualmente não tem atividade, a ação partiu para a entidade esportiva, um dos sócios da S/A. O outro sócio é a Liga Futebol, empresa do banco Opportunity.

"Ao longo desse tempo a gente entrou com algumas medidas que impediram o bloqueio de bens. No ano passado conseguiram um valor um pouco superior a R$ 3 milhões, e agora uma nova ordem de bloqueio determinando a execução do valor total, que hoje chega a cerca de R$ 21,5 milhões", explica Vitor Ferraz.

Ainda de acordo com o dirigente, o Bahia conseguiu impedir que os R$ 3 milhões bloqueados pela Justiça não fossem repassados para a BWA, mas não conseguiu recuperar o valor, que segue bloqueado. Ferraz explica ainda que o tricolor tem tentado cobrar explicações do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho e periciar as contas do clube para provar que o valor não foi repassado à entidade.

"Essa empresa tinha negócios com o clube, fazia a operação das catracas de Pituaçu. Muitas transações financeiras entre a empresa e o Bahia existiram, mas a gente não consegue identificar qualquer operação financeira, além da operação de ingressos, que justifique esse valor maior. Existem algumas alterações de valores maiores, mas nenhuma que chegue perto desse valor da dívida", diz.

"A gente não sabe por que essa confissão de dívida, o documento não diz. Normalmente quando se confessa uma dívida se diz a origem da dívida, mas não há nada disso. É um documento que simplesmente diz que o clube deve tal, com juros de tal com pena tal", continua.

Os valores bloqueados pela Justiça derivam de receitas como contratos de televisão, vendas de atletas, patrocínios e arrecadação na loja do clube, limitado a 10% do valor total de cada receita. Para impedir um prejuízo maior do que já vem sofrendo por conta da pandemia do novo coronavírus, o Bahia tenta evitar a penhora colocando bens como a Cidade Tricolor e o terreno do Fazendão como garantia até que o processo seja finalizado.

Processos
Essa não é a primeira vez que o Bahia sofre por causa de dívidas deixadas por gestões passadas. Em acordo na Justiça do Trabalho, todos os meses o tricolor desembolsa quantias para quitar processos trabalhistas. De acordo com o clube, com os valores que são pagos todos os meses, seria possível aumentar a folha do futebol em 30%.

Já o ex-presidente Marcelo Guimarães é Filho é réu em um processo em que o Bahia cobra a restituição de R$ 44 milhões. O valor teria sido gasto indevidamente pelo ex-gestor no período em que foi presidente do clube.

"Na ação que o Bahia cobra R$ 44 milhões, um dos pedidos é referente a isso (dívida com a BWA). Ele fez esse documento de confissão de dívida totalmente em desacordo com o que diz o estatudo do Bahia S/A, totalmente irregular, e tem que assumir a responsabilidade", finalizou Vitor Ferraz.

O outro lado
O ex-presidente Marcelo Guimarães Filho enviou uma nota, por meio de sua assessoria, na qual nega que o clube tenha contraído a dívida durante sua gestão, que durou de dezembro de 2008 a julho de 2013. Com o título "Com meias verdades se conta uma grande mentira", ele . A nota segue transcrita na íntegra abaixo:

"Lamentável a acusação equivocada dos gestores pós intervenção teratológica do Esporte Clube Bahia sobre dívida contraída pelo Clube que – é bom esclarecer – não foi originada na minha gestão.

Isso porque, quando assumi a presidência do Esporte Clube Bahia, a dívida existente com a empresa Ingresso Fácil já existia pois a mesma era a gestora dos ingressos comercializados dos jogos do time por volta de 2002 [o presidente na época era Marcelo Guimarães, pai dele]. Já encontrei a dívida e como tantas outras, apenas autorizei que fosse firmado um acordo financeiro para liquidar a mesma e evitar uma demanda judicial pois, inclusive, a referida ainda prestava serviços para o Clube.

A responsabilidade do pagamento das dívidas é do time, ou seja, a gestão pós intervenção deveria ter honrado com os pagamentos de forma parcelada do referido débito, sendo certo que a ação judicial movida pela Ingresso Fácil no ano de 2014 só demonstra claramente que os gestores não foram eficientes em obstaculizar essa demanda judicial.

Pior! Com a falta de gestão e consequentemente a demanda judicial, o valor antes negociado que deveria ser liquidado de forma parcelada, PASMEM, QUADRIPLICOU! Tempos sombrios dessa nova gestão que vive de marketing para esconder a fraca administração".

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